30 de junho de 2017

Pela primeira vez na minha vida, não sinto como se as coisas só pudessem piorar

Juliet Jacques

Repeater Books

Ao contrário de muitos amigos de esquerda em Londres, que têm sido melhores do que eu na participação em manifestações, nunca conheci Jeremy Corbyn. Para minha vergonha – e talvez porque minha ansiedade e depressão me impediram de viajar de Manchester para Londres para a manifestação anti-guerra em fevereiro de 2003– eu nunca tinha ouvido falar dele antes de ele concorrer à liderança do Partido Trabalhista há dois anos.

Mas eu já havia conhecido o John McDonnell – no evento do “Parlamento Popular” [“People’s Parliament”, no original] que ele organizou com a (antiga) Zero Books na Câmara dos Comuns, em março de 2014. McDonnell explicou que ele convocou as sessões para receber diferentes vozes no Parlamento, onde os deputados poderiam ouvi-las. Ele realizava painéis mensais sobre vários assuntos; embora muitos fossem para trabalhadores e sindicalistas, muitas vezes ele abria espaço para escritores e ativistas. Dessa vez, esses escritores eram Mark Fisher, Rhian Jones e Alex Niven – todos pessoas que conheci em Londres, e que considerava amigas, depois de passar dois anos vagando pelos círculos de escritores e jornalistas até encontrar aquele que mais me entusiasmava, centrado em torno da Zero (agora Repeater) e da Verso Books. (J. D. Taylor, a quem eu não conhecia, apresentou o painel final).

McDonnell estava interessado nas idéias do grupo: na análise de Mark sobre o “realismo capitalista” e a necessidade de se imaginar um futuro melhor, apesar daqueles que insistiam que “não há alternativa” e que o pensamento utópico era inútil; na “Oposição Popular” [no original, “Folk Opposition”] de Alex, sobre histórias e possibilidades da cultura popular de oposição, enquanto comentaristas perplexos constantemente perguntavam “o que aconteceu com a música política?”; e na “Repressão” [no original, ‘Clampdown’] de Rhian, uma interrogação sobre classe, gênero e política racial no Britpop, que ainda dominava a imaginação dos nostálgicos picaretas do “Novo Trabalhismo”, e do “indie” conservador e estupefaciente que o seguiu.

Todos esses autores defendiam mudanças abrangentes na relação entre política, cultura, e o clima ideológico em que operavam. Eu havia atingido um pico de desespero com a política parlamentar, especialmente com a forma como a imprensa de direita ditava seu tom, mesmo depois do inquérito Leveson. Sob Ed Miliband, o projeto do Novo Trabalhismo parecia completamente esvaziado, e o Partido Trabalhista Parlamentar me parecia (e a muitos outros) dominado por um comitê sem alma, pensando e se rendendo aos termos que os Tories, os tablóides e seus patrocinadores queriam impor à sociedade britânica. (Na verdade, eu havia estado a menos de dois metros de Miliband na festa do centenário da New Statesman em 2013, quando eu publicava um blog para a revista, em uma tentativa desesperada e, enfim, condenada de trazer uma perspectiva política e cultural mais à esquerda para o seu site. Eu decidi não me apresentar e não incomodar.) Eu não percebia que o Partido Trabalhista ainda abrigava gente como McDonnell: eu assumia que todos abandonaram o navio ou foram purgados durante os anos de Blair e que não haviam sido atraídos de volta por eventos como o protesto anti-austeridade da TUC em março de 2011 – uma marcha com bastante comparecimento (mas estranhamente sem vida) para ver Miliband e, possivelmente, Billy Bragg – nem me lembro.

Gostei do evento, mas saí de lá com o mesmo sentimento de melancolia que eu costumava ter depois de tais discursos. Eu tinha ouvido algumas provocações interessantes, mas muitas das nossas conclusões tinham uma sensação similar: nós identificávamos os problemas, mas frases como “precisamos encontrar uma maneira de mudar o discurso” sobre [digamos] refugiados buscando asilo, requerentes de programas sociais ou sobre s cortes no setor público raramente mascaravam nosso senso de impotência. Sem um movimento sindical ou um partido político que parecesse poder ser um veículo de mudança, estávamos cuspindo no vento: algumas pessoas estavam ouvindo, mas não o suficiente, e muito poucas com influência.

Mais tarde naquele ano, em um painel organizado pelo think tank CLASS na TUC, falei sobre o “potencial da arte e da cultura” – discutindo como o valor da arte hoje parecia ser considerado apenas em termos financeiros, com o financiamento cortado para qualquer coisa que possa não gerar dinheiro, sem qualquer pensamento sobre mérito artístico ou sobre como idéias que inicialmente atingem apenas um punhado de pessoas podem ser transformadoras para aquele punhado e, em última instância, para todos. Com uma eleição geral se aproximando, um amigo expressava seus temores de que “o Partido Trabalhista agora não passava de um bando de bitolados” – tecnocratas com quem ninguém se identifica, que afastavam inúmeras pessoas do partido. Não me esqueci de McDonnell, mas, até onde eu via, os deputados mais jovens pensavam quase exclusivamente que a ordem existente precisava apenas de pequenos ajustes – sem possibilidades para nada mais ambicioso – e não entendiam que, se não havia nenhum tema sobre a qual eles não cederiam, então eles não estavam fazendo concessões, mas capitulando.

Eu não conhecia nada além do Novo Trabalhismo, conforme me aproximava da meia idade: eu tinha 33 anos quando a eleição geral de 2015 foi realizada. Nunca votei no Partido Trabalhista. Em 2010, vivendo em Brighton Pavilion, me deleitei quando meu voto para Caroline Lucas contribui para uma vitória sem precedentes pelo Partido Verde, mas eu sabia que nunca iria muito além desse assento (e que os Verdes haviam dedicado pouco tempo para fazer campanha em áreas mais de classe-trabalhadora, como Hollingdean). Embora gostasse da minha deputada, Diane Abbott, não conseguia engolir o Partido Trabalhista como era. Devido a um erro burocrático em Hackney, demorou duas horas e meia para votar: o pessoal da zona eleitoral me mandou para a Câmara Municipal de Hackney, onde entrei numa longa fila de pessoas, lívida com a sensação de privação dos meus direitos. Eu estava mais deprimida do que ansiosa ou irritada e, eventualmente, marquei meu xis na Liga Comunista – um protesto fútil contra a hegemonia pós-Thatcher e pós-Blair de austeridade e autoritarismo – e contra o apelo para qualquer um na esquerda aceitar o ‘mal menor’ do ‘centrismo’. (Eles tiveram 102 votos.)

