27 de junho de 2017

A estratégia de tensão da OTAN

Manlio Dinucci


O que aconteceria se o avião do secretário de Defesa dos Estados Unidos Jim Mattis, em voo da Califórnia ao Alasca ao longo de um corredor aéreo sobre o Pacífico, fosse interceptado por um caça russo da aeronáutica cubana? A notícia ocuparia as primeiras páginas, suscitando uma onda de preocupadas reações políticas. Inversamente, não se mexeu sequer uma folha quando em 21 de junho o avião do ministro russo da Defesa Sergei Shoigu, em voo de Moscou ao enclave russo de Caliningrado pelo corredor sobre o Mar Báltico, foi interceptado por um caça F-16 estadunidense da aviação polonesa que, depois de se aproximar ameaçadoramente, teve que se afastar com a intervenção de um caça Sukhoi SU-27 russo. 

Uma provocação programada, que faz parte da estratégia da OTAN visando a aumentar na Europa, dia após dia, a tensão com a Rússia. De 1º a 16 de junho se desenvolveu no Mar Báltico, perto da costa russa e com a motivação oficial de defender a região da “ameaça russa”, o exercício da OTAN “Baltops” com a participação de mais de 50 navios e 50 aeronaves de guerra dos Estados Unidos, França, Alemanha, Grã Bretanha, Polônia e outros países como Suécia e Finlândia, não membros, mas parceiros da Aliança. 

Enquanto isso, de 12 a 23 de junho, realizou-se na Lituânia o exercício Iron Wolf que viu empenhados, pela primeira vez, dois grupos de batalha da OTAN “com presença avançada potenciada”: o da Lituânia sob comando alemão, compreendendo tropas belgas, holandesas e norueguesas e, a partir de 2018, também francesas, croatas e tchecas; e o da Polônia, sob comando americanas, incluindo tropas britânicas e romenas.

Tanques Abrams da 3ª Brigada blindada dos EUA, transferida à Polônia em janeiro último, entraram na Lituânia através do Suwalki Gap, um trecho de terreno plano ao longo de uma centena de quilômetros entre Caliningrado e a Bielorrússia, unindo-se aos blindados Leopard do batalhão alemão 122 de infantaria mecanizada. O Suwalki Gap, adverte a OTAN exumando o aparato propagandístico da velha guerra fria, “seria uma passagem perfeita através da qual os blindados russos poderiam invadir a Europa”. 

Em plena atividade estão também os outros dois grupos de batalha da OTAN: o da Letônia sob comando canadense, que inclui tropas italianas, espanholas, polonesas, eslovenas e albanesas; e o da Estônia sob comando britânico, com tropas francesas e, a partir de 2018, também dinamarquesas. 

“As nossas forças estão prontas e posicionadas no caso em que seja necessário para enfrentar a agressão russa”, assegura o general Curtis Scaparrotti, chefe do Comando europeu dos Estados Unidos e ao mesmo tempo Comandante supremo aliado na Europa. Não são apenas os grupos de batalha da OTAN “com presença avançada potenciada” que estão por ser mobilizados. 

De 12 a 29 de junho se desenvolve no Centro da OTAN de treinamento das forças conjuntas, na Polônia, o exercício “Coalition Warrior” cujo escopo é experimentar a mais avançada tecnologia para dar à OTAN a máxima prontidão e interoperatividade, em particular no confronto com a Rússia. 

Participam mais de mil cientistas e engenheiros de 26 países, entre os quais os do Centro da OTAN para a pesquisa marítima e experimentação com sede em La Spezia. Obviamente, Moscou não está com as mãos abanando. Depois que o presidente Trump visitar a Polônia em seis de julho, a Rússia terá no Mar Báltico um grande exercício naval conjunto com a China. Talvez conheçam em Washington o antigo provérbio: “Quem semeia ventos, colhe tempestade”.

20 de junho de 2017

Os Estados Unidos parecem mais interessados em atacar Assad na Síria do que em destruir o ISIS

É instrutivo que o Ocidente agora exprima mais indignação com o uso de gás - culpa o regime de Assad por isso, é claro - do que a continuada crueldade do ISIS

Robert Fisk


Um jato sírio (semelhante ao fotogrado em 23 de março de 2017) foi derrubado pelas forças dos EUA no domingo. Getty Images

Tradução / A extraordinária destruição de um avião de combate sírio por um avião americano no domingo, 18 de junho, tem muito pouco a ver com o alvo do avião sírio no deserto, perto de Rassafa, mas muito mais com o avanço do exército sírio perto das forças curdas apoiadas pelos Estados Unidos ao longo do Eufrates. Nos últimos meses, os sírios suspeitam cada vez mais que a maioria das forças curdas no norte da Síria – muitos delas aliados do governo de Assad até pouco tempo atrás – passou para o lado dos americanos.

De fato, os militares em Damasco não ocultam o fato de que terminaram o fornecimento de armas regulares e munições aos curdos – a quem, aparentemente, forneceram 14 mil rifles YAK-14 desde 2012 – e o regime sírio ficou indignado ao saber que as forças curdas receberam recentemente um enviado dos Emirados Árabes Unidos.

Há informações não confirmadas de que um enviado saudita também teria visitado os curdos. Isto, evidentemente, é posterior ao infame discurso de Trump em Riad, no qual o presidente dos Estados Unidos deu total apoio americano à monarquia saudita em suas políticas anti-iranianas e anti-sírias e depois apoiou o isolamento saudita do Catar.

No terreno, o exército sírio está realizando uma de suas operações mais ambiciosas desde o começo da guerra, avançando ao redor de Sueda no sul, na campina de Damasco e a leste de Palmira. Dirigem-se paralelamente ao Eufrates naquela que é, claramente, uma tentativa por parte do governo de “libertar” a circunscrita cidade de Deir fez-Azor, cujos 10 mil soldados sírios estiveram sitiados ali durante mais de quatro anos.

Caso puderem levantar o sítio, os sírios terão outros 10 mil soldados que poderiam se unir para recapturar mais territórios. No entanto, o mais importante é que o exército sírio suspeita que o Estado Islâmico – prestes a perder Raqua para os curdos e Mosul para os iraquianos, ambos apoiados pelos Estados Unidos – pode tentar assaltar a guarnição de Deir fez-Azor e declarar uma “capital” alternativa para si mesmo na Síria.

Neste contexto, o ataque americano da segunda-feira foi mais uma advertência aos sírios para se manterem afastados das chamadas Forças Democráticas Sírias – nome de fachada de um grande número de curdos e alguns combatentes árabes – já que agora estão muito próximos uns dos outros no deserto. Os curdos tomarão Raqua – pode ter havido um acordo entre Moscou e Washington sobre isso –, já que o exército sírio está muito mais interessado em aliviar Deir fez-Azor.

O mapa está literalmente mudando a cada dia. Mas o exército sírio segue ganhando contra o Estado Islâmico e suas milícias – com a ajuda da Rússia e de Hezbollah, evidentemente – embora relativamente poucos iranianos estejam envolvidos. Os Estados Unidos exageraram enormemente o tamanho das forças iranianas na Síria, talvez porque isto encaixa com os pesadelos sauditas e americanos de expansão iraniana. Mas o êxito do regime de Assad é certamente preocupante para os americanos e para os curdos.

Então, quem está lutando contra o Estado Islâmico? E quem não está lutando contra o Estado Islâmico? A Rússia afirma que matou o terrível e auto-denominado “califa do Estado Islâmico”, al-Baghdadi. A Rússia disse que está lançando mísseis cruzeiros contra o Estado Islâmico. O exército sírio, apoiado pelos russos, está lutando contra o Estado Islâmico. Presenciei isso com os meus próprios olhos.

Mas o que os Estados Unidos estão fazendo ao obstruírem, primeiro, a base aérea de Assad perto de Homs, depois os aliados do regime perto de Al Tan e agora um dos aviões de combate de Assad? Parece que Washington está agora mais disposto a atacar Assad – e seus partidários iranianos dentro da Síria – do que em destruir o Estado Islâmico. Isso seria seguir a política da Arábia Saudita, e talvez seja o que o regime de Trump quer fazer. De fato, os israelenses bombardearam tanto as forças do regime sírio como o Hezbollah e os iranianos, mas nunca o Estado Islâmico.

É ilustrativo ver que o Ocidente manifeste agora mais indignação pelo uso de gás – culpa o regime de Assad por isso, evidentemente – do que pela contínua crueldade do Estado Islâmico com os civis na maioria das áreas que o “califado” ainda ocupa na Síria e no Iraque. Se devemos acreditar no que todos os americanos agora dizem, que querem destruir o Estado Islâmico, por que estão muito dispostos a continuar a obstruir as forças do governo sírio que estão lutando contra o Estado Islâmico? Quer Washington simplesmente destruir a Síria e deixá-la como um estado fracassado? E pode ter sucesso se a Rússia estiver ameaçando atacar aviões americanos, caso voltarem a atacar os jatos sírios?

18 de junho de 2017

Cresce a resistência de classe à "globalização"

por Prabhat Patnaik


Tradução / O termo "globalização", embora muito utilizado, é extremamente enganoso, tal como o seu presumido "par", o "nacionalismo". Isto acontece porque ambos os termos são utilizados de modo abrangente sem qualquer referência ao seu conteúdo de classe, como se só pudesse haver uma espécie de "globalização" e só uma espécie de "nacionalismo". Utilizar conceitos destacados do seu conteúdo de classe é um dos truques favoritos da ideologia burguesa: o que equivale a conferir universalidade a conceitos que no essencial pertencem só ao discurso burguês, como se este fosse o único discurso possível do universo e todas as opções estivessem confinadas apenas a trajetórias alternativas dentro deste universo.

Esta utilização não-classista de palavras que servem para tudo torna possível estabelecer antinomias. Assim, seja o que for pode parecer melhor do que outra coisa, como se fosse algo razoável. Isso equivale a endossar o que disse o lado conservador de Hegel: "O real é a razão". Portanto é estabelecida uma antinomia entre "globalização" e "nacionalismo" onde a primeira parece progressista, aberta, democrática e transportadora da "modernidade", ao passo que a última parece reacionária, fechada anti-democrática ao ponto de ser fascista, e anti-"moderna". Qualquer oposição àquilo que existe (isto é, a "globalização") é então alcunhada, dentro desta disjuntiva binária, como um movimento reacionário, um afastamento da marcha rumo à "modernidade", em direção a um tradicionalismo opressivo e anti-democrático. A resistência contra a opressão dentro do atual regime de "globalização" é dessa forma desacreditada como uma regressão reacionária a um passado horrendo.

Uma vez que tal ideia também permeia certas seções da esquerda, estas também encaram a resistência a uma "globalização" opressiva (onde a opressão decorre devido ao conteúdo de classe desta globalização), como um recuo para um nacionalismo reacionário – e desenvolvem uma atitude distante em relação à mesma. Isto ironicamente serve para atuar como uma profecia auto-realizável: a própria frieza de segmentos da esquerda em relação à resistência contra a "globalização" dá uma oportunidade às forças reacionárias da direita e mesmo fascistas de se posicionarem como amigas de tal resistência – e isto realmente parece dar a esta resistência o caráter muito reacionário que estes segmentos da esquerda esperavam desde o começo.

Resistência cada vez mais liderada pela esquerda

A questão real portanto é encarar termos como "globalização" levando em conta o seu conteúdo de classe e também o conteúdo de classe da resistência a ela. E aqui emerge o fato inequívoco de que a atual "globalização" – a qual representa a hegemonia do capital financeiro internacional e tem provocado miséria aguda entre os trabalhadores por todo o mundo, ou seja, os trabalhadores nos países capitalistas avançados e os trabalhadores, camponeses, pequenos produtores e trabalhadores agrícolas nos países subdesenvolvidos – está a ser por eles desafiada por toda a parte. Uma resistência, tal como não se via desde há décadas, está a crescer, a qual, embora confinada dentro de países, tem no entanto uma ampla difusão entre os demais. E mais ainda, esta resistência está agora a ser cada vez mais conduzida pela esquerda, pois ela abstém-se por toda a parte da sua anterior ambivalência quanto à globalização liderada pelas finanças. 

As eleições presidenciais dos EUA trouxeram à tona um auto-proclamado socialista, Bernie Sanders, o qual tomou claramente uma posição reconhecendo a miséria aguda acumulada sobre os trabalhadores americanos pela globalização conduzida pelas finanças, e que se desempenhou extremamente bem na corrida eleitoral e poderia mesmo ter derrotado Donald Trump, até ter sido expulso da corrida pelo establishment do Partido Democrata (faltando-lhe infelizmente a coragem para combatê-lo). As eleições presidenciais francesas trouxeram à tona Jean-Luc Melenchon, candidato da esquerda (apoiado pelo PCF) que obteve quase 20 por cento dos votos (19,64), apenas um pouco menos do que Emmanuel Macron que obteve a vitória final no primeiro turno (23,75). E agora as eleições britânica trouxeram à tona um Partido Trabalhista liderado por um socialista, Jeremy Corbyn, que fora sistematicamente ridicularizado não só pelos conservadores como também pelos blairistas dentro do Partido que haviam capturado durante décadas e que eram ardentes advogados das políticas neoliberais promovidas pela globalizada conduzida pelas finanças.

Os resultados da eleição britânica, além de serem uma rejeição de Theresa May cujo governo conservador foi reduzido a uma minoria, e aos blairistas, também cortaram a dimensão do UKIP, o partido de direita anti-imigração que foi um destacado apoiante do Brexit. Ele obteve apenas 1,8 por cento dos votos e nem uma única cadeira, sua votação caiu muito abaixo do 10,8 por cento em comparação com a eleição geral anterior. Uma das afirmações da oposição liberal do establishment ao Brexit foi que era uma campanha da direita a partir da qual o UKIP venceria. Mas claramente a classe trabalhadora britânica, a qual esmagadoramente apoiou o Brexit, assim o fez por causa da opressão econômica da UE e não por qualquer simpatia pelo UKIP. Na verdade, ela tinha escassa consideração pelo UKIP e uma vez que o Partido Trabalhista se livrou da influência blairista na sua liderança, afluiu às bandeiras do Labour. Corbyn pode não ter vencido realmente a eleição, mas ele reconstruiu a ponte entre os sindicatos e o Partido Trabalhista a qual fortalecerá a intervenção da classe trabalhadora e a resistência contra a globalização conduzida pela finança.