A coisa toda parecia desesperadora, mas o pior ainda estava por vir. Eu terminei num evento na Close-Up Cinema, onde planejamos assistir juntos a cobertura da noite da eleição da BBC. Então vimos que a pesquisa de boca de urna previa uma maioria Tory – algo que eu tinha previsto antes do início da campanha, mas que eu tinha deixado para trás quando as pesquisas de opinião sugeriram um parlamento suspenso ou uma vitória estreita dos Trabalhistas – e fui para casa. Voltei para encontrar meus companheiros de quarto em um silêncio atordoado, tendo chorado antes, mas eu simplesmente me sentia entorpecida. Eu queria uma vitória dos Trabalhistas – cinco anos de cortes Tory e uma cultura cada vez mais autoritária tinham esgotado a mim e a muitos dos meus amigos -, mas não podia sentir que o fracasso de Miliband em se tornar primeiro-ministro fosse uma verdadeira tragédia. O fundo do poço foi a resposta de grandes nomes do Partido Trabalhista insistindo que sua derrota se devia ao Miliband ter “levado o partido demais para a esquerda” – mesmo depois de perder toda a Escócia para um movimento anti-austeridade. Como James Butler disse: a tragédia para a maioria das pessoas não era a falta de um governo trabalhista, mas que a política simplesmente continuasse daquele jeito.

Quando Miliband renunciou e Corbyn entrou na disputa pela liderança, ousei imaginar se o Partido Trabalhista poderia ser algo diferente – algo mais emocionante, aproveitando a dignidade e a solidariedade dos antigos movimentos sindicais e as conquistas socialistas, enquanto que usando novas mídias para comunicar um forte desejo por um “novo tipo de política”, em contraste com o vazio nos discursos cuidadosamente trabalhados de seus três adversários, projetados mais para televisão do que para o Twitter, presos em um presente perpétuo que nem sequer lembrava o otimismo da campanha de Tony Blair em 1997, mas a resignação e a exaustão de Gordon Brown em 2010.

Foi a presença de McDonnell que mais me animou. Na década seguinte à minha entrada no jornalismo, eu me sentia sozinha, apoiada apenas por uma pequeno grupo de amigos. Eu tinha finalmente deixado a New Statesman, esgotada e amargurada pela forma como meus esforços para trazer uma perspectiva socialista, queer e trans havia terminado, mas satisfeita por ter me dissociado antes da campanha anti-Corbyn deles ter passado dos limites. O Guardian parecia grande o bastante para sustentar um espectro mais amplo de opiniões, mas sua posição editorial parecia estar veementemente em oposição a qualquer tentativa de tornar o Partido Trabalhista em um movimento baseado nos membros, e de esquerda, não percebendo (como nós havíamos percebido) que não era apenas a ideologia do Novo Trabalhismo que estava acabada, mas também sua metodologia.

Minha exaustão começou a melhorar. Finalmente, eu conseguiria investir energia em algo maior do que eu mesma – e me energizar com isso. A aliança desengonçada entre liberais, socialistas e radicais durante a coalizão, quando era difícil ser tribal com relação ao Partido Trabalhista ou aos Liberais Democratas, colapsou na medida em que a ascensão de Corbyn tornou as linhas divisórias mais claras – mas não me importei. Senti que estávamos no lado certo da história, e que os ‘centristas’ estavam errados. Eventualmente, pensei, o mundo lá fora iria acabar concordando – se apenas Corbyn e McDonnell pudessem receber uma cobertura justa.

Os dois anos desde a eleição de Corbyn para líder foram difíceis. Eu não estava sozinha nas minhas dúvidas com relação à maneira que Corbyn estava lidando com o referendo sobre a União Européia. Muitas das críticas por aí eram desonestas, e fazia tempo que tinha parado de dar ouvidos aos seus detratores na mídia tradicional, mas não estava segura de que ele havia entendido que a maior questão não era a União Européia em si, mas as consequências de um voto Leave para os imigrantes, as pessoas de cor e qualquer um que não se encaixasse no perfil imposto por um nacionalismo inglês recrudescente, com seu militarismo, monarquismo e nostalgia imperialista. Com frequência, me sentia frustrada com como a energia e o entusiasmo das campanhas de Corbyn para a liderança – que quebraram todos os recordes – se dissiparam depois de suas vitórias avassaladoras. Sentia que uma boa parte era culpa do conluio entre a mídia e os parlamentares trabalhistas rebeldes, mas não toda, e ficava imaginando se não havia sido delirante da minha parte colocar qualquer fé que seja na política parlamentar, e no Partido Trabalhista em particular.

Pensei em cancelar minha filiação ao Partido, mas algo me impediu. Inicialmente, era o quanto eu detestava os inimigos do Corbyn, entoando sua cantilena presunçosa e paternalista de como eles estavam certos sobre Corbyn ser “inelegível” – como se isso fosse um fato objetivo, e eles fossem mero observadores externos do discurso político britânico, e não agentes influentes no interior dele. Rotulando aqueles que apoiavam as ideias de Corbyn para o futuro do Partido Trabalhista como “trotskistas” infiltrados, vândalos homofóbicos, anti-semitas raivosos e apoiadores do IRA, o equivalente britânico a uma alt-right apoiadora de Donald Trump (assisti-los agora comer uma bela torta de humildade, particularmente na forma de seus próprios livros, tem sido uma diversão). Mas não era apenas a raiva que me motivava: nunca perdi a memória de McDonnell, ou a sensação de que ele oferecia a possibilidade de uma política que fosse mais do que falatório dos deputados no parlamento, e que partidos políticos poderiam tomar inspiração não apenas de think tanks, mas também da história e da filosofia acadêmicas, da arte e da música, da literatura e da poesia. Me lembrava de como Corbyn me inspirou a assistir pela primeira uma transmissão ao vivo da Casa dos Comuns pela primeira vez, em 6 de julho de 2016, quando ele desafiou o chamado, vindo do banco de trás do Partido Trabalhista, para “sentar-se e calar-se”, e, ao contrário, fez um discurso sobre o Inquérito de Chilcot sobre a guerra do Iraque. Tremia ao longo de todo o discurso, frente à fúria calma e controlada das palavras de Corbyn, sua recusa em deixar pra lá as motivações imperiais da guerra e as consequências desastrosas da invasão e ocupação, e sua convicção de que os milhões, em todo o mundo, que se opuseram a guerra agora estavam sendo provados certos.

Então, quando eu e meus amigos do no.w.here film lab vimos a pesquisa de boca de urna – muito melhor do que minha previsão de que Cobyn perdia “apenas” por 20 ou 30 cadeiras – aquela quinta a noite pareceu uma vindicação. Não apenas pelo nosso apoio ao Corbyn, mas pelas ideias que nós na esquerda estávamos explorando pela última década, e todos os seminários nos quais tentamos estabelecer algum terreno comum intelectual. Como a muitos, me fez pensar na trágica morte de Mark Fisher mais cedo esse ano, logo depois do Brexit e da ascensão de Trump, quando parecia que a ortodoxia neoliberal seria simderrubada – mas por um afundamento no fascismo, forçando aqueles de nós que passamos anos plantando as sementes para um futuro melhor agora a ter que batalhar para salvar as instituições neoliberais que haviam nos excluído, nos ridicularizado e nos combatido, com a preservação do status quo do establishment (que depois retornaria para nos esmagar) parecendo o melhor cenário possível.

Imagino o que Mark faria com esse resultado. Como Corbyn foi ridicularizado como “inelegível” por aqueles que se aferravam ao velho modo de fazer política do “Novo Trabalhismo”, e então lançou uma espetacular campanha que foi capaz de dar um novo propósito e reavivar os princípios social-democratas do partido; conseguiu a maior subida nas pesquisas na memória recente, o que se traduziu na maior ampliação da votação dos trabalhistas desde 1945, e evitou assim a formação de uma maioria conservadora em uma eleição que Therese May convocou porque pensou que poderia arrasar com o Partido Trabalhista e com qualquer oposição de esquerda – pra sempre.

Penso com frequência no incrível entusiasmo do Mark com qualquer coisa que pudesse desgastar a ideologia dominante, mesmo quando não o compartilhava, ou concordava com as posições que resultavam desse entusiasmo. E penso com frequência também em quantas amizades devo a ele, por meio do círculo de blogueiros no qual ele era central, no seu papel na fundação da Zero e depois da Repeater Books, através das quais conheci tantos camaradas – muitos dos quais, como eu, foram inspirados a se filiar no Partido Trabalhista quando o movimento de Corbyn e McDonnell desabrochou. Se você olhar apenas para os número, então sim, nós perdemos – dessa vez. Mas se você olhar para o quadro mais amplo, para as possibilidades que agora se sente que eles abriram para qualquer um com sonhos, um coração e uma alma – então, estamos ganhando. Hoje eu não me sinto ansiosa, eu não me sinto deprimida. Sinto que podemos barrar aquilo que parecia antes como uma onda avassaladora de direita na cultura britânica, quebrar a dominância de figuras como Lynton Crosby, Paul Dacre e Rupert Murdoch sobre o discurso público, assim como o estrangulamento – por parte dos auto-proclamados analistas “sensatos” ligados ao trabalhismo – das conversas sobre o que uma política de esquerda pode ser. Sinto que podemos construir uma contra-cultura revigorada a partir da energia jovem de movimentos como o #grime4corbyn, muito mais excitantes do que a carcassa de um Britpop musicalmente reacionário e politicamente retrógrado. Pela primeira vez na minha vida, eu não sinto como se as coisas só pudessem piorar. Tenho certeza que John McDonnell compartilha do meu otimismo, e gosto de pensar que o Mark também compartilharia.

27 de junho de 2017

A estratégia de tensão da OTAN

Manlio Dinucci


O que aconteceria se o avião do secretário de Defesa dos Estados Unidos Jim Mattis, em voo da Califórnia ao Alasca ao longo de um corredor aéreo sobre o Pacífico, fosse interceptado por um caça russo da aeronáutica cubana? A notícia ocuparia as primeiras páginas, suscitando uma onda de preocupadas reações políticas. Inversamente, não se mexeu sequer uma folha quando em 21 de junho o avião do ministro russo da Defesa Sergei Shoigu, em voo de Moscou ao enclave russo de Caliningrado pelo corredor sobre o Mar Báltico, foi interceptado por um caça F-16 estadunidense da aviação polonesa que, depois de se aproximar ameaçadoramente, teve que se afastar com a intervenção de um caça Sukhoi SU-27 russo. 

Uma provocação programada, que faz parte da estratégia da OTAN visando a aumentar na Europa, dia após dia, a tensão com a Rússia. De 1º a 16 de junho se desenvolveu no Mar Báltico, perto da costa russa e com a motivação oficial de defender a região da “ameaça russa”, o exercício da OTAN “Baltops” com a participação de mais de 50 navios e 50 aeronaves de guerra dos Estados Unidos, França, Alemanha, Grã Bretanha, Polônia e outros países como Suécia e Finlândia, não membros, mas parceiros da Aliança. 

Enquanto isso, de 12 a 23 de junho, realizou-se na Lituânia o exercício Iron Wolf que viu empenhados, pela primeira vez, dois grupos de batalha da OTAN “com presença avançada potenciada”: o da Lituânia sob comando alemão, compreendendo tropas belgas, holandesas e norueguesas e, a partir de 2018, também francesas, croatas e tchecas; e o da Polônia, sob comando americanas, incluindo tropas britânicas e romenas.

Tanques Abrams da 3ª Brigada blindada dos EUA, transferida à Polônia em janeiro último, entraram na Lituânia através do Suwalki Gap, um trecho de terreno plano ao longo de uma centena de quilômetros entre Caliningrado e a Bielorrússia, unindo-se aos blindados Leopard do batalhão alemão 122 de infantaria mecanizada. O Suwalki Gap, adverte a OTAN exumando o aparato propagandístico da velha guerra fria, “seria uma passagem perfeita através da qual os blindados russos poderiam invadir a Europa”. 

Em plena atividade estão também os outros dois grupos de batalha da OTAN: o da Letônia sob comando canadense, que inclui tropas italianas, espanholas, polonesas, eslovenas e albanesas; e o da Estônia sob comando britânico, com tropas francesas e, a partir de 2018, também dinamarquesas. 

“As nossas forças estão prontas e posicionadas no caso em que seja necessário para enfrentar a agressão russa”, assegura o general Curtis Scaparrotti, chefe do Comando europeu dos Estados Unidos e ao mesmo tempo Comandante supremo aliado na Europa. Não são apenas os grupos de batalha da OTAN “com presença avançada potenciada” que estão por ser mobilizados. 

De 12 a 29 de junho se desenvolve no Centro da OTAN de treinamento das forças conjuntas, na Polônia, o exercício “Coalition Warrior” cujo escopo é experimentar a mais avançada tecnologia para dar à OTAN a máxima prontidão e interoperatividade, em particular no confronto com a Rússia. 

Participam mais de mil cientistas e engenheiros de 26 países, entre os quais os do Centro da OTAN para a pesquisa marítima e experimentação com sede em La Spezia. Obviamente, Moscou não está com as mãos abanando. Depois que o presidente Trump visitar a Polônia em seis de julho, a Rússia terá no Mar Báltico um grande exercício naval conjunto com a China. Talvez conheçam em Washington o antigo provérbio: “Quem semeia ventos, colhe tempestade”.

O trabalho italiano

Michael Roberts


Tradução / O governo italiano está gastando US $ 17 bilhões em dinheiro público (da "árvore do dinheiro mágico") para resgatar dois bancos venezianos. Os bancos não serão nacionalizados, mas, em vez disso, entregues ao Intesa Sanpaolo Spa, o maior banco da Itália, pela soma irreal de um euro! O Intesa garantirá os depósitos em dinheiro dos bancos venezianos, mas vai demitir vários milhares de funcionários dos bancos, enquanto obtém 900 novas agências e bilhões em garantias financeiras do governo. O Intesa assumirá todos os empréstimos de execução dos bancos venezianos, enquanto o Estado ficará com todas as dívidas incobráveis que deve ou cancelar ou tentar receber ao longo do tempo.

Então, mais uma vez, as atividades imprudentes de alguns bancos e a estagnação da economia que fizeram muitas empresas incapazes de pagar suas dívidas devem ser "resolvidos" pelo Estado. O resgate é equivalente a 1% do PIB da Itália, e a dívida do setor público já alcança 135% do PIB. O Intesa recebe alguns bancos limpos por apenas um euro, assim como o JP Morgan obteve a rede bancária da Bear Stearns no crash financeiro global por um dólar - tudo pago por impostos ou empréstimos do governo. O Estado e as pessoas não levam nada por seus 17 bilhões de euros.