Tudo isto são desenvolvimentos na arena eleitoral dos países capitalistas avançados, refletindo a oposição da classe trabalhadora à globalização. Mas mesmo na Índia, uma forte resistência do campesinato contra os apertos a que os levou o regime neoliberal sob a globalização liderada pela finança vieram agora à superfície após um período de tempo muito longo, embora seja demasiado cedo para encontrar reflexo disso na arena eleitoral. O movimento camponês emergiu em pelo menos três estados, Maharashtra, Madhya Pradesh e Rajasthan (todos dominados pelo partido BJP o qual é o instrumento atual para a imposição dos ditames da oligarquia corporativo-financeira ligada à finança internacional), cujas reivindicações incluem preços remunerativos e um cancelamento de dívida (debt-waiver). O movimento chega após um interregno de aproximadamente quatro décadas. Durante quatro décadas houve suicídios de camponeses mas não lutas camponesas em grande escala contra as políticas que levaram ao seu empobrecimento. Não há dúvida que têm sido lutas sobre questões específicas em bolsões específicos mas não movimentos generalizados e sincronizados.

Antecedentes do movimento camponês

Um movimento geral por todos os estados do país a exigir preços remunerativos havia ocorrido só no fim da década de 1970. Vale a pena recordar aqui os antecedentes daquele movimento. O fim dos anos 60 e princípios dos anos 70 foi um período de inflação maciça na Índia, com a taxa em 1973-74 chegando aos 30 por cento na sequência do primeiro choque petrolífero (embora o choque petrolífero tenha apenas se somado à fúria da inflação que tivera início). O drástico esmagamento da classe trabalhadora imposto por esta inflação foi um fator importante por trás da onda de lutas grevistas dos trabalhadores daquele tempo, dos quais a Greve Ferroviária de 1974 foi a mais importante. A insatisfação devida à inflação foi também responsável pelo fato de o [partido do] Congresso de Indira Gandhi perder as assembleias eleitorais em Gujarat.

Portanto, o governo Indira Gandhi estivera sob pressão para fazer algo acerca da inflação. Ele queria controlar esta inflação invertendo os termos de troca entre o setor agrícola e o não agrícola, contra os primeiros, o que significa efetivamente controlar a inflação pelo esmagamento dos camponeses e, através deles, dos trabalhadores agrícolas (uma vez que camponeses "transferem" suas desgraças para os trabalhadores). O período de Emergência foi digno de nota pela mudança dos termos de troca (terms-of-trade) a que deu lugar, tanto assim que muitos investigadores encararam a economia política da Emergência como consistindo na imposição de uma "política de estabilização" anti-camponesa para combater a inflação. Foi esta postura anti-campesinato que provocou manifestações maciças de camponeses (inclusive no Boat Club em Delhi) e um surto de lutas camponesas por todo o país no fim dos anos 70 e princípio dos 80.

Mas aquilo que o governo de Indira Gandhi fez num contexto específico dentro do regime dirigista agora tornou-se a norma dentro do regime neoliberal. As políticas neoliberais impostas pela globalização conduzida pela finança implicaram efetivamente a adoção permanente de um conjunto de políticas anti-camponesas, não apenas para manter baixa a inflação (a qual não está de modo algum tão alta como no princípio dos anos 70) mas para efetuar um processo de acumulação primitiva de capital para o enriquecimento dos monopolistas internos e estrangeiros.

Um tal processo de acumulação primitiva de capital a expensas dos pequenos produtores tradicionais também tem o efeito de esmagar a classe trabalhadora, incluindo seu segmento organizado. Os camponeses deslocados e pequenos produtores que afluem às cidades em busca de empregos, não os encontram. Quando muito, os empregos existentes são partilhados entre mais trabalhadores através de processos de precarização (casualisation), outsourcing, informalização e outros semelhantes, todos os quais contribuem para um inchaço do exército de reserva do trabalho. E tal inchaço mantém baixa a força negocial de todos os trabalhadores, incluindo mesmo a dos trabalhadores organizados. O que acontece aos trabalhadores numa economia como a nossa dentro de um regime neoliberal não é portanto independente do que acontece aos camponeses. Um processo de acumulação primitiva a expensas dos últimos também serve para esmagar os primeiros.

Entretanto, há um segundo meio ainda mais importante pelo qual a acumulação primitiva afeta os trabalhadores. Uma vez que o exército de reserva do trabalho exprime-se não em termos de uma simples dicotomia entre alguns que estão empregados e outros que estão no desemprego, mas antes através de fenômenos como "desemprego disfarçado" e precarização ou trabalhadores empregados intermitentemente, um inchaço das suas fileiras implica um aumento na fragmentação de trabalhadores e portanto um novo enfraquecimento da sua capacidade para resistir. E qualquer enfraquecimento na capacidade da classe trabalhadora para resistir propaga-se também a outros segmentos da população, levando a um rebaixamento geral da resistência de classe.

O que estamos a testemunhar por todo o mundo hoje em dia é uma reversão desta tendência. O capitalismo neoliberal atingiu agora o ponto onde sua tendência espontânea para manter baixa a resistência de classe, através da promoção da fragmentação, já não é mais suficiente para isso. E a resistência de classe, quando começa, tem meios para propagar-se de modo rápido e amplo. 

15 de junho de 2017

Por que a CIA se preocupa com o marxismo

Michael Barker

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Em um ensaio amplamente lido para a Los Angeles Review of Books intitulado "A CIA lê a teoria francesa: sobre o trabalho intelectual de desmantelar a esquerda cultural" (27 de fevereiro de 2017), Gabriel Rockhill puxa um fio intrigante sobre a CIA e seu interesse em manter-se a par da teoria política francesa ao longo da Guerra Fria. "De acordo com a própria agência de espionagem", observa Rockhill "a teoria francesa pós-marxista contribuiu diretamente para o programa cultural da CIA de carrear a esquerda para a direita, ao desacreditar o antiimperialismo e o anticapitalismo... ". Aqui, o professor está fazendo referência especial a um relatório da CIA recentemente desclassificado, escrito em 1985, que se concentra no meio intelectual em torno de Michel Foucault, Jacques Derrida e Jacques Lacan.

Há evidências abundantes sobre as complexas intervenções culturais da CIA nos assuntos intelectuais franceses - mas é fundamental reconhecer que foram as deficiências políticas das próprias organizações comunistas (ou seja, stalinistas) que tiveram o impacto determinante na trajetória obscurantista das ideias acadêmicas de esquerda. Os próprios guerreiros frios da CIA estavam bem conscientes desses problemas na esquerda e, portanto, esses são exatamente os argumentos que apresentaram em 1985 no seu documento interno "França: Desafio dos intelectuais de esquerda". Neste "relatório de pesquisa" - referido pelo ensaio de Gabriel Rockhill - é claro, a CIA procurou examinar as atitudes em mudança dos intelectuais franceses de modo a "avaliar o provável impacto político no ambiente político em que a política é feita". Portanto, considerando o intrigante foco teórico deste relatório, vale a pena abordar alguns dos argumentos aqui apresentados, mesmo se apenas como um ponto de partida para explorar as falhas das partes mais influentes da esquerda francesa após a Segunda Guerra Mundial.

Certamente, tendo em mente a ferocidade com que a CIA travou a guerra intelectual contra a esquerda - com a ajuda de diversas elites liberais (Foundations of the American Century: The Ford, Carnegie, and Rockefeller Foundations in the Rise of American Power) - é notável que a logística imperialista desta batalha permaneça largamente ignorada dentro do próprio relatório da CIA. Deixando de lado esse importante descuido, o autor anônimo da CIA, pelo menos, enfatiza que foi a repetida desilusão da classe trabalhadora com o Partido Comunista Francês (PCF) que prejudicou a popularidade das ideologias comunistas e socialistas. Na verdade, uma e outra vez, a classe trabalhadora francesa procurou ideias políticas à esquerda para ajudá-la na tarefa crítica de democratizar a sociedade, mas muitas vezes eram traídas por intelectuais comunistas que, em última análise, não tinham fé na classe trabalhadora para mudar a sociedade por si mesma.

O relatório da CIA toca brevemente a traição do governo socialista de Mitterrand na década de 1980, e a volta de Mitterrand às políticas econômicas progressivas de seu partido e "adotou medidas de austeridade que provocaram críticas embaraçosas da esquerda e da direita ..." O autor do relatório escreve: "a dose de austeridade que essas políticas eventualmente forçaram configurou a morte da ideologia de esquerda para muitos observadores informados". Essa reversão fatal serviu para compor os eventos destrutivos e mais "traumáticos do Maio de 1968", que se caracterizaram pela traição do PCF por um movimento genuinamente revolucionário de solidariedade da classe trabalhadora (mais uma vez). Assim, o relatório da CIA conviria com precisão:

“Em maio-junho de 1968, depois de meses de intensificação de protestos, estudantes derrubaram barricadas na seção universitária de Paris e iniciaram um período de guerrilha nas ruas do Quartier Latin. O protesto se espalhou para outras cidades universitárias; os estudantes foram acompanhados por 7 milhões de trabalhadores em greve (que ocuparam as fábricas); o transporte e os serviços públicos pararam; e o governo de 10 anos do general de Gaulle cambaleou. Estudantes marxistas queriam que o Partido Comunista assumisse a liderança e declarassem um governo provisório, mas os líderes do PCF estavam tentando restringir a revolta dos trabalhadores e denunciaram os estudantes radicais como anarquistas de mentalidade lanosa. Muitos estudantes concluíram que o PCF havia feito um acordo com de Gaulle, que eventualmente debelou os tumultos.”

Após o PCF abandonar o levante revolucionário de Maio de 1968, e o fracasso em derrubar o capitalismo, não é surpreendente que as forças conservadoras da reação aproveitassem essa oportunidade para intensificar seu desafio ao marxismo. Nesse sentido, o relatório da CIA refere-se ao sucesso dos "Novos Filósofos", cujas idéias anti-stalinistas e anti-marxistas foram amplamente defendidas na mídia  mainstream (em toda a década de 1970) com a ajuda de Grasset, a altamente influente editora de Bernard-Henri Levy editora. O autor da CIA descreve então como esses Novos Filósofos se tornaram desiludidos com a esquerda, observando como "a  pusilanimidade dos partidos de esquerda tradicionais durante a revolta estudantil de 1968 tirou a escama de seus olhos, fazendo com que eles rejeitem sua fidelidade ao Partido Comunista, ao socialismo francês e até mesmo aos princípios essenciais do marxismo".

O autor do relatório continua a explicar como "Raymond Aron, reverente deão do pensamento conservador contemporâneo na França", trabalhou longos anos em seus esforços para desacreditar "o edifício intelectual do marxismo francês". Mas, mais importante, o relatório reconhece: "Ainda mais eficazes em minar o marxismo, no entanto, foram os intelectuais que se propuseram como verdadeiros crentes a aplicar a teoria marxista nas ciências sociais, mas acabaram repensando e rejeitando toda a tradição". Com esse objetivo, o analista da CIA sugere:

“Entre os historiadores franceses do pós-guerra, a influente escola de pensamento associada a Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel superou os historiadores marxistas tradicionais. A escola dos Annales, como é conhecida por seu principal periódico, transformou a tradição de estudos históricos francesa nas décadas de 1950 e 1960, principalmente desafiando e depois rejeitando as teorias marxistas até então dominantes do progresso histórico. Embora muitos dos seus expoentes afirmem que estão "na tradição marxista", isso significa apenas que eles usam o marxismo como um ponto de partida crítico para tentar descobrir os padrões reais da história social. Na maior parte, eles concluíram que as noções marxistas da estrutura do passado - das relações sociais, dos padrões de eventos e da sua influência a longo prazo - são simplistas e inválidas. 
No campo da antropologia, a influente escola estruturalista associada a Claude Levi-Strauss, Foucault e outros realizaram praticamente a mesma missão. Embora tanto o estruturalismo como a metodologia dos Annales tenham entrado em tempos difíceis (os críticos os acusam de serem muito difíceis para os não iniciados), acreditamos que a sua demolição crítica da influência marxista nas ciências sociais provavelmente suportará como um profundo contributo para a erudição moderna tanto na França como e em outros países da Europa Ocidental.”

O que o autor da CIA deixa sem menção nesta declaração histórica concisa é o papel que as elites americanas desempenharam ao nutrir os teóricos da escola dos Annales como uma faceta central da Guerra Fria cultural. Felizmente, este importante momento da história é revisado no livro Fast Cars de Kristin Ross, Fast Cars, Clean Bodies: Decolonization and the Reordering of French Culture (1996).

“As ciências sociais francesas com as quais estamos familiarizados agora foram assim uma invenção pós-guerra e, em todos os aspectos da modernização francesa após a guerra, sua ascendência teve alguma relação com a intervenção econômica dos EUA. Em certa medida, a mudança para este tipo de estudo foi financiada e facilitada pelos Estados Unidos em uma espécie de Plano Marshall para intelectuais. Uma revisão da literatura expõe um argumento convincente de que a principal exportação americana do período não era Coca-Cola ou filmes, mas a supremacia das ciências sociais. Em outubro de 1946, o diretor da divisão de ciências sociais da Fundação Rockefeller proclamou: 'Uma Nova França, uma nova sociedade está emergindo das ruínas da ocupação; o melhor dos seus esforços é magnífico, mas os problemas são surpreendentes. Na França, a questão do conflito ou a adaptação entre o comunismo e a democracia ocidental aparece na sua forma mais aguda. A França é o seu campo de batalha ou laboratório.' Ao expandir as ciências sociais na Europa, os americanos procuraram conter o progresso do marxismo no mundo.” (p.186)

Ross escreve que a "tática principal" empregada peos intelectuais apoiados pelo Ocidente na escola dos Annales "era a do canibalismo: abranger e absorver os inimigos como um meio de controlá-los". Ele se refere a essa abordagem como "Ciência da sociologia empírica e quantitativa - o estudo da repetição - que foi erguida contra a ciência da história, o estudo do evento".