O que é ainda mais irônico é que o acordo italiano rompe as próprias regras bancárias estabelecidas pelos governos da UE após o colapso financeiro global para evitar que os investidores bancários (detentores de títulos) sejam socorridos às custas dos contribuintes. De acordo com a Diretiva de Resgate e Resolução de Bancos (BRRD) da UE, esses resgates devem primeiro ser financiados pelos detentores de títulos bancários, incluindo os chamados títulos seniores, e somente depois disso, no extremo, por fundos da UE. Mas o Conselho de Resolução Única da UE aceitou, sob pressão do governo italiano, que não havia uma "crise bancária" real que exigisse intervenção da UE e que a Itália sozinha poderia dar conta.

Afinal, os bancos venezianos tinham apenas 2% do sistema bancário. Mas o que não foi levado em consideração foi a enorme perda de outros bancos italianos, como o Monte dei Paschi. Na verdade, a Itália tem 300 bilhões de euros em empréstimos inadimplentes em seus livros bancários, ou cerca de 20% do PIB. Uma resolução ao abrigo das regras da UE exigiria que a Itália encontrasse mais 12 bilhões de euros para o fundo de garantia de depósito do país. E UniCredit, Monte dei Paschi di Siena e UBI Banca teriam que fazer mais chamadas de capital, o afastaria os investidores.

O acordo foi mal visto pela Alemanha, já que ele burla as novas regras bancárias para torná-las irrelevantes - mas o chefe do BCE, Mario Draghi, é um italiano e ex-chefe do banco central da Itália. Para os alemães, é um sinal de que uma maior integração financeira na área do euro é impossível se os estados-nação quebram as regras de forma flagrante.

Politicamente, ajuda os democratas do centro-esquerda e seu líder Matteo Renzi na disputa para recuperar seu cargo de primeiro-ministro em qualquer eleição que venha até maio. Se os bancos tivessem quebrados, os depósitos podem ter sido perdidos e os detentores de títulos liquidados - o que é eleitoralmente negativo, já que muitos detentores de títulos são pessoas de pequenas empresas persuadidas pelos bancos a investir em títulos bancários. A notícia do negócio foi recebida com êxtase pelo mercado acionário.

Assim, temos outro resgate bancário, nove anos desde o colapso financeiro global, que nacionaliza as perdas causadas pelos banqueiros e privatiza ganhos para os banqueiros restantes: exatamente o que as regras da União Bancária da UE deveriam evitar. Milhares de funcionários dos bancos ficarão sem trabalho; mas os investidores bancários estão rindo à toa, a caminho do novo banco. O Estado contrai mais dívidas e, assim, aumenta a pressão para introduzir mais austeridade para atender a dívida. E outros banqueiros sabem disso, se eles fizerem uma bagunça, eles podem escapar com um resgate do Estado e continuar como antes.

Não se pensou com este acordo que o povo, através do Estado, poderia levar esses bancos (e os outros grandes bancos) à propriedade pública e fazer do banco um serviço público para famílias e pequenas empresas e não ser usado como veículos para especulação imprudente, ganância e corrupção. Pelo contrário, este trabalho italiano é um negócio como de costume.

26 de junho de 2017

Os dedo-duros enfrentam ataques

John Kiriakou



Tradução / O Wall Street Journal informou na semana passada que as autoridades federais estão preocupadas com o fato de seus ratos e dedo-duros enfrentarem cada vez mais ataques na prisão por causa da disponibilidade gratuita de documentos judiciais identificando-os como informantes. Em resposta, os tribunais federais estão considerando formas de tornar o processo judicial criminal mais secreto, suscitando preocupação entre advogados de defesa e ativistas das liberdades civis.

As autoridades judiciais federais afirmam que, nos últimos três anos, cerca de 700 "testemunhas e informantes" foram ameaçadas ou feridas, e 61 foram mortas por outros prisioneiros por testemunhar contra ou delatar outros prisioneiros.

Claro que há poderoso incentivo para virar alcaguete. Procuradores podem reduzir sentenças em anos inteiros, em troca de informação. Alguns informantes sequer são presos. Outros são enviados para prisões de segurança máxima para cumprir pena, mas também há os que são mandados para campos de trabalho sob mínima vigilância. Os Procuradores, por sua vez, conseguem condenar em 98,2% dos respectivos casos, segundo ProPublica, sentenças que praticamente sempre são resultados de acordos. Ante o depoimento de uma seleção de alcaguetes, o acusado absolutamente não tem qualquer chance.

Mas o sujo segredo do sistema judicial nos EUA é que poucos acusados sequer ficam sabendo quem os acusou num tribunal, e tampouco são julgados por júri formado de seus pares. Como ideia, é linda. Mas nunca acontece.

Não é difícil saber que alguém testemunhou contra você, mesmo que você esteja preso e sem acesso à internet. Todas as prisões federais nos EUA são obrigadas, por lei, a manter uma biblioteca de livros de Direito. Essas bibliotecas, também por lei, têm de garantir acesso aos registros LexisNexis dos julgamentos. Mas mesmo que não haja informação detalhada sobre informantes no LexisNexis, qualquer prisioneiro pode pedir que alguém do lado de fora entre no portal PACER, portal pay-per-page administrado pelos tribunais, e procure literalmente qualquer arquivo arquivado de qualquer caso. Inclusive, claro, os nomes de informantes e uma resenha da informação que o informante forneceu.

Não posso deixar de dizer aqui que NÃO concordo com nenhuma violência contra seja quem for. Não acho que informantes devam ser atacados como algum tipo de 'revide', em nenhum caso, seja como for. Mas entendo que aconteça. Dou-lhes um exemplo pessoal.

Quando fui preso pela primeira vez em 2013, depois de alertar para a existência de um programa de tortura da CIA, meus advogados me preveniram de que o FBI e o Departamento de Justiça estavam furiosos com a pena (curta) de 30 meses, que recebi. Inicialmente haviam pedido condenação a 45 anos de cadeia, mas o muito que eu sabia da roupa suja da CIA e a minha disposição para testemunhar a meu favor forçaram o governo a sentar à mesa de negociações. Os advogados disseram que o FBI e o Departamento de Justiça fariam quase absolutamente qualquer coisa para me acusarem de qualquer outra coisa, servindo-se eles, para isso, de informantes dentro da prisão, e que em seguida usariam o que conseguissem para aumentar minha pena. Os advogados disseram que eu não confiasse em ninguém. Eu estava portanto perfeitamente alertado.

Poucas semanas depois, um prisioneiro aproximou-se de mim na nossa unidade de habitação e disse, "Ei, John. Há um sujeito novo aqui, que quer encontrar você. Diz que foi porta-voz dos Talibã nos EUA." Eu lembrava vagamente de um afegão-norte-americano que vivia em New Jersey e que trabalhara para os Talibã, e lembrava que ele se dera mal, acusado de ter feito alguma coisa com armas. "Não, obrigado," disse eu. "Não estou interessado." Pena federal mínima para acusação que envolva armas ilegais é cinco anos.