“Nos anos 50 e 1960, Braudel, Le Roy Laduirie e outros, instalados depois de 1962 na Maison des sciences de l'homme, produziram o que Braudel chamava de "uma história cuja passagem é quase imperceptível... uma história em que todas as mudanças são lentas, Uma história de repetição constante, ciclos sempre recorrentes." Seus inimigos mais formidáveis ​​no campo da história viviam do outro lado da rua: a longa linhagem dos historiadores marxistas da revolução francesa - Georges Lefebvre, Albert Soboul e outros - alojados na Sorbonne. O que está em jogo no apagamento do estudo do movimento social a favor das estruturas é a possibilidade de mudança ou mutação abrupta na história: a ideia da própria Revolução. Os antigos historiadores do evento por excelência da história da França, cada um por sua vez ocupando a cátedra presidencial para o estudo do instituto da Revolução Francesa pela Sorbonne depois de 1891, olharam de relance para a modernização completa, bem financiados e bem equipados (com fotocopiadoras e computadores) dos seus colegas do outro lado do caminho.” (p.189)

Com relevância específica para comentários da CIA sobre a ascensão e o desenvolvimento do estruturalismo francês, é útil refletir sobre a análise de Ross sobre este campo de estudo. Como ele afirma:

“A ascensão do estruturalismo nas décadas de 1950 e 1960 foi acima de tudo um ataque frontal ao pensamento histórico em geral e à análise dialética marxista em particular; o apelo a muitos intelectuais franceses de esquerda após 1956 foi superdeterminado pela crise no Partido Comunista francês e no marxismo na sequência das revelações dos crimes de Stalin e da invasão soviética da Hungria no final desse ano. Após eventos históricos tão desordenados, a precisão pura e científica do estruturalismo ofereceu uma espécie de descanso.” (p.180)

Além de Febvre e Braudel, nesta etapa, vale a pena refletir brevemente sobre a carreira de outro famoso proponente do estruturalismo francês, Claude Lévi-Strauss. Isso porque, em 1941, enquanto vivia no exílio na América, a Lévi-Strauss foi oferecido um emprego na New School for Social Research da cidade de Nova York, onde, com a ajuda da Fundação Rockefeller, ajudou a fundar a École Libre des Hautes Études com uma carta oficial do governo de de Gaulle no exílio. Após a guerra, Lévi-Strauss passou a trabalhar como adido cultural na embaixada da França em Washington, antes de retornar à França em 1948, após o que se tornou diretor de estudos em antropologia (1950-74) na recém criada École Pratique des Hautes Études, Seção VI. Como Kristen Ross escreve:

“Uma subvenção da Fundação Rockefeller em 1947 ajudou a financiar a fundação da VI seção da Ecole pratique des hautes etudes sob a direção do historiador Lucien Febvre, que havia aproveitado a iniciativa de um grupo rival de sociólogos liderados por Georges Gurvitch. Localizado em Fransois Furet no início da década de 1960, esta instituição seria fundamental para o futuro das ciências sociais na França: em 1962, quando o sucessor de Febvre, Fernand Braudel reuniu todos os laboratórios de pesquisa espalhados pelo Bairro Latino e abrigou-os num único edifício no Boulevard Raspaid, a Maison des sciences de l'homme, a Fundação Ford ajudou a financiar a operação. Em 1975, a seção VI, por sua vez, se emanciparia da Ecole pratique e se tornaria a Ecole de hautes etudes en sciences sociales, com status universitário e a autorização para conceder diplomas.” (p.187)

A decisão da Fundação Ford, em 1959, de financiar a Maison des sciences de l'homme provou ser um momento crítico para a evolução das ciências sociais francesas, uma vez que a concessão de Ford de US $ 1 milhão certamente lhe trouxe grande influência. Além disso, logo após a concessão deste subsídio, a Ford também ajudou Raymond Aron a lançar seu Institute of European Sociology em Paris. Certamente, não é uma coincidência que Aron já tenha desempenhado um papel proeminente nos compromissos do Congresso para a Liberdade Cultural apoiado pela CIA - uma famosa empresa anticomunista que havia sido criada em Paris em 1950, com o apoio total das fundações liberais mais influentes da América.

Essas intervenções filantrópicas tão variadas em assuntos franceses "foram complementadas pelo apoio à construção de instituições transnacionais ao nível da Comunidade Européia e pela promoção de laços transatlânticos". Um intermediário intelectual chave a este respeito foi o economista francês Jean Monnet, que, enquanto trabalhava de mãos dadas com os filantropos americanos, foi um dos pais fundadores da OTAN e da União Européia. Monnet desfrutou de suas próprias ligações com elites econômicas e políticas no Bilderberg Club, e na década de 1950 formou seu próprio Action Committee for a United States of Europe. Além disso, em cima desses esforços transatlânticos para consolidar os interesses capitalistas, a "Fundação Ford investiu em educação de gestão de estilo americano em toda a Europa Ocidental e, em 1960, a Associação Européia de Treinamento de Gestão, com Pierre Tabatoni como presidente, atuou como uma organização guarda-chuva para essas escolas..."

Os projetos filantrópicos que procuram orientar as pesquisas acadêmicas europeias para longe do marxismo não foram, obviamente, limitados às ciências sociais - uma questão de influência que é expandida no livro de John Krige, American Hegemony and the Postwar Reconstruction of Science in Europe (2008). Em referência ao desenvolvimento da ciência francesa mais particularmente, Krige ressalta como Warren Weaver, que foi diretor da Divisão de Ciências Naturais da Fundação Rockefeller (1932-55)...

“e a fundação não estava simplesmente interessada em apoiar boas ciências e novas direções na França. Eles queriam usar sua alavanca financeira para dirigir cientistas franceses em linhas bem definidas. Weaver, em particular, acreditava que os franceses eram paroquiais e visuais. Ele queria transformá-los em pesquisadores "internacionais" voltados para o exterior, usando técnicas e abordando questões que estavam atualizadas sobretudo nos Estados Unidos. Foi uma visão inspirada pela convicção de que, sem uma remodelação radical da comunidade científica francesa em linhas americanas e a determinada marginalização de cientistas comunistas no campo da biologia, o país nunca mais poderia esperar desempenhar novamente um papel importante no avanço de ciência.” (p.81)

Outra parte integrante da batalha pós-Segunda Guerra Mundial em curso pelas mentes francesas estava mais fundamentalmente preocupada com a difamação das organizações de massas da própria classe trabalhadora - os sindicatos. Esta batalha foi ocupada pelo Comitê Sindical Livre da AFL, e muitas autoridades sindicais americanas se mostraram mais do que prontas para enfrentar a guerra contra o comunismo (e a democracia sindical) ao intervir secretamente nos assuntos cotidianos dos sindicatos. Nas suas conexões em desenvolvimento com o Comitê de Sindicatos Livres, a CIA teve sorte e "encontrou um aliado dedicado e experiente, com extensas redes e anos de experiência na manipulação secreta dos movimentos trabalhistas internacionais". O caráter subjugado desse longo e antidemocrático relacionamento está bem resumido por "um memorando do governo, não assinado, mas anexado a uma carta de novembro de 1948 de David Bruce, o Chefe da Missão Especial na França dirigido a Paul Hoffman, Administrador da Economic Cooperation Administration":

“[...] não será suficiente bombear centenas de milhões de dólares em alimentos, máquinas, carvão e matérias-primas. Devemos encontrar um meio de não só ajudar a indústria, de ajudar diretamente os representantes diretos dos trabalhadores. Isso é muito difícil. Os sindicatos não aceitam qualquer ajuda de um governo estrangeiro. (Se esse auxílio se tornar disponível, ele deve estar disfarçado e, em nenhuma circunstância, as pessoas aqui podem saber sobre isso. Todo o assunto, portanto, exige o máximo de discrição.) Eles aceitarão apenas ajuda sindical.”

Depois de administrar o Plano Marshall para interesses imperiais, Paul Hoffman passou de seu papel como chefe da Administração de Cooperação Econômica para se tornar o presidente da Fundação Ford (1950-3) na América. A natureza inter-relacionada e sofisticada de intervenções tão sofisticadas nos assuntos políticos da França é utilmente descoberta no estudo incisivo de Giles Scott-Smith, Networks of Empire: The US State Department’s Foreign Leader Program in the Netherlands, France, and Britain, 1950-70 (2011). Scott-Smith supõe:

“A capacidade dos EUA de interferir nos assuntos franceses foi incomparável durante a primeira década [após o final da Segunda Guerra Mundial], mas os governos em Paris ainda conseguiram manter uma visão independente e orientar seu próprio curso, beneficiando-se do seu lugar especial no interior da estratégia dos EUA para a Europa Ocidental. A Administração de Cooperação Européia, com sede em Paris, exerceu uma tremenda influência no cenário socioeconômico francês, mas implementou-o através de sua própria versão, o Plano Monnet. A ajuda financeira e militar dos EUA foi reciclada para permitir que guerras coloniais duradouras fossem travadas na Indochina e no norte da África. A relutância francesa em apoiar um ressurgimento econômico da Alemanha logo se tornou sublimada em planos estruturais para a integração européia, com Paris liderando o caminho. Enquanto a CIA apoiou o sindicato Force Ouvrière e uma série de outros meios de comunicação anticomunistas como o Congresso para a Liberdade Cultural em Paris, as elites políticas francesas adotaram voluntariamente suas próprias estratégias para minar a influência comunista. A influência dos EUA foi, portanto, limitada pelos imperativos políticos e sociais franceses.” (p.327)

Voltando à análise apresentada no relatório agora desclassificado da CIA, é de salientar que os autores do relatório minimizam a orientação fascista / tradicionalista das forças da Nova Direita que elevaram sua proeminência na sequência de 1968. Na verdade, a CIA inicialmente se refere a estas forças em seu relatório como os "novos liberais". Mais tarde, o analista da CIA afirma:

“Encorajados por escritores e editores que estão associados de alguma forma com o barão da imprensa de direita Robert Hersant, a Nova Direita na França retomou as idéias de reviver o liberalismo europeu clássico como o elixir que a França precisa para se recuperar da "má-administração" socialista.”

Em um apêndice mais revelador do seu relatório, intitulado "Aspectos culturais do pensamento da Nova Direita", a CIA, no entanto, mostra como:

“Os escritores conservadores, muitos deles associados ao Research and Study of European Civilization (GRECE) e do Clube do Relógio (Club de l'Horloge)... encontraram uma saída para seus argumentos nas publicações da Hersant, notadamente a revista Figaro, que era editada pelo mentor espiritual da GRECE, Louis Pauwels.”

Aqui, a CIA também chama a atenção para "os elementos anti-igualitários e até mesmo anti-cristãos do pensamento GRECE / Horloge", mas apenas para observar, como nos últimos anos, esse elemento de seu pensamento aparentemente havia sido atenuado para melhor espalhar suas ideias tóxicas. Dito isto, o relatório da CIA, pelo menos, admite que o GRECE não era realmente "novos liberais", pois eles apontam que mesmo:

“Raymond Aron, reverente deão do pensamento conservador contemporâneo na França, detestava os intelectuais da Nova Direita, muitas vezes equiparando seu anti-igualitarismo elitista com os piores esforços antidemocráticas no conservadorismo francês.”

No entanto, a partir de 1968, é claro que o establishment capitalista na América e na França procurou fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para minar a unidade nacional e internacional da luta da classe trabalhadora. Expressou-se de uma forma contundente, isso levou um foco renovado à exclusão de certas vozes de esquerda dos principais meios de comunicação. Aqui, um bom exemplo de tais práticas é fornecido pelo ativismo do financista de direita, Sir James Goldsmith, que em 1977 comprou o L'Express, um jornal popular que o novo dono havia identificado anteriormente como "a fonte da doença intelectual da França". O primeiro passo de Sir James na aquisição deste jornal foi impor Raymond Aron à equipe do jornal. Em um nível acadêmico mais mundano, as agências de financiamento de elite também continuaram a apoiar os esforços acadêmicos para aprender mais sobre a ameaça representada por um movimento sindical cada vez mais militante em toda a Europa Ocidental.

Em última análise, no entanto, apesar de muitos ganhos notáveis e vitórias inspiradoras, as forças de esquerda foram tragicamente derrotadas por um assalto neoliberal ressurgido e coordenado contra a democracia em todo o mundo. Como na França, esse processo de transformação neoliberal foi facilitado pela colaboração voluntária do Partido Comunista com membros da classe dominante e com as traições da classe trabalhadora por reformistas à esquerda como Mitterrand. Foi nessas condições desfavoráveis que as teorias pós-modernas dos pós-estruturalistas franceses intelectualmente debilitadas, mas bem financiadas, posteriormente receberam um ponto de vista indesejável dentro da academia e, até certo ponto, da mídia convencional. Como o teórico literário marxista Terry Eagleton argumenta em seu livro Literary Theory: a Introduction (1983):

“O pós-estruturalismo era um produto dessa mistura de euforia e desilusão, libertação e dissipação, carnaval e catástrofe, que era 1968. Não sendo possível quebrar as estruturas do poder do estado, o pós-estruturalismo pôde, em vez disso, subverter as estruturas da linguagem. Não era provável, pelo menos, que ninguém te batesse na cabeça por fazê-lo. O movimento estudantil foi expulso das ruas e conduzido subterrâneo ao discurso. Seus inimigos... tornaram-se sistemas de crenças coerentes de qualquer tipo - em particular todas as formas de teoria política e organização que procuravam analisar e atuar sobre as estruturas da sociedade como um todo.” (p.142)

É claro que essas correntes morosas e intelectualmente incoerentes do retiro "esquerdista" não permaneceram confinadas à França - como exemplificado pelo apoio da Fundação Ford a um programa de dois anos de seminários em meados da década de 1960, que deu um impulso ao estruturalismo francês em margens americanas. No entanto, apesar de tais retornos acadêmicos para aqueles da esquerda, a possibilidade de lutas emancipadoras da classe trabalhadora se tornam mais visíveis no horizonte desumano do capitalismo. Os primeiros sinais desse avivamento podem ser vistos pela popularidade ressurgente conquistada por candidatos políticos socialistas como Bernie Sanders (na América), Jean-Luc Mélenchon (na França) e Jeremy Corbyn (na Grã-Bretanha).

Sem dúvida, a classe dominante e suas agências de inteligência irão, neste momento, elaborar freneticamente novos "relatórios de pesquisa" para que eles possam orientar suas atividades políticas em uma tentativa vã de neutralizar esse clima crescente de resistência. Então, desta vez, temos que garantir que aprendemos as lições apropriadas da história. Em primeiro lugar, devemos nos recusar a permitir que novos líderes socialistas nos enganem em nossa tentativa de liberdade. E, portanto, devemos ter claro que, se nossos líderes não estão à altura de nos ajudar a construir uma alternativa democrática e socialista ao status quo falido, devemos estar prontos para substituí-los e, finalmente, estar dispostos a aproveitar o poder para nós mesmos.

12 de junho de 2017

A OTAN e o neonazismo na Europa

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / A Ucrânia, de fato já na OTAN, quer agora entrar oficialmente na organização. O parlamento de Kiev, votou no dia 8 de junho por maioria (276 contra 25) uma emenda legislativa que torna prioritário esse objetivo. A sua admissão na OTAN não seria um ato formal. A Rússia é acusada pela Otan de ter anexado ilegalmente a Crimeia e de conduzir ações militares contra a Ucrânia.

Em consequência, se a Ucrânia entrasse oficialmente na OTAN, os demais 29 membros da Aliança, com base no Artigo 5, deveriam “ajudar a parte atacada empreendendo ações julgadas necessárias, inclusive o uso da força armada”. Em outras palavras, deveriam declarar guerra à Rússia.

O mérito de ter introduzido na legislação ucraniana o objetivo de entrar na OTAN é do presidente do parlamento Andriy Parubiy. Cofundador em 1991 do Partido nacional-social ucraniano, segundo o modelo do Partido nacional-socialista de Adolf Hitler; chefe das formações paramilitares neonazistas, usadas em 2014 no golpe da Praça Maidan, sob a direção dos EUA e da OTAN, e no massacre de Odessa; chefe do Conselho de Defesa e Segurança Nacional que, com o Batalhão Azov e outras unidades neonazistas ataca os civis ucranianos de nacionalidade russa na parte oriental do país e efetua com esquadrões especiais espancamentos de militantes do Partido Comunista, devastando as suas sedes e queimando livros no perfeito estilo nazista, enquanto o mesmo Partido está para ser posto oficialmente na ilegalidade. Este é Andriy Parubiy que, como presidente do parlamento ucraniano (cargo que lhe foi conferido pelos seus méritos democráticos em abril de 2016), foi recebido em 5 de junho no Palácio Montecitorio pela presidente da Câmara, Laura Boldrini. “A Itália – sublinhou Boldrini – sempre condenou a ação ilegal realizada há anos em uma parte do território ucraniano”. Assim, ela avalizou a versão da OTAN segundo a qual a Rússia teria anexado ilegalmente a Crimeia, ignorando o fato de que a escolha dos russos da Crimeia de separar-se da Ucrânia e reingressar na Rússia foi tomada para impedir de ser atacada, como os russos do Donbass, pelos batalhões neonazistas e as demais forças de Kiev.

O cordial colóquio foi encerrado com a assinatura de um memorando de entendimento que “reforça ulteriormente a cooperação parlamentar entre as duas assembleias, tanto no plano político como no administrativo”. 

Reforça-se, assim, a cooperação entre a República italiana, nascida da Resistência contra o nazi-fascismo, e um regime que criou na Ucrânia uma situação análoga àquela que levou ao advento do fascismo nos anos 1920 e do nazismo nos anos 1930. O batalhão Azov, cuja marca nazista é representada pelo emblema decalcado do símbolo das SS do Reich, e incorporado na Guarda nacional, foi transformado em unidade militar regular e promovido ao status de regimento de operações especiais.

Foi, assim, dotado de veículos blindados e peças de artilharia. Com outras formações neonazistas transformadas em unidades regulares, é treinado por instrutores estadunidenses da 173ª divisão aerotransportada, transferidos de Vicenza (Itália) para a Ucrânia, ao lado de outros instrutores da OTAN.

A Ucrânia é assim transformada em “berço” do renascido nazismo no coração da Europa. Para Kiev confluem neonazistas de toda a Europa, inclusive da Itália. Depois de treinados e postos à prova em ações militares contra os russos da Ucrânia no Donbass, regressam aos seus países. Doravante, a OTAN vai rejuvenescer as fileiras da Gládio.

9 de junho de 2017

Os fatos que provam o triunfo eleitoral de Corbyn

Jonathan Cook

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Assistindo à cobertura que a BBC deu à eleição, qualquer um chegaria a duas conclusões. Primeira, que a campanha de Theresa May foi horrível e sabotou a candidata, em vez de promovê-la; e segunda que, por mais que Jeremy Corbyn estivesse festejando, ele saía das urnas, isso sim, absolutamente derrotado.

São as conclusões que se poderia esperar de uma classe de especialistas midiáticos que consumiram dois anos, sem trégua, ofendendo e caluniando Corbyn, declarando-o "inelegível", avisando que só teria votos de um pequeno nicho de radicais de esquerda, e anunciando que os Trabalhistas estavam a um passo da pior derrota eleitoral da história contemporânea – se não de todos os tempos. A mensagem de justiça social de Corbyn estaria alienando o interior do Reino Unido.

Assim sendo, temos de dar um passo atrás, examinar os números da eleição e ver como se saiu, na verdade, o partido Trabalhista liderado por Corbyn.

Corbyn obteve 41% dos votos, contra 44% para May. Dado o sistema inerentemente falho do Reino Unido, obteve cerca de 50 cadeiras a menos que os Conservadores – mas mesmo assim obteve melhora muito significativa em relação ao número de cadeiras trabalhistas sob Ed Miliband. Não há grupo majoritário no Parlamento e, para sobreviver, May dependerá dos votos de um pequeno grupo de sindicalistas do Ulster da Irlanda do Norte, o que cria governo terrivelmente instável.

Mas como Corbyn se saiu em termos de votos do Partido Trabalhista em comparação com seus antecessores recentes? Ele teve muitos mais votos do que Ed Miliband, Gordon Brown e Neil Kinnock, que estavam entre aqueles que, às vezes, ruidosamente, se opuseram à sua liderança do partido.

Mas o que dizer dos votos que Corbyn obteve, comparados aos de Tony Blair, seu crítico de mais alta hierarquia midiática cujos muitos aliados na bancada Trabalhista nunca se cansaram de desafiar e subverter a liderança de Corbyn nos últimos dois anos, e tentaram derrubá-lo, inclusive encenando um movimento contra o líder, no ano passado?

Aqui vão os números das três vitórias de Blair. Em 2005, obteve 36% dos votos – muito menos que Corbyn. Em 2001, 41% – praticamente o mesmo que Corbyn. E a vitória arrasadora de Blair em 1997 foi-lhe assegurada por 43% dos votos, apenas 2 p.p. acima da porcentagem de votos para Corbyn na noite passada.

Em suma, Corbyn é hoje comprovadamente o líder Trabalhista mais popular entre os eleitores em mais de 40 anos, exceto no caso da vitória de Blair em 1997. Sim, mas é preciso lembrar o preço que Blair pagou por uma vantagem realmente muito pequena sobre os votos dados a Corbyn. Por baixo dos panos, Blair vendeu a alma do Partido Trabalhista à City de Londres, às megacorporações e aos seus lobbyistas. Esse pacto faustiano atraiu para a candidatura de Blair o apoio de quase toda a mídia britânica, inclusive do bloco de jornais e canais de TV comandado por Rupert Murdoch. As empresas mobilizaram toda sua máquina de propaganda para pôr Blair no poder. E com tudo isso Blair só conseguiu 2 p.p. de votos a mais que Corbyn – que teve a mesma violenta máquina de propaganda, mas trabalhando contra ele.

Além disso, também diferente de Corbyn, Blair não precisou enfrentar grande parte do próprio partido que operava para destruí-lo também de dentro para fora.

Além disso tudo, Blair contou com muitos votos escoceses para os Trabalhistas, bloco que já não existia quando Corbyn chegou à liderança. Hoje, a maior parte daqueles votos vão para o Scottish National Party (SNP) que atua pela independência da Escócia.

Todos esses números já indicam claramente a extensão do feito de Corbyn.

Outro ponto. A grande vitória em 1997 foi o auge do sucesso de Blair. Quando os membros do Partido Trabalhista deram-se conta do que Blair fizera para chegar àquela vitória, o apoio parlamentar começou a diminuir e nunca mais se recuperou, até que Blair teve de deixar a liderança; e entregou ao sucessor, Gordon Brown, um partido exangue.

Com Corbyn, a campanha eleitoral mostrou que há um grande desejo por sua honestidade, sua paixão, seu compromisso com a justiça social - pelo menos quando o público teve a chance de ouvir diretamente dele, ao invés de ter suas políticas e personalidade mediadas e distorcidas por uma mídia corporativa tendenciosa e auto-suficiente. Diferente de Blair, que destruiu o Partido Trabalhista a ponto de convertê-lo em partido Thatcherista, Corbyn está reconstruindo o Partido Trabalhista como movimento social instrumento de políticas progressistas.

Aqui está um gráfico que oferece outra medida da extensão da conquista da Corbyn ontem à noite.


Aí se vê que Corbyn obteve o maior aumento na porcentagem de votos trabalhistas em relação à eleição geral prévia, desde Clement Attlee em 1945. Em resumo: Corbyn conseguiu reformatar o destino eleitoral do Partido Trabalhista inglês mais completamente que qualquer outro líder do partido, em 70 anos.

E, ao contrário de Blair, ele fez isso sem fazer negócios escusos com as grandes empresas para eviscerar os programas econômicos e sociais de seu partido.

8 de junho de 2017

Esta é a verdadeira história por trás da crise econômica que se desenrola no Catar

Somente as peças de Shakespeare poderiam se aproximar da descrição de tal traição - as comédias, evidentemente

Robert Fisk

The Independent

A nação está agora envolvida em uma crise - mas em que parte a Arábia Saudita está brincando? Reuters

Tradução / A crise no Catar prova duas coisas: a infantilização continuada dos estados árabes e o total colapso da unidade dos muçulmanos sunitas, unidade que teria sido supostamente criada pela participação absurda de Donald Trump na conferência de cúpula dos sauditas, há duas semanas.

Depois de prometer lutar até a morte contra o "terror" xiita iraniano, a Arábia Saudita e parceiros mais íntimos agora se mobilizaram para combater um de seus vizinhos mais ricos, o Catar, que seria a cabeça do "terror". Só em peças de Shakespeare se vê traição de tais proporções. Nas comédias de Shakespeare, claro.

Porque, na verdade, há algo de inacreditavelmente delirante nessa charada. Claro que cidadãos do Catar com certeza contribuíram para o ISIS. Mas, isso, cidadãos da Arábia Saudita também fizeram.

Nenhum catari disparou aviões no dia 11/9 contra New York e Washington. Mas todos os 19 assassinos eram sauditas. Bin Laden não era catari. Era saudita.

Mas Bin Laden dava preferência ao canal al-Jazeera do Catar, para divulgar suas falas pessoais, e foi o canal al-Jazeera quem tentou dar novo ânimo aos desesperados da al-Qaeda/Jabhat al-Nusrah na Síria, garantindo ao líder deles horas e horas de transmissão gratuita para explicar que, sim, eram grupo muito moderado, dedicado amante da paz.

Primeiro, tiremos da frente as partes histericamente cômicas dessa história. Vejo que o Iêmen estaria rompendo suas conexões aéreas com o Catar. A notícia deve ser sido um choque para o pobre emir do Catar, Xeique Tamim bin Hamad al-Thani, porque o Iêmen – sob bombardeio ininterrupto pelos ex-amigos sauditas e dos Emirados –, já não tem sequer um avião aproveitável com o qual criar, imaginem romper, conexões aéreas.

As Maldivas também romperam as relações com o Catar. Com certeza, isso não tem nada a ver com a promessa recente de uma facilidade de empréstimo saudita de cinco anos de US $ 300 milhões para as Maldivas, a proposta de uma empresa de propriedade saudita de investir US $ 100 milhões em uma estância familiar nas Maldivas e uma promessa de estudiosos islâmicos sauditas de gastar US $ 100.000 em 10 mesquitas de "classe mundial" nas Maldivas.

E não vamos mencionar o número bastante significativo de militantes do ISIS e outros cultistas islâmicos que chegaram para lutar pelo ISIS no Iraque e na Síria - bem, das Maldivas.

Agora que o emir do Catar está sem soldados suficientes para defender o próprio pequeno país, os sauditas resolvem que ele teria de solicitar que os exércitos sauditas invadam o Catar para restaurar a estabilidade – como os sauditas em 2011 persuadiram o rei do Bahrain a fazer. Mas o Xeique Tamim sem dúvida espera que a gigantesca base aérea militar dos EUA no Catar seja suficiente para conter a generosidade saudita.

Quando perguntei ao pai de Tamin, Xeique Hamad (que adiante foi impiedosamente derrubado do poder por Tamin) por que não despachara os americanos para bem longe do Catar, ele respondeu: "Porque, se tivesse despachado, meus irmãos árabes me invadiriam."

Tal pai, tal filho, suponho. Deus abençoe a America.

Tudo começou – conforme querem que acreditemos – com um suposto ataque de hackers contra a Agência Catar News, que expôs alguns comentários pouco elogiosos, mas incomodamente corretos, do emir do Catar sobre a necessidade de manter um relacionamento com o Irã.

O Catar negou a veracidade da história. Os sauditas resolveram que era tudo verdade e divulgaram aqueles conteúdos pela própria (e mortalmente entediante) rede de televisão estatal. O supracitado emir, essa era a mensagem, fora longe demais daquela vez. Os sauditas, não o minúsculo Catar, mandam no Golfo. E a visita de Donald Trump não comprovou precisamente isso?

Mas os sauditas têm outros problemas com os quais se preocupar. O Kuwait, longe de romper relações com o Catar, faz agora as vezes de pacificador entre Catar e sauditas e Emirados. O Emirado de Dubai é muito próximo do Irã, recebeu dezenas de milhares de expatriados iranianos e absolutamente não segue o exemplo de ira anti-Catar que vem de Abu Dhabi.

Há poucos meses, Omã estava até fazendo manobras navais conjuntas com o Irã. O Paquistão há tempos declinou o convite para mandar seus exércitos ajudar os sauditas no Iêmen, porque os sauditas requereram só soldados sunitas, não soldados xiitas; o exército paquistanês sentiu-se muito compreensivelmente ultrajado ao se dar conta de que a Arábia Saudita já operava para sectarizar até o corpo militar paquistanês.

O ex-comandante do exército do Paquistão, o general Raheel Sharif, espalhou rumores que está à beira da renúncia como chefe da aliança muçulmana patrocinada pelos sauditas para combater o "terror".

O presidente marechal de campo al-Sissi do Egito andou chiando contra o Catar por apoiar a Fraternidade Muçulmana no Egito – e o Catar, sim, apoia mesmo o grupo agora banido, que Sissi diz, erradamente, que seria parte do ISIS – mas o Egito, embora receba milhões dos sauditas, tampouco tem intenção de mandar soldados seus para ajudar os sauditas naquela guerra catastrófica que fazem contra o Iêmen.

Além disso, Sissi precisa de seus soldados egípcios para expulsar o ISIS e manter, mancomunado com Israel, o sítio contra a Faixa de Gaza palestina.