Três ou quatro dias depois eu caminhava pelo corredor da prisão, quando um homem obviamente afegão caminhou na minha direção com a mão estendida para me cumprimentar. Eu imediatamente levantei os dois braços, prevendo, corretamente, que os guardas da prisão estavam atentos, prontos para me fotografar quando abraçasse o rato do FBI. Disse a ele que sumisse da minha frente (em palavras menos bem educadas). "Oh, cara, calma" – disse ele. – "Temos tanta coisa em comum". "Não temos nada em comum", respondi, já me afastando. "Não faça isso", ele voltou a tentar me cercar. "Você é um rato. Não há nenhuma dúvida disso. Nunca mais fale comigo." Três ou quatro dias depois o homem foi "transferido", depois de ter passado apenas uma semana na minha prisão. Ou foi posto lá pelo FBI para me 'ratear', ou recebeu a sentença federal mais curta de toda a história dos EUA.

Não há solução fácil para o problema da proteção de ratos. Mas na verdade não é esse o problema. A questão é que o governo não deve ter que confiar em ratos para fazer instruir os processos. O governo deve confiar em provas. Todo réu deve ter seu dia no tribunal. Todo arguido deve ter uma chance realista de um julgamento pelo júri, não apenas um teórico. Eu garanto-lhe que a grande maioria dos ratos diria literalmente qualquer coisa sobre outro prisioneiro para reduzir sua própria sentença. Esse é o único objetivo deles, afinal. Onde está a justiça nisso?

O futuro do socialismo pode ser seu passado

Bhaskar Sunkara


Tradução / Cem anos depois do trem blindado de Lênin chegar à Estação Finlândia e desencadear os eventos que levaram aos gulags de Stálin, a ideia que nós deveríamos retornar a essa história para nos inspirarmos pode soar absurda. Mas havia uma boa razão para que os Bolcheviques uma vez se chamarem “social- democratas”. Eles eram parte de um amplo movimento de partidos em crescimento que buscavam lutar por maior democracia política e, usando a riqueza e a nova classe trabalhadora criada pelo capitalismo, estender os direitos democráticos para as esferas econômica e social, o que nenhum capitalista permitiria.

O movimento comunista inicial nunca rejeitou essa premissa ampla. Ele nasceu de uma sensação de traição por parte dos partidos de esquerda mais moderados da Segunda Internacional, a aliança de partidos socialistas e trabalhistas de 20 países fundada em Paris em 1889. Em toda a Europa, partido atrás de partido fez o impensável, abandonando suas promessas de solidariedade às classes trabalhadoras entre todas as nações e apoiando seus respectivos governos na I Guerra Mundial. Aqueles que permaneceram leais às velhas ideias se autodenominaram “comunistas” para se distanciar dos socialistas que haviam cometido um abate que custou 16 milhões de vidas. (Em meio à carnificina, a Segunda Internacional se desmoronou em 1916).

Certamente, a movimentação nobre dos comunistas a fim de parar a guerra e criar uma via humana para a modernidade na Rússia atrasada acabou aparentemente afirmando a noção burkeana de que qualquer tentativa de revogar uma ordem injusta acabaria somente por criar outra.

A maioria dos socialistas tem sido castigada pelas lições do comunismo do século XX. Hoje, muitos dos que teriam se animado com a Revolução de Outubro têm menos confiança nas perspectivas de transformar radicalmente o mundo em uma única geração. Eles colocam uma ênfase no pluralismo político, no dissenso e na diversidade.

Ainda assim, o espectro do socialismo evoca o medo de um novo totalitarismo. Um relatório recente da Fundação Memorial das Vítimas do Comunismo revela que os jovens tendem a ver o socialismo favoravelmente e que um “impulso Bernie Sanders” pode estar contribuindo para um giro millenial contra o capitalismo. Ano passado, o próprio presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Thomas J. Donohue, achou necessário lembrar os leitores que o “Socialismo é um Perigoso Caminho para a América”.

A direita denuncia ainda o socialismo como um sistema econômico que levará à miséria e privação, mas com menos ênfase no autoritarismo político que frequentemente andava de mãos dadas com o socialismo no poder. Isso talvez ocorra em virtude das elites hoje não terem os direitos democráticos na linha de frente de seus pensamentos – talvez porque eles sabem que as sociedades que eles dirigem são difíceis de justificar nesses termos.

O capitalismo é um sistema econômico: um modo de organizar a produção para o mercado através da propriedade privada e da motivação do lucro. Na medida em que permitiu a democracia, ele fez isso com extrema relutância. É por isso que os primeiros movimentos operários como os cartistas britânicos no começo do século XIX organizaram-se em primeiro lugar pelos direitos democráticos. Dirigentes capitalistas e socialistas acreditavam igualmente que a luta pelo sufrágio universal encorajaria trabalhadores a usar seus votos na esfera política para demandar uma ordem econômica que os colocasse no controle.

Não funcionou desse jeito. Por todo o Ocidente, os trabalhadores vieram a aceitar uma espécie de compromisso de classe. O empreendimento privado seria domesticado, não superado, e uma maior parcela de uma torta em crescimento forneceria benefícios universais através de generosos estados de bem-estar. Os direitos políticos também seriam consagrados, à medida que o capitalismo evoluía e adaptava-se de tal forma que uma sociedade civil democrática e um sistema econômico autoritário fizeram um improvável, porém aparentemente bem-sucedido, emparelhamento.

Em 2017, tal arranjo está bastante morto. Com os movimentos da classe trabalhadora adormecidos, o capital tem surtado, traçando um curso destrutivo, sem mesmo a promessa de crescimento sustentado. A raiva que levou à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e ao voto pelo Brexit na Grã-Bretanha é palpável. As pessoas sentem-se como se elas estivessem em um trem fugitivo com um destino desconhecido e, por uma boa razão, desejam voltar às misérias familiares.

Em meio a essa turbulência, alguns temem um retorno para a Estação da Finlândia através de líderes abertamente socialistas como o Sr. Sanders e Jean-Luc Mélenchon na França. Mas a ameaça para a democracia hoje está vindo da direita, não da esquerda. A política parece apresentar dois caminhos a seguir, ambas as formas decididamente não-stalinistas de coletivismo autoritário.

A “Estação Cingapura” é o destino inconfesso do trem do centro neoliberal. É um lugar onde pessoas de todos os credos e cores são respeitadas – desde que conheçam o seu lugar. Afinal, as pessoas são grosseiras e irracionais, incapazes de governar. Deixem a administração da Estação Cingapura para os especialistas.

Esta é uma visão viável para as elites que analisam o surgimento de um populismo errático de direita com medo justificado. Muitos deles argumentam a necessidade das medidas de austeridade para manter uma frágil economia global e preocupam-se com o fato de que os eleitores não querem sofrer no curto prazo para se poupar das disfunções de longo prazo. O mesmo se aplica à ameaça iminente de mudança climática: a ciência é incontestável entre os cientistas, mas ainda assim está em debate na esfera pública.