Mas, se se olha um pouco adiante pela estrada, não é difícil ver o que realmente preocupa os sauditas. O Catar também mantém silenciosos laços com o regime de Assad; ajudou a libertar com segurança as freiras cristãs sírias sequestradas pela Jabhat al-Nusrah; e ajudou a libertar soldados libaneses sequestrados pelo ISIS no oeste da Síria. Quando as freiras deixaram o cativeiro, agradeceram a ambos, a Bashar al-Assad e ao Catar.

E há suspeitas crescentes no Golfo de que o Catar tem ambições muito maiores: financiar a reconstrução da Síria pós-guerra. Mesmo se Assad permanecer como presidente, a dívida síria poria a nação sob controle econômico do Catar.

Isso, sim, daria ao minúsculo Catar duas taças de ouro. Dar-lhe-ia um império territorial que faria dupla com o império midiático al-Jazeera. E estenderia a prodigalidade aos territórios sírios, os quais muitas empresas de petróleo gostariam de usar como rota de oleodutos do Golfo à Europa via Turquia, ou via navios-tanques petroleiros, do porto sírio de Lattakia.

Para os europeus, essa rota reduz as chances de serem chantageados pelo petróleo russo, e cria vias marítimas para o petróleo, menos vulneráveis se os navios-tanque não tiverem de cruzar o Golfo de Hormuz.

Então, colheitas ricas para o Qatar - ou para a Arábia Saudita, claro, se os pressupostos sobre o poder dos EUA dos dois emires, Hamad e Tamim, se provar inútil. Uma força militar saudita no Qatar permitiria que Riyad engolisse todo o gás líquido do emirado.

Mas evidentemente os sauditas "antiterror" e amantes da paz – deixemos de lado por um instante as degolas – jamais desejariam a um irmão árabe destino tão desgraçado.

Assim sendo, esperemos que, pelo menos por enquanto, as linhas aéreas da Catar Airways sejam a única parte esquartejada do corpo político catari.

7 de junho de 2017

Sado-austeridade vs. social-democracia moderada

Glen Newey

London Review of Books (Blog)

Tradução / Esta eleição foi feita, como Proudhon disse sobre a revolução de 1848, sem uma ideia, além de abrandar os conservadores no poder e protegê-los contra a explosão do Brexit. Sua estratégia supunha que as pessoas se decidissem sobre a competência dos líderes do partido, e que os eleitores estavam consertados com o Brexit, então a falta de clareza em outros lugares não importaria (embora o governo pareça sem ideias sobre o Brexit também). Daí o manifesto Conservador sem cortes.

O Instituto para Estudos Fiscais (IFS), testou os números dos dois manifestos, dos Conservadores (Tories) e dos Trabalhistas (Labour). Como convém à sua neutralidade, o IFS deseja que a peste desabe sobre as duas casas, embora, como sugere o estudo, os Tories nem casa tenham para que se deseje peste sobre ela. No caso dos Tories, o IFS é obrigado a outra vez fazer projeções da política atual.

Alguns dados do IFS são interessantes de ler. O plano de gastos do Labour põe a Grã-Bretanha na metade inferior do ranking das economias desenvolvidas no que tenha a ver com a razão gasto público/PIB, bem abaixo de distopias coletivistas como Islândia, França, Singapura, Nova Zelândia e Alemanha. O Labour aumentaria o gasto público em £81 bilhões, ou 3% do PIB, até 2021-22. Em cinco anos, quer ter eliminado o déficit de despesas correntes. Os Conservadores estão prometendo orçamento equilibrado "à altura da metade da próxima década"; pelas projeções do IFS os Conservadores, como os Trabalhistas, ainda enfrentarão déficit no início dos anos 2020.

Os Tories chegaram ao poder em 2010 prometendo que até 2015 o déficit estaria debelado; e a proporção do déficit em relação ao PIB estaria já diminuindo. Pois só faz aumentar, apesar de sete anos de muita sado-austeridade. Muito da teoria a favor da sado-austeridade de quando Cameron estava no poder vinha do trabalho dos economistas Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, que sugeriram que o crescimento engriparia quando a razão dívida/PIB ultrapasse 90%. Casava muito bem com a missão ideológica de Cameron de encolher o Estado. Estudos posteriores desacreditaram a tese de Reinhart e Rogoff; haviam subestimado o crescimento em níveis de dívida superiores a 90%. Mesmo assim a austeridade avança, apesar do colapso dos intelectuais que a conceberam, como avançam também os repetidos fracassos dos Conservadores que por nada no mundo conseguem domar a dívida. Seu manifesto agora não especifica nenhum objetivo para a dívida.

O IFS acha que os £25 bilhões/ano extras em investimento de infraestrutura do Labour podem ser alcançados sem ultrapassar a sua meta da dívida. Mas duvida, porém, que os aumentos de impostos sobre os ricos que o Labour planeja venham a gerar os £49 milhões de que fala o Manifesto Trabalhista, porque rico sonega e evade, em termos fiscais.

O elefante que não vocifera nos dois manifestos é o Brexit, cujo efeito na renda nacional é imponderável. Estudo da London School of Economics ano passado sobre o impacto macroeconômico do Brexit descobriu que levará a PIB menor do que se o país permanecesse na União Europeia, mas não zero, nem haverá crescimento negativo.

O Labour planeja aumentar o investimento líquido do setor público, de 2% para cerca de 3% do PIB. É comparável com a média de 4% entre 1945 e 1979. O principal objetivo de investir em capital humano e outros é aumentar a produtividade – fraqueza notória da economia do Reino Unido, que não se deve, como reza um dos mitos da direita, à indolência do operário britânico, mas à correlação negativa entre produtividade e longos períodos laborais (operários no Reino Unido trabalham em média 300 horas por ano a mais que os operários alemães). Investir em produtividade promove o crescimento.

Diferente do Partido Trabalhista, que propõe taxas de impostos mais altas para os que ganham mais, os Tories permanecem fiéis na defesa intransigente dos que são obrigados a lidar com uns poucos milhões/ano. David Metter, CEO da empresa privada de finanças Skanska Innisfree, levou para casa não muito mais de £8 milhões em 2010; a empresa dele é principal credora de um contrato PFI de £7 bilhões, a ser liquidado até 2049, para construir nos hospitais de Bart e Royal London. O buraco nos fundos do Serviço Nacional de Saúde é em grande parte resultado do caro, ruinoso PFI – o qual, verdade seja dita, é resultado dos anos Blair e Brown. Estima-se que só esse contrato contribua com cerca de £250 bilhões para a dívida (atualmente de £1,8 trilhão).

Independente do que digam Lynton Crosby e sua ensandecida "árvore mágica que dá dinheiro", como linha de ataque (imediatamente abraçada por Theresa May e Amber Rudd semana passada), e do que diga a imprensa militante de direita, os Trabalhistas está está oferecendo um programa social-democrata cuidadosamente moderado.

6 de junho de 2017

Tiananmen: A grande mentira do Império

Thomas Hon Wing Polin

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

No início de 1989, a China estava se mexendo. Uma década de reformas revolucionárias inspiradas por Deng Xiaoping trouxe a economia moribunda à vida e libertou a nação dos grilhões ideológicos impostos por maoistas radicais durante a cataclísmica Revolução Cultural. Quase tudo parecia possível, quando Deng, protegido de Hu Yaobang e, em seguida, Zhao Ziyang lideraram a formulação de políticas no dia-a-dia.

Mas as mudanças que varreram a China tinham seu ladoobscuro. As reformas econômicas em grande escala também significaram oportunidades expandidas de corrupção, que muitos funcionários exploraram. E os chineses que "se enriqueceram primeiro", sob a era Deng, abriram uma brecha de riqueza em expansão com os cidadãos. O descontentamento começou a ferver perigosamente.

A morte em abril do popular, mas oficialmente desonrado Hu Yaobang, forneceu um gatilho para sua liberação. Manifestações dirigidas por estudantes para homenagear o falecido líder do partido gradualmente se espalharam em uma ocupação da Praça de Tiananmen, o coração simbólico e a alma da China moderna. À medida que o país e o mundo olhavam com incredulidade fascinada, os protestos aumentaram para além do controle das autoridades. Raiva, frustração, tensões construídas, atingiram um clímax que explodiu no início da manhã de 4 de junho. E o resto, como dizem, é história.

Mas qual história? Nas quase três décadas desde a tragédia, as forças hostis a Pequim em todo o mundo - principalmente países ocidentais e chineses anti-Partdo Comnista da China (PCC) - fizeram comemorações incontestáveis para lembrar a todos o quão espantoso eram os comunistas chineses, e eram. Seria menos notório se a narrativa fosse verdadeira, mas não é. Na verdade, a história, que girou imediatamente e após a repressão de Pequim, é uma das maiores falsificações de propaganda dos tempos modernos.

Na sequência, diz que as autoridades chinesas massacraram manifestações de estudantes desarmados que reivindicavam democracia, matando milhares e até dezenas de milhares na Praça Tiananmen. Uma extensa pesquisa e muitos depoimentos de testemunhas oculares demonstraram que nada disso era verdade. A estimativa mais confiável, de muitas fontes, foi que a tragédia custou 200-300 vidas. Poucos eram estudantes, muitos eram trabalhadores rebeldes, e muito mais eram bandidos com armas letais e espectadores infelizes. Alguns cálculos afirmam que cerca da metade dos mortos eram soldados do Exército de Libertação Popular (ELP) presos em seus veículos blindados de transporte de pessoal, ônibus e tanques quando os veículos foram incendiados. Outros foram mortos e brutalmente mutilados por manifestantes com vários implementos. Ninguém morreu na Praça Tiananmen; a maioria das mortes ocorreu na vizinha Avenida Chang'an, muitos a um quilômetro ou mais longe ainda da praça.

Mais de uma vez, os negociadores governamentais quase chegaram a uma trégua com os estudantes na praça, apenas para serem sabotados por líderes radicais jovens, aparentemente inclinados ao derramamento de sangue. E as demandas dos manifestantes centravam-se na corrupção, não na democracia.

Todos esses fatos eram conhecidos pelos EUA e outros governos logo após a repressão. Poucos, se houve, foram relatados pela mídia convencional ocidental, mesmo hoje. A perpetuação da grande mentira sobre Tiananmen lembra um dos ditos infames do chefe de propaganda nazista Joseph Goebbel: "Se você disser uma mentira grande o suficiente e continuar repetindo-a, as pessoas acabarão por acreditar".

O drama de Tiananmen também precisa ser visto no contexto histórico. Ocorreu ao mesmo tempo em que os movimentos de resistência civil derrubaram os governos do bloco soviético em toda a Europa Oriental, aparentemente com o apoio na surdina do Império Ocidental liderado pelos EUA. Embora nenhuma arma fumegante tivesse sido produzida, há indícios que apontam que Tiananmen fosse um protótipo das "revoluções coloridas", do tipo que o mundo veio a conhecer tão bem. Fontes chinesas acusaram os britânicos de usar Tiananmen como pretexto para introduzir a democracia em Hong Kong e renegar os entendimentos bilaterais anteriores relativo à devolução por Londres do território a Pequim.

Para a China, a tragédia desencadeou a maior crise da era Deng de reforma e abertura. As feridas internas e os boicotes internacionais liderados pelo Ocidente quase acabaram com o esforço épico da China para restaurar a ordem nacional, reconstruir sua economia e alcançar um modesto nível de prosperidade. As forças conservadoras e de âmbito interno obtiveram vantagem em Pequim e tentaram reverter algumas das reformas. Em 1992, o programa havia parado perigosamente. Então Deng, que se aposentou e manteve um perfil discreto desde Tiananmen, ultrapassou Pequim para fazer um retorno em Guangdong. Seu "Tour ao Sul" eletrificou a nação e levou suas reformas de volta à vida vigorosa. E o resto, verdadeiramente, é história.

5 de junho de 2017

O "desarmamento" nuclear de Gentiloni

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / A cena da multidão em pânico na praça San Carlo, em Turim, na Itália, com dramáticas consequências, é emblemática da nossa situação. A psicose do atentado terrorista, difundida com arte pelo aparato político-midiático com base em um fenômeno real (do qual se esconde, porém, a verdadeira causa e finalidade), fez com que se desencadeasse de modo caótico o instinto primordial de sobrevivência. Esse está, ao contrário, adormecido pelo blecaute politico-midiático, quando deveria ser suscitado de maneira racional em face daquilo que põe em perigo a sobrevivência de toda a humanidade: a corrida aos armamentos nucleares. 

Em consequência, a esmagadora maioria dos italianos ignora que está para se realizar nas Nações Unidas, de 15 de junho a 7 de julho, a segunda fase das negociações para um tratado que proíba as armas nucleares. O esboço da Convenção sobre as armas nucleares, redigido depois da primeira fase de negociações em março, estabelece que cada Estado parte se compromete a não produzir nem possuir armas nucleares, nem a transferir ou receber direta ou indiretamente. A abertura das negociações foi decidida por uma resolução da Assembleia Geral votada favoravelmente em dezembro de 2016 por 113 países, com 35 votos contrários e 13 abstenções. Os Estados Unidos e outras duas potências nucleares da OTAN (a França e a Grã Bretanha), os demais países da Aliança e os seus principais parceiros – Israel (única potência nuclear no Oriente Médio), o Japão, a Austrália, a Ucrânia – votaram contra. Também manifestaram parecer contrário as demais potências nucleares: a Rússia e a China (abstenções), a Índia, o Paquistão e a Coreia do Norte. 

Entre os países que votaram contra, na esteira dos Estados Unidos, está a Itália. O governo Gentiloni declarou, em 2 de fevereiro, que “a convocação de uma Conferência das Nações Unidas para negociar um instrumento juridicamente vinculante sobre a proibição das armas nucleares, constitui um elemento fortemente divisor que oferece o risco de comprometer os nossos esforços a favor do desarmamento nuclear”. 

A Itália, sustenta o governo, está seguindo “um percurso gradual, realista e concreto na medida certa para conduzir a um processo de desarmamento nuclear irreversível, transparente e verificável”, baseado na “plena aplicação do Tratado de não-proliferação, pilastra do desarmamento”. 

Os fatos demonstram de que modo a Itália aplica o TNP, ratificado em 1975. Apesar de que este obriga os Estados militarmente não-nucleares a “não receber de quem quer que seja armas nucleares, nem exercer o controle sobre tais armas, direta ou indiretamente”, a Itália pôs à disposição dos Estados Unidos o seu território para a instalação de armas nucleares (ao menos 50 bombas B-61 na base de Aviano e 20 em Ghedi-Torre), para cujo uso são treinados pilotos italianos. A partir de 2020 será deslocada para a Itália a B61-12: uma nova arma de first strike nuclear, com capacidade de penetrar no terreno para destruir os bunkers dos centros de comando. 