O modelo Cingapura não é o pior de todos os possíveis pontos finais. É aquele em que especialistas são autorizados a ser especialistas, capitalistas são autorizados a acumular e trabalhadores comuns são autorizados a ter um semblante de estabilidade. Mas não deixa espaço para os passageiros do trem gritarem “Pare!” e a pegarem um destino de sua própria escolha.

A “Estação Budapeste”, assim nomeado por causa dos poderosos partidos de direita que dominam a Hungria hoje, é a parada final da direita populista. Budapeste nos permite ao menos nos sentir de volta ao comando. Chegamos lá, desaclopando alguns dos vagões, acelerando para a frente e lentamente retrocedendo. Nós estamos todos nisso juntos, a menos que você seja um estrangeiro que não tem um ticket e, então, má sorte.

O “trem Trump” é dirigido dessa maneira. O presidente Trump não pode oferecer ganhos tangíveis para as pessoas comuns desafiando as elites, mas ele pode oferecer uma valorização superficial do “trabalhador” e estimular a raiva pelas supostas causas do declínio nacional – imigrantes, acordos comerciais ruins, globalistas cosmopolitas. A imprensa, a academia e quaisquer outras partes não- conformes da sociedade civil estão sob ataque. Enquanto isso, além de ter que ajustar mais protecionismo e políticas de imigração restritivas, tudo permanece o mesmo para a maioria das corporações.

Mas há uma terceira alternativa: voltar à “Estação Finlândia”, com todas as lições do passado. Desta vez, as pessoas conseguem votar. Bem, debater, deliberar e depois votar – e ter fé que as pessoas podem organizar-se juntas para traçar novos destinos para a humanidade.

Despojado para a sua essência, e voltado às suas raízes, o socialismo é uma ideologia da democracia radical. Numa época em que as liberdades estão sob ataque, o socialismo procura empoderar a sociedade civil para permitir a participação nas decisões que afetam nossas vidas. Uma burocracia estatal enorme, é claro, pode ser tão alienante e antidemocrática quanto as salas de reuniões corporativas, por isso precisamos pensar fortemente sobre as novas formas que a propriedade social poderia tomar.

Alguns grandes conceitos já devem estar claros: cooperativas de trabalhadores, competindo em um mercado regulamentado; serviços governamentais coordenados com a ajuda do planejamento do cidadão; e a provisão dos conceitos básicos necessários para viver uma boa vida (educação, habitação e cuidados de saúde) garantidos como direitos sociais. Em outras palavras, um mundo onde as pessoas têm a liberdade de atingir suas potencialidades, independentemente das circunstâncias do nascimento.

Nós só podemos chegar a esta estação da Finlândia com o apoio de uma maioria; essa é uma das razões pelas quais os socialistas são defensores tão enérgicos da democracia e do pluralismo. Mas não podemos ignorar a perda de inocência do socialismo ao longo do século passado. Podemos rejeitar a versão de Lênin e os bolcheviques como demônios loucos e optar por vê-los como pessoas bem intencionadas tentando construir um mundo melhor em uma crise, mas nós devemos descobrir como evitar suas falhas.

Esse projeto implica um retorno à social-democracia. Não a social-democracia de François Hollande, mas a dos primeiros dias da Segunda Internacional. Esta social-democracia envolveria um compromisso com uma sociedade civil livre, especialmente para as vozes de oposição; a necessidade de verificações e balanços institucionais sobre o poder; e uma visão de uma transição para o socialismo que não requer uma ruptura do “ano zero” com o presente.

Nossa Estação Finlândia não do século XXI não será um paraíso. Você pode sentir desgosto e miséria lá. Mas será um lugar que permite a muitos agora esmagados pela desigualdade participarem da criação de um novo mundo.

A crise do Catar

A batalha entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos contra o Qatar é uma luta pelo poder regional, sem heróis a serem elogiados.

Adam Hanieh*


Porto Arábia, Qatar. Abraham Puthoor / Flickr

Tradução / A decisão de 5 de junho da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos (EAU), do Bahrein e do Egito em suspender as relações diplomáticas com o Qatar enviou ondas de choque pelo Oriente Médio.

O bloqueio que se seguiu encerrou grande parte do comércio marítimo e terrestre do Golfo com o Qatar, provocando receios de que o pequeno estado logo enfrentaria uma escassez de alimentos. As principais transportadoras aéreas, incluindo a Emirates, a Gulf Air, a Flydubai e a Etihad Airways, cancelaram os voos e os cidadãos do Qatar que viviam nas nações participantes tiveram apenas duas semanas para voltar para suas casas. Mesmo os imigrantes com permissões de residência do Qatar seriam alvos de expulsão.

Os Emirados Árabes Unidos proibiram qualquer expressão de solidariedade para com o Qatar – até mesmo através do Twitter – e ameaçaram os infratores com penas de prisões de até quinze anos.

Os governos estreitamente ligados à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos expressaram rapidamente o apoio ao bloqueio, incluindo a Câmara dos Deputados na Líbia com base em Tobruk (uma das facções governamentais em conflito do país), o governo de Abed Rabbo Mansour Hadi no Iêmen, apoiado pelos sauditas, bem como Comores, a Mauritânia e as Maldivas.

O movimento contra o Qatar veio após meses de publicidade negativa na mídia americana e no Golfo, em que autoridades estatais alegaram repetidamente que o Qatar estava financiando grupos islâmicos e se aproximando do Irã.

Yousef Al Otaiba, embaixador dos Emirados Árabes Unidos nos Estados Unidos, desempenhou um papel importante nesta campanha. Desde o início das revoltas árabes em 2010, Otaiba tem percorrido os corredores do poder em Washington, alertando que essas revoltas populares ameaçam a ordem estabelecida da região e afirmando também que o Qatar apoia movimentos e indivíduos hostis tanto à Arábia Saudita como aos Emirados Árabes Unidos.

Ex-funcionários do governo americano e think tanks[1] – notadamente a neoconservadora Fundação Pró-Israel para a Defesa das Democracias (FDD), uma apoiadora proeminente na invasão do Iraque em 2003 – assumiram essa cruzada anti-Qatar. Em 23 de maio, a FDD convocou um seminário de alto nível para discutir o relacionamento do país do Golfo com a Irmandade Muçulmana e como a administração de Trump deveria responder. Ali, o ex-secretário de defesa, Robert Gates, pediu ao governo americano que deslocasse sua maciça base aérea no Qatar, a menos que o país cortasse relações com esses grupos.

De acordo com e-mails divulgados logo após a conferência, Otaiba supostamente revisou e encorajou os comentários de Gates. Na verdade, esse vazamento supostamente ajudou a desencadear o bloqueio, revelando a confortável relação do embaixador com Gates, com a FDD, e com outras figuras próximas à administração Trump.

Tanto os Emirados Árabes Unidos quanto a Arábia Saudita também alegaram que o Qatar tem procurado fortalecer os laços com o Irã nos últimos meses. Uma evidência oferecida para isso é a alegação de que o Qatar pagou recentemente US$ 700 milhões ao Irã para garantir a libertação de vinte e seis membros da realeza do Qatar, que haviam sido sequestrados no Iraque em 2015, e haviam sido mantidas no Irã por um ano e meio. Esta história – que também alegadamente envolveu um pagamento à parte de até US$ 300 milhões para grupos alinhados com a Al Qaeda na Síria – foi negada pelo primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi, que declarou em 11 de junho que o dinheiro permanece no banco central iraquiano.

Por sua parte, a Arábia Saudita criticou uma declaração atribuída ao Emir do Qatar, Tamim bin Hamad Al Thani, publicada na Agência Estatal de Notícias do Qatar. Durante um discurso de graduação para oficiais da guarda nacional na base de Al Udeid, Al Thani supostamente elogiou o Irã e criticou os estados do Golfo que veem a Irmandade Muçulmana como uma organização terrorista. Qatar explicou que o site havia sido pirateado – uma afirmação que mais tarde teve o apoio do FBI – e que Al Thani não havia feito tais declarações.

Em meio a todas essas declarações conflitantes, alguns observadores argumentam que a visita de Donald Trump à Arábia Saudita em 20 de maio representou um momento-chave na campanha contra o Qatar, alegando que Trump deu à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos o sinal verde. Na verdade, um de seus caracteristicamente eloquentes tweets parece confirmar isso, enquanto o presidente se gabava de que o bloqueio saiu a partir de suas reuniões em Riyadh.

Nem todos em Washington, no entanto, apoiam totalmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Outros funcionários – notadamente Rex Tillerson – estão pedindo uma flexibilização do bloqueio e uma solução pacífica. O secretário de relações exteriores do Reino Unido, Boris Johnson, também opinou, pedindo o fim do conflito, ao mesmo tempo que afirmou que o Qatar “precisa urgentemente fazer mais para resolver o tema do apoio a grupos extremistas”.

Disputas intestinas não são novidade para as turbulentas famílias governantes do Golfo, mas a decisão de isolar o Qatar marca uma escalada significativa. Como devemos entender o bloqueio no contexto de desenvolvimentos mais amplos no Oriente Médio, particularmente na sequência das revoltas árabes? Esses eventos marcam um cisma irreconciliável na política do Golfo ou uma mudança fundamental nos padrões históricos das alianças americanas na região?

Interesses e rivalidades compartilhados

Não podemos entender o conflito atual sem analisar o projeto mais amplo de integração regional, incorporado ao Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar, Bahrein e Omã estabeleceram esta organização dois anos após a revolução iraniana de 1979 e no início da guerra entre o Iraque e o Irã que duraria até 1988.

Na época, o GCC era amplamente visto como uma resposta apoiada pelos Estados Unidos para esses distúrbios regionais, projetado para estabelecer um guarda-chuva de segurança nos seis Estados membros, que os Estados Unidos iriam encorajar, equipar e supervisionar.

Não só esses estados possuem recursos ricos em petróleo e gás – a explicação definitiva para o interesse dos Estados Unidos em tal aliança -, mas também compartilham estruturas semelhantes, marcadas por famílias governantes autoritárias e uma força de trabalho que consiste principalmente de migrantes temporários, em grande parte sem direitos trabalhistas – uma característica muitas vezes esquecida na enxurrada de discussões na mídia sobre o Golfo nas últimas semanas. O projeto de integração do GCC refletiu os interesses coletivos desses estados, que estão alinhados, de forma singular, com as potências ocidentais.

A relação entre os Estados Unidos, outras potências ocidentais e o GCC tem se fortalecido consideravelmente desde 1981, como demonstra a base aérea Al Udeid do Qatar.

Agora, com mais de 14 anos de idade, Al Udeid hospeda mais de dez mil soldados norte-americanos e é a maior base aérea no exterior dos Estados Unidos. Como a sede do quartel-general avançado do Comando Central das Operações Especiais e do Comando Central das Forças Aéreas, o Qatar ajuda a coordenar a presença militar dos Estados Unidos em toda a região, inclusive no Iraque e no Afeganistão.

Os Estados Unidos também controlam sua principal base naval a partir do Bahrein, sede do Comando Central das Forças Navais e da Quinta Frota. Mais de vinte mil militares americanos estão estacionados em todo o resto do Golfo.

A venda de equipamentos militares ao Golfo pelos Estados Unidos e por nações europeias, particularmente o Reino Unido e a França, está intimamente ligada a essa presença militar. A recente visita de Trump à Arábia Saudita colocou esse aspecto da relação EUA- Arábia Saudita em destaque: o negociador-em- chefe teria assinado contratos de mais de cem bilhões de dólares. (Os valores precisos continuam a ser contestados, pois são centralmente baseados em cartas de intenções e incluem ofertas acordadas com a administração de Obama).

De acordo com o Programa de Despesas Militares e com Armamento do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, cerca de 20% das importações militares mundiais foram para países do CCG em 2015; A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos ocuparam o primeiro e o quinto lugar. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos representaram 80% de todas as importações militares do GCC naquele ano, mas o Qatar, o Kuwait e o Omã também aparecem na lista dos primeiros quarenta países que mais importam armas do mundo. A participação do GCC no mercado global mais do que duplicou desde 2011 e tornou-se o maior mercado de armas do mundo.

Essas compras reciclam uma parte dos excedentes de petrodólares do Golfo para as empresas que produzem o hardware militar mundial. O GCC não só hospeda as forças americanas, mas também paga generosamente por esse privilégio.

A economia política do Golfo

Mas o significado do projeto do GCC se estende para além de proteger um clube exclusivo de monarquias ricas em petróleo e manter o papel da região como sede para o poder militar americano no Oriente Médio, Ásia Central e África Oriental.

Ao longo dos anos 1990 e 2000, o quadro institucional estabelecido pelo GCC encorajou os seis estados membros a elaborar um alinhamento político e econômico muito mais próximo, um acordo geralmente comparado com a União Europeia. As duas últimas décadas têm visto progressos consideráveis em direção a esse objetivo: aumento dos níveis de fluxos de capitais pan-GCC, um movimento em direção a impostos e tarifas padronizados para os produtos importados, políticas que incentivam a livre circulação de trabalhadores que são cidadãos dos distintos países membros, e instituições políticas mais unificadas. Até mesmo uma moeda comum, o khaleeji, foi proposta.

Este processo de integração regional dá suporte à forma específica do capitalismo que os Estados do GCC compartilham. Os grandes conglomerados do Golfo (estatais e privados) que dominam a economia política do Golfo operam nas fronteiras do Golfo e, como a União Europeia, também são marcados por uma interpenetração pronunciada das estruturas de propriedade do capital em diferentes estados do Golfo.

É importante ressaltar, no entanto – e isso nos ajuda a entender os últimos conflitos na região – este projeto de integração não extinguiu as rivalidades dos membros ou as tensões competitivas. Uma hierarquia acentuada do poder político e econômico marcou o GCC desde a sua criação, com o pivô principal girando em torno de um eixo Arábia Saudita-Emirados Árabes Unidos.