Uma vez iniciado em 2020 a implantação na Europa do B61-12 (mas não está excluído que seja antes), a Itália, formalmente um país não nuclear, será transformada em primeira linha de um ainda mais perigoso confronto nuclear entre os EUA/OTAN e a Rússia. 

Que fazer? É necessário obrigar a Itália a contribuir para o lançamento do Tratado da ONU sobre a proibição das armas nucleares e o subscrever e, ao mesmo tempo, exigir que os Estados Unidos, com base no vigente Tratado de não-proliferação, removam qualquer arma nuclear do nosso território e renunciem a instalar a nova bomba B61-12. Para quase todo o "mundo político", o argumento é um tabu. Se falta a consciência política, não resta outra coisa senão recorrer ao instinto primordial de sobrevivência.

A Guerra dos Seis Dias e as mentiras israelenses: O que eu vi na CIA

Melvin Goodman

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Em muitas ocasiões na história dos EUA, o uso da força tem sido justificado com inteligência corrupta ou simplesmente mentiras. Tal foi o caso na Guerra Mexicano-Americana; na Guerra Hispano-Americana; na Guerra do Vietnã; e na Guerra do Iraque de 2003. Os controles e contrapesos necessários para evitar o uso indevido da inteligência não foram operacionais, e os presidentes Polk, McKinley, Johnson e Bush enganaram o povo americano, o Congresso dos EUA e a imprensa. Em 1967, funcionários israelenses do mais alto nível mentiram para a Casa Branca sobre o início da Guerra dos Seis Dias.

Como analista junior na CIA, ajudei a elaborar o relatório que descreveu o ataque de Israel contra o Egito na manhã de 5 de junho de 1967. Havia interceptações de comunicações sensíveis que documentavam os preparativos israelenses para um ataque e nenhuma evidência de um plano de batalha egípcio. Os israelenses haviam clamado por indícios de preparativos egípcios para uma invasão, mas não tínhamos sinais de disposição egípcia em termos de poder aéreo ou blindado. O pressuposto era que os israelenses estavam envolvidos em desinformação para obter o apoio dos EUA.

O meu ponto de vista era que seria improvável que o Egito começasse uma guerra com Israel enquanto a metade do seu exército estava amarrada lutando em uma guerra civil no Iêmen. Os arabistas da CIA acreditavam que o presidente egípcio Nasser estava blefando e citou a baixa qualidade do equipamento militar do Cairo.

Ficamos, portanto, chocados quando o assessor de segurança nacional do presidente Johnson, Walt Rostow, recusou-se a aceitar nossa avaliação de inteligência no ataque israelense. Rostow citou "garantias" do embaixador israelense em Washington que, sob nenhuma circunstância, os israelenses atacariam primeiro. Sobre os protestos do ministro de Defesa israelense Moshe Dayan, o governo israelense mentiu para a Casa Branca sobre como a guerra começou. O presidente Johnson foi informado de que os egípcios haviam começado atirando em assentamentos israelenses e que um esquadrão egípcio havia sido visto em direção a Israel. Nenhuma dessas afirmações eram verdadeiras.

Como resultado, nosso relatório que descrevia ataques surpresa israelenses contra bases aéreas egípcios, jordanianos e sírios encontrou uma resposta hostil do Conselho Nacional de Segurança. Felizmente, o diretor da CIA, Richard Helms, apoiou nossa avaliação, e o Centro de Comando Militar Nacional também corroborou o relatório. Rostow convocou Clark Clifford, presidente do Conselho Consultivo Estrangeiro do Presidente e um líder ativo do CNS Hal Saunders para examinar nossa análise, e ambos os homens forneceram corroboração.

Além de mentir para a Casa Branca sobre o início da guerra, oficiais militares israelenses mentiram para o embaixador americano em Israel, Walworth Barbour, sobre movimentos militares egípcios inexistentes. A CIA, entretanto, teve o benefício de uma fotografia de satélite que mostrou aviões egípcios estacionados lado-a-lado em bases aéreas, que apontava que não havia nenhum plano para atacar.

Vinte anos depois, soube-se que o presidente Harry McPherson estava confiante no início do período de guerra e acompanhou o embaixador Barbour na reunião com o primeiro-ministro Eshkol. Quando as sirenes de ataque aéreo israelenses começaram a aoar durante a reunião, o chefe de inteligência israelense, General Aharon Yariv, assegurou a todos que não havia necessidade de se mudar para um bunker subterrâneo. Se tivéssemos essa informação em 1967, teria corroborado nossa análise de que os israelenses destruíram mais de 200 aviões egípcios no chão.

Além de mentir sobre o início da guerra, os israelenses foram ainda mais mentirosos três dias depois quando atribuíram seu ataque malicioso ao USS Liberty a um acidente aleatório. Em caso afirmativo, foi um acidente bem planejado. O navio era um navio de inteligência dos EUA em águas internacionais, tão lento quanto levemente armado. Ele brandia uma estrela e listras de cinco pés por oito pés no sol do meio-dia e não se assemelhava a um navio de nenhuma outra marinha, muito menos um navio do arsenal de um dos inimigos de Israel. No entanto, os israelenses alegaram que eles acreditavam que estavam atacando um navio egípcio.

O ataque israelense ocorreu após seis horas de reconhecimento intenso e de baixo nível. Foi realizado durante um período de duas horas por jatos Mirage não marcados usando canhões e foguetes. Os barcos israelenses dispararam metralhadoras de perto naqueles que ajudavam os feridos, e depois dispararam contra os botes salva-vidas que os sobreviventes jogaram na água na esperança de abandonar o navio. A investigação da NSA sobre o desastre permanece classificada até hoje.

3 de junho de 2017

Concentração na base dos EUA de Camp Darby: "Basta de isto ser território de guerra"

Manlio Dinucci

Il Manifesto / Enquanto decorria em Roma a parada militar do Fórum Imperial, realizou-se frente a Camp Darby uma importante concentração promovida pela Campagna Territoriale di Resistenza alla Guerra, lançada na área Pisa-Livorno, uma das zonas mais militarizadas da Itália.

Camp Darby – esclarece o documento do grupo promotor (ao qual se adere individualmente) – é a base logística do Exército dos EUA que reabastece as forças terrestres e aéreas estadunidenses na região mediterrânea, africana, meridional e outras. Nos seus 125 búnquer encontra-se a totalidade do equipamento necessário para dois batalhões blindados e dois de infantaria mecanizada. São aí armazenadas também enormes quantidades de bombas e mísseis para a aviação.

Não se exclui que aí possam também existir bombas nucleares.

Daqui partiram as armas utilizadas nas guerras EUA/OTAN contra Iraque, Jugoslávia e Líbia, a ligação entre a base EUA e o porto de Livorno, através do Canal dei Navicelli recentemente alargado, será ulteriormente reforçada com a construção de uma linha ferroviária que permitirá o tráfego de maiores carregamentos de armas e explosivos, colocando ainda mais em risco os habitantes da zona. As armas são sobretudo enviadas para o Médio Oriente – para as guerras na Síria, Iraque e Iêmen – agora também por meio de grandes navios EUA que todos os meses fazem escla em Livorno. Livorno é um porto nuclear, onde podem aportar unidades militares a propulsão nuclear e também com armas nucleares a bordo.

A estas infra-estruturas junta-se o Hub aéreo nacional das forças armadas, no aeroporto militar de Pisa, através do qual transitam pessoal e meios para missões militares no estrangeiro. O aeroporto, que inicialmente desempenhava um papel táctico limitado, assumiu um papel estratégico que se projeta nos teatros operacionais fora do território nacional. Pelo Hub aéreo de Pisa transitam também materiais militares da base limítrofe de Camp Darby. 

Ainda em Pisa encontra-se o comando das forças especiais do exército (Comfose) instalado na caserna Gamerra, sede do centro de treino de pára-quedismo. Através do Hub aéreo nacional, os comandos das forças especiais e o seu armamento são enviados para os diferentes teatros de guerra por meio de operações secretas, conduzidas por forças especiais EUA/OTAN.

A luta contra a guerra, que nos lesa e ameaça cada vez mais - sublinham os promotores da Campanha – deve ter como ponto de partida a desmilitarização do nosso território. 

A primeira iniciativa da Campanha, o protesto de 21 de Maio contra o Pisa Air Show no qual, juntamente com os Flechas Tricolores, se exibiram perante 100 mil espectadores os caças Tornado e Eurofighter, utilizados nas guerras contra o Iraque, a Jugoslávia e a Síria. Um Eurofighter custa (aos dinheiros públicos) para cima de 100 milhões de euros e cerca 40 mil por cada hora de voo, o equivalente ao salario bruto anual de um trabalhador.

2 de junho de 2017

Obama: um homem oco cheio de ideias da classe governante

Paul Street

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Homem "vazio" e "vontade nenhuma de combater o bom combate"

Tradução / O que no mundo motivaria o historiador e professor de Direito, Prêmio Pulitzer, David J. Garrow, a escrever 1.078 páginas inacreditavelmente detalhadas (são 1.460 páginas, se se contam as notas e o índice) de uma biografia de Barack Obama, da concepção até a eleição à Casa Branca? Com certeza, de parte de Garrow, não havia qualquer grande afinidade pessoal. Rising Star: The Making of Barack Obama não é história hagiográfica. Na última página desse livro notável, Garrow descreve Obama ao final de sua "presidência fracassada" claramente não transformadora, como um homem que há muito se tornou "barco que sempre navegou completamente vazio."

Aproximando-se da conclusão, Garrow observa o quanto muitos ex-amigos de Obama sentiram-se desapontados e traídos por um presidente que "não se sente em dívida com o povo" (nas palavras de um ex-auxiliar próximo) e que passou tempo excessivo na quadra de golfe e "bajulando celebridades" (1.067). Garrow cita um dos "amigos de Obama de muito tempo, desde Hyde Park [Chicago]," que fez avaliação muito dura: "Barack é personagem trágico: tanto potencial, tanta crítica, mas fracasso imenso na hora de fazer (...) como uma concha vazia (...) Sabe-se lá se o defeito dele é húbris, profunda e antiga húbris (...)" (1.065). Garrow cita o Dr. Cornel West, que apoiou Obama por bem pouco tempo, no início, para quem Obama "fez pose de progressista, depois se viu que não passava de produto falsificado. Terminamos com um presidente de Wall Street, presidente de segurança nacional... um Clinton de pele marrom-claro: mais um oportunista."

O objeto da meticulosa história que Garrow escreveu é obcecado por ascender na sociedade, pronto a rifar qualquer um (inclusive membros da família, amantes e amigos próximos), a serviço de uma busca por poder político que o consome integralmente e cujo combustível é uma crença inabalável em seu próprio "destino" especial. (É bem claro, em Rising Star, que Obama pôs-se a buscar a presidência aos 25 anos.) Dúzias de ex-associados e próximos de Obama entrevistados por Garrow falam de o quanto Obama era dedicado, até mesmo obcecadamente dedicado ao personagem do futuro presidente jovem. Mas muitos outros se afastaram, incomodados com o senso de superioridade e a arrogância de Obama ("cheio de si", na lembrança de um colega de classe na Faculdade de Direito de Harvard [p. 337]) e pelo modo professoral "de quem sabe tudo" –, e pela muito transparente hiper-ambição.

Durante o curso de Direito em Harvard, colegas seus inventaram "o Obamômetro" – um sistema numérico para medir o tempo que Obama gastaria, das horas de aula, em intermináveis diálogos com o professor, quase sempre se apresentando como se falasse em nome dos colegas.

Obama impressionou muita gente ao longo de seu caminho, por conta do autodeslumbramento. Como disse um deputado estadual negro por Illinois, seu contemporâneo, a outro político veterano, quando Obama iniciou o mandato de oito anos como deputado, em 1996, "Você acredita que esse sujeito, trinta e poucos anos... já escreveu um livro sobre ele mesmo?" (p.600)

Lobbyistas progressistas avaliaram Obama como "um desapontamento" como legislador, no tempo em que foi deputado estadual em Illinois. Segundo Al Sharp, diretor executivo de Protestants for the Common Good, o deputado estadual Obama era "tão absolutamente pragmático" que, nas palavras de Garrow, "não se interessava por combater o bom combate." Opinião de Garrow. "A veterana advogada e assessora legislativa Linda Mills lembrou que [o deputado estadual] Barack 'patrocinou vários projetos de lei que eu mesma redigi,' mas 'parei logo em seguida deixei de considerá-lo grande patrocinador' porque Barack era 'descomprometido' e não promovia ativamente os projetos. '[Obama] jamais se envolveu no trabalho legislativo' e muitas vezes simplesmente 'desaparecia. Golfe, basquete. Muito frequentemente saía para almoçar e não voltava'" (p.731).

Oferta feia: dinheiro em troca de silêncio

Para mim, outra história em Rising Star, no mesmo campo, é também muito perturbadora. De abril de 2008, quando Obama, já candidato à presidência, estava sendo pressionado pela campanha de Hillary Clinton a descartar seu "mentor espiritual" dos tempos de South Side Chicago reverendo Jeremiah Wright, porque a associação de Obama com o feroz pregador de esquerda e pró-negros estaria custando a Obama muitos votos brancos. No dia 12 de abril de 2008, Obama visitou Wright e pediu que "não voltasse a falar em público até depois das eleições de novembro". Wright recusou. "Barack saiu. Mas pouco depois Wright recebeu um e-mail de Eric Whitaker, íntimo amigo de Barack e também membro da [igreja] Trinity, que oferecia a Wright $150 mil, 'para suspender completamente qualquer pregação nos meses seguintes" (p.1.044). Wright recusou.

O que valem esses feitos, em termos de esperança e mudança?

"Uma peça de ficção histórica"

O jovem Obama tentou sair à frente dos historiadores futuros, ao escrever sua própria forjada autoelogiosa autobiografia das primeiras três décadas e meia durante as quais coloriu e enfeitou o planeta com suas "qualidades especiais". Garrow não caiu no golpe, diga-se a favor dele. Rising Star trata o livro Dreams From My Father Dreams de 1995 e outras reflexões autobiográficas posteriores de Obama como outra coisa: para inventar um profundo drama de identidade racial que jamais existiu durante os primeiros anos de Obama no Havaí, na Indonésia e no Occidental College; para inventar um retrato de Obama como alguém que "fez diferença" no time de basquete do ginásio; para inventar que Obama teria sido "durão" e "rebelde" no ginásio; para apagar o passado no Community Party do "velho poeta" Negro ("Frank," ativista do Partido Comunista, de longa história), que foi conselheiro de Obama, na adolescência em Honolulu; que pretende convencer que Obama teria tido "bolsa completa" no Occidental College; para exagerar o envolvimento de Obama no ativismo anti-apartheid na Universidade Columbia; para encobrir provas de que Obama inscreveu-se num curso ministrado por professor marxista; para mascarar a natureza do trabalho de Obama no New York Public Interest Research Group (NYPIRG) na City University of New York; para inventar um diálogo mítico, que teria mudado toda a vida de Obama com um "guarda-costas negro" na primeira viagem de Obama a New York City para começar a organizar trabalho comunitário no South Side de Chicago; para forjar a versão de que Obama converteu-se ao cristianismo nos primeiros anos em Chicago; para praticamente varrer da autobiografia a mãe branca de Obama; para reforçar a figura de um pai (Barack Obama. Sênior) que teve rala presença na vida do filho; para pintar "retrato claramente nada caridoso" de um avô materno carinhoso (Stanley Dunham) que tanto fez para educá-lo; para sugerir que a avó materna branca de Obama seria racista; para diluir o muito que Obama divertiu-se e gozou durante o curso de Direito em Harvard; e para condensar friamente suas três principais namoradas pré-casamento (mais sobre isso, adiante) "numa única mulher cuja presença no livro já se diluía." Garrow define Dreams como "trabalho de ficção histórica" – "não como memórias ou autobiografia séria.

A vingança de Sheila Jager: "Sua profunda necessidade de ser amado e admirado"

Rising Star quase faz jus ao subtítulo "A revanche de Sheila Jager". Como na biografia gigante e clássica do Dr. Martin Luther King, Jr, Rising Star invade campos muito, muito pessoais. Garrow registra reclamações de três ex-namoradas – Alex McNair, Genevieve Cook e Sheila Jager. Cada uma delas relembra um Obama que, na verdade, sempre foi inacessível e inapelavelmente autorreferente. Miss Jager, branca, formada em Antropologia na Asian-American University de Chicago quando conheceu Obama, merece atenção especial. Ela viveu affair prolongado e ardente com Obama, então organizador comunitário no final dos anos 1980. Mas a relação longa e turbulenta com Obama estava condenada desde o início pela cor da pele dela. Obama partilhou a paixão, até que decidiu que não casaria com ela porque as ambições políticas dele em Chicago exigiam esposa negra.

Garrow registra uma feia cena no verão de 1987. De repente irrompeu uma longa briga na casa de verão de um amigo em Wisconsin. Desde manhã cedo, uma testemunha relembra "o tempo inteiro, sem parar, berravam, brigavam, faziam sexo, gritavam, berravam... Durou a tarde inteira, sexo e briga feroz", e Jager gritava: "Está errado! Errado! Isso não é motivo."

Chegando ao fim desse volume colossal, Garrow diz que "ninguém hoje vivo penetrou tão fundo na tragédia de Barack Obama, que Sheila Jager." Reproduz várias citações de Jager, que hoje é professora de Antropologia no Oberlin College. Mulher e jovem apaixonada, a falta de "coragem" do jovem Obama frustrou-a. Em carta para Garrow em agosto de 2013, Jager viu essa covardia também na presidência excessivamente "pragmática", descomprometida, e "só feita de concessões", de Obama:

"as sementes dos fracassos futuros já estavam presentes em Chicago. Ele tomou uma série de decisões calculadas, quando começou a mapear a própria vida política à época, e aquelas decisões envolveram concessões profundas. Há um eco familiar na linguagem dele hoje, para falar das concessões que teve de fazer, e o modo como me explicou seu futuro naquela época, dizendo sempre 'eu gostaria' de poder fazer tal coisa, mas 'pragmaticamente e a realidade do mundo forçaram-me a fazer [outra coisa].' Desde o resgate da Agência de Segurança Nacional até o Egito, é sempre a mesma coisa. O problema é que 'pragmatismo' pode às vezes ter ares de, simplesmente, o que melhor 'funciona' em cada momento. Daí a crítica tantas vezes repetida, de que não há visão estratégica por trás das decisões dele. Talvez esse pragmatismo e a necessidade de simplesmente 'fazer como todo mundo' (aceitando o mundo como é, em vez de tentar transformar o mundo) tenham raízes numa necessidade muito profunda nele de ser amado e admirado; essa necessidade, no fim, o pôs numa trilha de conformismo, não na trilha da grandeza que sonhei para ele" (1.065).

Toda essa passagem aparece em itálicos, no livro de Garrow.

Ou quem sabe ele realmente acreditava em todo esse lixo "neoliberal vazio e repressivo" e "pragmático"

A monumental biografia de Garrow é um tour de force no que tenha a ver com crítica pessoal, avaliação profissional pesquisa e documentação épicas. Notáveis, em todos os casos, o controle absoluto do historiador sobre até os mais ínfimos detalhes da vida e da carreira de Obama, bem como a habilidade para pôr aqueles fatos dentro de uma narrativa que prende a atenção do leitor – o que não é feito desimportante, para 1.078 páginas!). Mas Rising Star deixa a desejar em termos de crítica da ideologia. No início de 1996, o brilhante cientista político Adolph Reed, Jr., negro e de esquerda, já capturara os estreitos limites morais e políticos do que viria a ser o fenômeno Obama, então estadual, logo depois nacional, e até do governo Obama. Escrevendo sem citar o nome de Obama, Reed observou que:

"Em Chicago (...) temos uma amostra da nova safra de vozes comunitaristas negras incubadas em fundações; uma delas, um suave advogado de Harvard, com credenciais impecáveis de benfeitor e política neoliberal entre oca e repressiva, foi eleito à assembleia estadual, apoiado principalmente em fundações liberais e pró-desenvolvimento. A linha dele, fundamentalmente fraturada, foi suavizada por uma pátina de retórica de comunidade autêntica, com reuniões de cozinha, soluções de pequena escala para problemas sociais, e a predominância previsível do processo sobre o programa – o ponto no qual políticas identitárias convergem com reformismo retrógrado de classe média, favorecendo a forma sobre a substância."

Garrow cita muito incompletamente o parágrafo de Reed, apenas para descartá-lo como "jeito acadêmico de chamar Barack de Uncle Tom." É avaliação gravemente malsucedida. O que Reed escreveu foi fartamente comprovado na carreira política subsequente de Obama. Como seus irmãos-de-alma político-ideológicos Bill Clinton e Tony Blair (e talvez hoje também Emmanuel Macron), a vida pública de Obama foi miserável monumento aos obscuros poderes das agendas corporativo-financeira e imperial, sob uma falsa fachada progressista da classe dos políticos profissionais de lábia afiada gerados na televisão.

A intuição certeira de Reed mais de 12 anos antes de Obama tornar-se presidente é mais atilada, quanto à tragédia Obama, que a reflexão de Jager quando Obama já era presidente há cinco anos. O gosto nauseabundo de Obama por qualquer suposto (e enganador) "fazer as coisas acontecerem", "pragmatismo", "concessão" e "jogar sem riscos" –, a favor de "aceitar o mundo como é, em vez de tentar mudá-lo" (Jager) – não era simplesmente ou meramente um traço de personalidade ou alguma falha psicológica. Era também e muito mais significativamente um modo já consagrado de presidentes e outros políticos Democratas "liberais" se fazerem passar por "firmes" e decididos a "fazer as coisas acontecerem", ao mesmo tempo em que subordinam os valores falso-populares e falso-progressistas que vociferam para se elegerem, ao duro "estado profundo" da classe dirigente, imperial nos EUA e ao poder da "segurança nacional. Uma atenção dita "pragmática" supostamente não ideológica à efetividade das políticas – "o que se pode conseguir no mundo real" – há muito tempo fornece a presidentes "liberais" uma via para justificar que governem em perfeito acordo com os desejos da classe dirigente e da elite do poder da nação.

Garrow e Jager talvez queiram examinar um clássico da ciência social nos EUA, de Bruce Miroff, Pragmatic Illusions: The Presidential Politics of John F. Kennedy [1976]. Depois de detalhar o serviço "melhor e mais brilhante" supostamente progressista que Kennedy prestou às hierarquias corporativas reinantes, imperiais e raciais da nação, com sua cabeça-fria e objetividade à Harvard, Miroff explicou que:

"Muitos presidentes modernos têm reivindicado para si o título de 'pragmáticos'. Richard Nixon cuidou tanto quanto John Kennedy e Lyndon Johnson de fazer-saber que não era dado a dogmas, e que seu governo seguiria rota realista e flexível. Mas foram os presidentes liberais que, mais que quaisquer outros, aproveitaram-se do rótulo pragmático (...) Para presidentes liberais – e para os que os que lhes serviram como conselheiros – a marca essencial do pragmatismo é o que chamavam de cabeça-firme [ing. 'tough-mindedness']. Pragmatismo passou a significar força e força intelectual e moral capaz de aceitar um mundo destituído de ilusões; capaz de suportar fatos não suavizados. Comprometidos com objetivos liberais, mas libres do sentimentalismo liberal, os liberais pragmáticos veem-se eles mesmos como agentes que lidam com fatos brutais e desagradáveis da realidade política, para humanizar e suavizar aqueles mesmos fatos (...). O grande inimigo dos liberais pragmáticos é a ideologia (...). Um dos pilares da 'cabeça firme' pragmática é uma objetividade ilusória. O segundo pilar é prontidão para o poder. Os pragmatistas interessam-se por tudo que funciona; o primeiro critério de valor deles é o sucesso ... [e] como crente dos resultados concretos, o pragmatista é irremediavelmente arrastado para o poder. Porque é o poder que faz as coisas acontecerem mais facilmente, que faz as coisas funcionarem com maior sucesso." (Pragmatic Illusions, 283-84, itálicos meus).

Bill Clinton, o neoliberal clássico abraçou a fachada pragmática e não ideológica do "fazer as coisas acontecer" para a política do capitalismo de estado e do imperialismo. Jimmy Carter, neoliberal pioneiro, também; e os grandes liberais pró-empresas Lyndon Johnson, John F. Kenedy e Franklin Roosevelt. Seriam todos realmente ou principalmente portadores de necessidades psicológicas especiais? A realidade mais profunda e mais relevante é que funcionaram no topo de um estado superpotência governado por ditaduras não-eleitas e inter-relacionadas de dinheiro, império e supremacismo branco. Foram educados, socializados, seduzidos e doutrinados – para incorporar nos próprios ossos que as ditaduras de fato devem permanecer intactas (Roosevelt jactava-se de ter salvado o sistema dos lucros), e que "reforma" liberal deve sempre se curvar ao desejo das instituições e doutrinas reinantes da riqueza, classe, raça e poder concentrados. Alguns deles, ou todos, podem bem ter de crer e internalizar uma ideologia dita não ideológica de algum pragmatismo que não serviria nem à riqueza nem ao poder. E Obama ou já era crente fervoroso, ou desde muito cedo escolheu cinicamente fazer-se de crente fervoroso como passaporte para o poder.

Neoliberal completamente cunhado desde cedo

Ironia aqui é que se pode consultar Rising Star para aferir a acuidade básica que subjaz à amarga descrição de Reed. A principal revelação para mim, de Rising Star, é que Obama já era completamente formado como ator capitalista-neoliberal-progressista falsificado desde muito antes de receber o primeiro dinheiro-gordo como contribuição de campanha. Seguiu a mesma trilha ideológica que os Clintons, desde antes de Bill Clinton caminhar para o Salão Oval. Os anos de Obama no mundo das fundações financiadas por empresas, a grande classe profissional e governante das escolas de formação em Direito em Columbia, Harvard, e a grande elite neoliberal da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago foram mais do que suficientes para forjá-lo como liberal brilhante, embora "entre vazio e repressor".

Durante seus anos na Faculdade de Direito de Harvard, observa Garrow, Obama disse o seguinte, numa reunião de cúpula de Turner Broadcasting African American Summit para os anos 1990:

"Sempre que culpamos a sociedade por tudo, ou culpamos o racismo branco por tudo, inevitavelmente cedemos nosso próprio poder (...) se podemos começar a ultrapassar algumas dessas velhas divisões [de raça, de local e de classe] e considerar as possibilidades de estratégias pragmáticas, práticas, que se foquem mais no que fará a coisa funcionar e menos em se se encaixam num ou noutro molde ideológico."

Estes eram clássicos temas neoliberais e da classe dominante.

Somada a gorda dose de economia de mercado, essa foi a essência pesadamente ideológica nominalmente dita anti-ideológica de grande parte do trabalho intelectual de Obama na Faculdade de Direito, onde ele e seu bom amigo o ex-economista Rob Fisher foram atraídos para cursos de um professor libertário e escreveram paradoxalmente sobre o potencial progressista e democrático de "forças do mercado". Como outras instituições de "educação superior" da classe governante e de educação profissional e ideológica de classe, a Faculdade de Direito de Harvard foi e continua a ser celeiro onde se produz precisamente o tipo de "pragmatismo" que sabe que nenhuma política e nenhuma visão jamais funcionarão se não se curvarem ante o santo poder do estado imperial e das corporações comandadas pela finança, e que comandam em nome do mercado, dentre outras coisas.

Repetidas e repetidas vezes, nas muitas centenas de páginas de Garrow sobre a carreira de Obama como organizador comunitário e como deputado, ouve-se falar dos esforços classicamente neoliberais do futuro presidente para enfrentar a pobreza e o desemprego fazendo aumentar o valor de mercado do "capital humano" e "competências" do pessoal desempregado e pobres em geral. Em momento algum se ouve qualquer palavra, de Obama, a favor de redistribuição radical da riqueza e do poder nem de economia política baseada em solidariedade e no bem comum, não em mais lucros para a classe dos investidores.

Detalhes importantes que Obama precisava acrescentar, para completar a capacitação para seu "destino" depois da Faculdade de Direito de Harvard eram uma carreira política em posto eletivo, um grande momento como celebridade nacional (seu espetacular "Discurso à Convenção Nacional Democrata" em agosto de 2004), patrocínio pela elite financeira (incluindo as contribuições recordes de Wall Street em 2007 e 2008), e elogios adequados e articulação com a ideologia pró EUA imperiais do Conselho de Relações Exteriores. Tudo isso e mais, incluindo não pequena fatia de sorte (como o péssimo governo de George W. Bush e a péssima campanha de Hillary Clinton em 2007-08), e chegamos ao grande "desapontamento" neoliberal que foi o governo Obama.

Deleções curiosas: MacFaquhar, marxistas e patrocinadores da classe dominante

Há algumas interessantes omissões em Rising Star. Estranho que Garrow sempre tão meticuloso, não cite um ensaio notável, publicada em The New Yorker na primavera de 2007. No início de maio daquele ano, seis meses antes de Obama declarar-se candidato à Casa Branca, Larissa MacFarquhar, da New Yorker publicou retrato memorável de Obama intitulado "O conciliador: De onde vem Barack Obama?" "Em sua visão da história, em seu respeito pela tradição, no ceticismo quanto à possibilidade de mudar o mundo a não ser muito, muito lentamente" –, escreveu MacFarquhar depois de longa entrevista com o candidato, –"Obama é profundamente conservador. Em algum momento chega a soar quase Burkeano... Não é só porque pensa que revoluções são improváveis: ele valoriza a continuidade e a estabilidade em si mesmas, às vezes até mais do que valoriza qualquer mudança para melhor" (itálicos meus).

MacFarquhar citava como exemplo desse sentimento reacionário de Obama a relutância dele em adotar o seguro-saúde de um só pagante, à imagem do modelo canadense, o qual Obama disse a ela que "é tão violento que as pessoas sentem que o modelo que conheceram durante quase a vida inteira é jogado de lado." Obama disse a MacFarquhar que "temos todos esses sistemas instalados, e administrar a transição e ajustar a cultura a um sistema diferente, seria muito difícil de fazer funcionar. Talvez precisemos de modelo menos violento, de modo que as pessoas não sintam que o que conheceram durante quase a vida inteira é jogado de lado".

E daí, se as grandes maiorias populares nos EUA há muito tempo prefiram o modelo de pagador único? E daí, se o pagador único permite que as pessoas mantenham o médico que preferirem, podendo assim jogar de lado a proteção das máfias dos seguros privados de saúde? E daí, afinal, se os sistemas defendidos por Obama incluem seguradoras privadas e oligopólios farmacêuticos que regularmente jogam de lado milhões de vidas de norte-americanos, nos cálculos de mercado, provocando enormes danos e mortes entre a população?

Seriam fraqueza e covardia pessoais? A realidade mais profunda é que as crenças de Obama, "profundamente conservadoras" refletiam adesão ou por cálculo ou de coração aos ideais neoliberais do "livre mercado" e valores relacionados pragmáticos e "realistas" da classe governante e das elites profissionais inculcados nele e absorvidos na Faculdade de Direito de Harvard, no mundo das fundações cativas das grandes corporações, e mediante seus muitos contatos no setor da elite empresarial e no establishment da política exterior, enquanto era criado dentro do Sistema Americano. Além de profundo comprometimento com o longo projeto imperial norte-americano, essas crenças de servir sempre ao poder estavam todas explícitas no livro do Obama conservador do final da campanha de 2006 The Audacity of Hope (segundo livro escrito por Obama sobre ele mesmo, que resenhei no início de 2007, no Black Agenda Report), e cujo conteúdo de direita imperial Garrow ignora. Tudo isso aparece também no famoso discurso à Convenção dos Democratas em 2004 (que comentei na ocasião) e que tanto contribuiu para fazer de Obama personalidade nacional e global, praticamente do dia para a noite – outro documento cuja inclinação ideológica de direita também escapa à atenção de Garrow.

Como a ideologia neoliberal e imperial de Obama, também está ausente de Rising Star o que muitos ativistas e autores de esquerda (entre os quais me incluo) souberam ver através da tênue cobertura falsamente progressista de Obama e sobre o quê alertaram contra o candidato desde muito cedo. A lista de comentaristas de esquerda cujas análises e leituras de Obama não foram consideradas é longa: Bruce Dixon, Glen Ford, John Pilger, Noam Chomsky. Alexander Cockburn, Margaret Kimberly, Jeffrey St. Clair, Roger Hodge, Pam Martens, Ajamu Baraka, Doug Henwood, Juan Santos, Marc Lamont Hill, John R. MacArthur, e muitos outros (vejam por favor a subseção intitulada "Avisos insistentes vindos da esquerda", nas páginas 176-177 no 6º capítulo de meu livro de 2010 The Empire's New Clothes: Barack Obama in the Real World of Power [Paradigm, 2014], meu segundo livro cuidadosamente pesquisado, que não aparece nem em notas nem na bibliografia de Garrow).

Também ausente – o outro lado da moeda da omissão, por assim dizer – na alentada análise de Garrow é a elite da classe empresarial e financeira que fez contribuições recordes para a ascensão política de Obama, sob o óbvio pressuposto de que Obama era seu aliado, não adversário. Como escrever mais de 1.000 páginas sobre a ascensão de Obama ao poder, ser mencionar, nem uma vez, que fosse, aquela figura augusta inigualável de Robert Rubin, cuja aprovação foi crucial para a ascensão de Obama? Como observou Greg Palast, Rubin "abriu para Obama as portas dos cofres da indústria da finança. Façanha extraordinária para um Democrata, em 2008 Obama arrecadou três vezes mais dinheiro de banqueiros, que seu adversário Republicano."

Rubin também seria conselheiro informal de Obama e plantaria grande número de seus protégés em posições do alto escalão do governo Obama. Entre os apadrinhados por Rubin nomeados por Obama incluem-se Timothy Geithner (1º secretário do Tesouro de Obama), Peter Orszag (1º diretor do Gabinete de Gestão e Orçamento de Obama) e Larry Summers (1º principal conselheiro de Economia).

Quase tão estranha quanto a omissão do ensaio de MacFarquhar de maio de 2007 é a nenhuma atenção que Garrow dá a uma importante matéria de Ken Silverstein, de seis meses antes. "Nem sempre é muito claro o que querem os apoiadores financistas de Obama", escreveu o jornalista progressista Ken Silverstein em matéria para a Harpers' Magazine intitulada "Obama, Inc." em novembro de 2006, "mas parece seguro concluir que os financiadores da campanha dele não têm qualquer interesse em governo limpo ou reforma política … Pedindo que seu nome não fosse revelado", escreveu Silverstein, "um lobbyista de Washington com quem conversei, apontou rapidamente o óbvio: os grandes doadores jamais estariam apoiando Obama se não o visse como 'player.' O lobbyista acrescentou: 'Qual o valor em dólares, de um idealista de olhar estrelado?'" A fidelidade de Obama à elite empresarial norte-americana sempre esteve evidente desde o primeiro momento. Era perfeitamente compreendida pelos insiders da K Street entrevistados por Silverstein no outono de 2006.

O "valor dólar" de Obama para Wall Street ficaria perfeitamente claro já no início de 2009, quando disse a um preocupado grupo de executivos de Wall Street que "Não estou aqui para perseguir vocês. Estou protegendo vocês (...) Vou proteger vocês contra a ira pública e do Congresso." Quanto à elite do banking, que havia destruído milhões de empregos, não havia, como escreveu outro vencedor do Prêmio Pulitzer, como Garrow, Ron Sukind, "nada com o que se preocupar. Se [o presidente Franklin Delano] Roosevelt [durante a Grande Depressão batera com força e furiosamente se opusera às reformas pregadas por Wall Street, sobre quem disse, em frase que ganhou fama que "para mim, o ódio deles é bem-vindo", Obama agora dizia 'Como posso ajudá-los?'" Como um grande banqueiro disse a Suskind, "Ao final da reunião, o sentimento generalizado era de alívio. O presidente nos pegou em momento de real vulnerabilidade. Ali, poderia ter-nos mandado fazer praticamente qualquer coisa e correríamos a obedecer. Mas não. Queria mais nos ajudar a escapar, segurar a multidão."

Sobre amor e admiração

Como se lê acima, a professora Jager disse a Garrow que os limites do governo de Obama brotavam de antiga "necessidade de ser amado e admirado." Mas com certeza essa necessidade seria satisfeita em considerável proporção se Obama (como Roosevelt em 1935 e 1936) governasse em acordo pelo menos parcial com a retórica progressista da campanha em 2007 e 2008. Além do benefício social, democrático, de segurança e ambiental que milhões de norte-americanos teriam obtido em governo Obama realmente progressista, essa política teria sido boa política para Obama e para o Partido Democrata. Talvez até tivesse prevenido a rebelião do Tea Party e mantido a besta de cabelo cor-de-laranja Donald Trump – sujo legado neofascista do elitismo da classe governante e profissional da gang da Ivy League – longe da Casa Branca. O maior problema aqui foi o amor, a admiração de Obama pela elite reinante do dinheiro e do poder – ou, talvez, um cálculo bastante razoável, segundo o qual os poderes reais detêm o monopólio sobre os meios de atrair o amor e a admiração das massas. Não conformismo e oposição à classe dominante têm alto custo, numa cultura midiática e política da qual aquela classe é proprietária.

A maior omissão de todas: Império

O item mais flamante que não há em Rising Star é sequer uma linha sobre a visão de mundo imperial de Obama senador e candidato à presidência dos EUA. Seu pensamento de descarado "excepcionalista norte-americano" e imperialista, saído diretamente do Conselho de Relações Exteriores, esteve sempre marcado em cada linha dos discursos e escritos de Obama sobre política externa (incluindo longos trechos de The Audacity of Hope) em 2006, 2007 e 2008. Escrevi detidamente sobre isso no quarto capítulo (intitulado "How Antiwar? Obama, Iraq, and the Audacity of Empire") de meu livro de 2008 Barack Obama and the Future of American Politics.

Essa significativa omissão nem chega a surpreender, dado o visível envolvimento de Garrow com o mesmo pensamento imperialista norte-americano. O longo epílogo de Rising Star inclui crítica à mineira de John McCain contra Obama por não ter ordenado ataques à Síria, e por ser alérgico demais ao "uso da força, até mesmo à ameaça de usar a força" em assuntos globais. Garrow chega a fazer uma longa citação crítica a propósito da necessidade de "o próximo presidente" ser mais "resoluto", da pena do ex-secretário da defesa e imperialista dedicado Robert Gates, o qual, muito estranhamente, Garrow descreve como "de todas, a voz de mais peso e mais amplamente respeitada".

"Problemas com a situação dos afro-americanos na sociedade"

Obama foi visto pela primeira vez como celebridade quando se tornou o primeiro editor negro da Harvard Law Review em fevereiro de 1990. "Não gostaria que as pessoas vissem minha eleição" – disse Obama à Associated Press, "como símbolo de que não há problemas aí com a situação dos afro-norte-americanos na sociedade" (Garrow, Rising Star, p. 392). Note-se a natureza cuidadosamente medida do comentário público de Obama já aos 28 anos: "problemas aí com a situação dos afro-norte-americanos na sociedade" poderia referir-se a um suposto fracasso pessoal ou cultural de um negro (tema persistente para agradar aos brancos na retórica política da estrela em ascensão), como também se poderia referir a racismo societal cultural e/ou institucional. Observe-se também que, se a eleição e a reeleição de Obama à presidência dos EUA trouxeram poucos ganhos políticos materiais tangíveis para a América Negra (cuja situação econômica já terrível deteriorou-se significativamente durante o tempo de Obama na presidência), também é verdade que foram como o último prego no esquife da dura relutância de muitos brancos para reconhecer que o racismo ainda fundamente incorporado na nação, nem por isso continua a ser barreira intransponível para o progresso dos negros e para a igualdade nos EUA. "Você está brincando comigo?" Ouvi incontáveis brancos dizerem "elegemos um presidente negro! Pare de falar de racismo!" Não importa o quão profundamente persista a desigualdade racial e a opressão, no fundo no mercado de trabalho e da moradia nos EUA, no sistema de crédito e investimento, no sistema judiciário civil e criminal, nas polícias militares e estaduais, e nos sistemas educacional e midiático – e a obcecada tenacidade do preconceito racial pessoal e cultural em parte considerável da população branca. Nesse e em outros sentidos, a tragédia dos anos Obama foi ainda maior para os que mal sobrevivem no mais baixo degrau social dos fundões econômicos.

King vs. Obama

Se pudesse fazer mais uma pergunta a Garrow, além de por que meu estudo caprichado, bem pesquisado e fartamente anotado sobre (e, também, grito de alerta da Esquerda contra) Obama, "estrela em ascensão" (Barack Obama e o Futuro da Política Americana [Paradigm-Routledge, 2008]) é tão ostensivamente ausente de sua bibliografia e notas, perguntaria o seguinte: o que, na opinião de Garrow, pensaria o Dr. Martin Luther King. Jr. – tema de outra biografia épica do mesmo autor –, e o qual polidamente recusou os esforços de progressistas para apontá-lo como candidato à presidência (e cujo busto lá esteve às costas de Obama no Salão Oval) – da carreira do novo biografado de Garrow, Barack Obama?

Como Garrow sabe, nos seus últimos anos King passou a investir eloquentemente contra o que chamou de "os três males inter-relacionados", essencialmente capitalismo, racismo e militarismo-imperialismo. King foi martirizado já convencido de que as verdadeiras falhas na vida norte-americana jazem nem tanto nos "homens", mas, muito mais nas instituições e estruturas sociais opressivas que regem acima dos homens. Escreveu que "a reconstrução radical da própria sociedade" era "a verdadeira questão a ser encarada", muito acima de questões "superficiais". Claro que não teria interesse algum em concorrer à Casa Branca.

Obama escolheu trilha muito diferente, que o pôs a serviço de seu próprio ego narcisista e a serviço de cada um dos "três males" (além de vários outros), os mesmos que King combateu até o sacrifício da própria vida.

O contraste Obama-King persiste nos anos de pós-presidência de Obama. Como Garrow mostrou em Bearing the Cross: Martin Luther King. Jr. and the Southern Christian Leadership Conference (William Morrow, 1986), o grande líder dos Direitos Civis e socialista democrata Dr. King recusou-se firmemente a fazer da própria popularidade meio de vida. Obama, ao contrário, agora que está fora da Casa Branca, não faz outra coisa que não seja procurar converter em dinheiro o próprio nome. Está arrancando milhões da indústria editorial e de Wall Street e está de volta à velha vida de bajulador de ricos e famosos.

O reverendo teria 88 anos se tivesse sido abençoado com a longevidade. Acho que ele ficaria menos satisfeito com a vida e a carreira do primeiro presidente tecnicamente negro da nação.