Estes dois países tornaram-se os principais locais de acumulação de capital e as empresas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos dominam a economia do GCC nos setores de imóveis, finanças, comércio, logística, telecomunicações, petroquímica e indústria. Há também importantes investimentos trans-fronteiriços entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

Este eixo não existe sem suas tensões próprias – refletidas, por exemplo, na rejeição dos Emirados do projeto – apoiado pela Arábia Saudita – de moeda unificada em 2009 – mas seu alinhamento político se desenvolveu juntamente com seus laços econômicos.

O Bahrain está estreitamente integrado a esse eixo como um sócio minoritário. Sua monarquia governamental da Casa de Al Khalifa depende do apoio financeiro, político e militar saudita, como as revoltas de 2011 o demonstraram claramente.

Esta sub-aliança influencia como os outros estados do GCC se relacionam com o resto do mundo, uma característica claramente ilustrada pelos padrões comerciais da região. Devido a níveis relativamente baixos de produção de não-hidrocarbonetos e às pequenas dimensões dos setores agrícolas, o GCC depende fortemente das importações. O eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos intermedia esse fluxo: eles trazem as mercadorias, em seguida as reexportam para outros estados, às vezes após o processamento de valor agregado.

As importações de alimentos são de particular importância. Os outros quatro estados do GCC importam mais alimentos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos do que de qualquer outro país do mundo. Em 2015, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos classificaram-se como ou primeiro ou segundo exportador de alimentos para cada um dos outros estados do GCC.

Notavelmente – especialmente porque esses números incluem grandes exportadores de trigo e carne, incluindo os Estados Unidos, Índia, Brasil e Austrália – a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos foram responsáveis por 53% do valor total da exportação de alimentos para Omã, 36% para o Qatar, 34 % para o Bahrain e 24% para o Kuwait.

Essas tendências não só ressaltam a importância de colocar o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos no centro da nossa compreensão do resto do Golfo, mas também ajudam a explicar os potenciais efeitos do atual bloqueio.

A escala regional

Dominados por este eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos, os outros Estados menores têm desempenhado um papel mais marginal na economia política do Golfo. Com uma pequena população cidadã (apenas 313 mil cidadãos de uma população total de 2,6 milhões, espantosos 12% do país) e uma enorme riqueza de suas vastas reservas de gás natural, o Qatar tem particularmente se irritado com essa estrutura hierárquica.

Em uma base per capita, o Qatar é o país mais rico do mundo – com 17,5% de suas famílias cidadãs com bens de mais de um milhão de dólares -, mas em grande parte tem sido negado ao Qatar um lugar nas estruturas políticas e econômicas mais amplas do GCC, dominadas pelos seus vizinhos maiores.

Limitados pelo tamanho dos seus mercados nacionais e inundados pelo capital excedente de quase quinze anos de crescentes preços de petróleo e gás, uma das principais consequências dessas hierarquias competitivas internas tem sido a tentativa por todos os Estados do Golfo de crescerem para além das fronteiras do GCC. Os grandes conglomerados privados e respaldados pelo estado têm expandido suas operações globalmente, investindo em imóveis, instituições financeiras, tecnologias emergentes, agronegócios e outros setores. Enquanto todos os estados do GCC têm participado deste processo, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar têm liderado esta corrida.

Embora os fluxos de capital do Golfo tenham se concentrado em grande parte na América do Norte e na Europa, o Oriente Médio também se tornou um alvo importante. A medida em que os estados árabes abriram seus mercados e liberalizaram setores econômicos fundamentais – um processo liderado pelo garoto-propaganda neoliberal do Banco Mundial, o Egito de Mubarak -o capital do Golfo teve um papel de liderança ao longo dos anos 2000, ao comprar os ativos privatizados (frequentemente através de acordos corruptos com as elites estatais) e ao se beneficiar com a abertura do mercado que se seguiu na esteira da reforma neoliberal.

De 2003 a 2015, os estados do GCC foram responsáveis por um notáveis 42,5% do total dos novos investimentos diretos estrangeiros (IDE) em outros países árabes. Neste período, cerca de metade de todos os investimentos estrangeiros na Jordânia, Egito, Líbia, Líbano, Palestina e Tunísia vieram do Golfo. Além disso, de 2010 a 2015, os investidores da Europa, do Golfo e da América do Norte gastaram pouco mais de vinte bilhões de euros em fusões e aquisições no mundo árabe. A participação do GCC representou quase metade, com 44,7%.

Por mais impressionantes que sejam esses números, eles realmente subestimam o nível de internacionalização. Eles não incluem, por exemplo, os níveis consideráveis de ajuda bilateral do Golfo, nem necessariamente incorporam investimentos de portfólio das empresas do Golfo em mercados de ações regionais.

À medida que este processo se desenrolava, o papel político do GCC tornava-se cada vez mais proeminente. O Golfo não só conduziu a construção de uma ordem regional marcada por estados autoritários e economias liberalizadas, mas também se beneficiou com isso. Tudo isso ocorreu sob os auspícios de potências ocidentais e instituições financeiras internacionais.

À medida que esse processo tornava os estados do GCC mais próximos entre si, também intensificava suas rivalidades. Uma das manifestações mais importantes dessa tensão ocorreu quando o Qatar tentou adotar uma política regional autônoma, relativamente independente da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

O Qatar começou a patrocinar diferentes forças políticas – a Irmandade Muçulmana, o Hamas e o Talibã – e a hospedar uma variedade de dissidentes exilados – o clérigo egípcio Sheikh Yusuf al-Qaradawi, que protagoniza programas populares nos canais de TV do Qatar e o intelectual palestino Azmi Bishara. O Qatar também usou sua ampla rede de mídia para se promover como uma força regional, nomeadamente através da Al Jazeera e de suas afiliadas e, mais recentemente, através do jornal e canal de televisão Al-Araby Al-Jadeed, lançado no início de 2015.

As revoltas árabes que começaram na Tunísia no final de 2010 acentuaram essas divisões, mas também enfatizaram os interesses compartilhados do Golfo. Ao ameaçar profundamente a ordem regional e seus regimes autoritários, as revoltas colocaram um agudo desafio aos estados do GCC: como evitar os movimentos populares e reconstituir a ordem autoritária e neoliberal? Cada estado teve um interesse comum neste processo contrarrevolucionário, mas suas respostas diferiram ao longo das linhas descritas acima.

O Qatar apoiou forças aliadas com a Irmandade Muçulmana, enquanto a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos inclinaram-se para pessoas como Abdel Fattah el-Sisi no Egito e o antigo agente da CIA, Khalifa Haftar, na Líbia. Uma constelação de alianças, contraditórias e em constante mudança, se formou em torno dos interesses comuns do GCC e suas rivalidades internas.

O Qatar apoiou a intervenção saudita no Bahrein, participou da guerra contra o Iêmen e, na Síria, se opôs ao seu suposto novo aliado, o Irã. No Egito, na Líbia, na Tunísia e na Palestina, no entanto, o Qatar tendeu a apoiar facções rivais. As linhas ficam desfocadas e tênues mesmo nesses casos: o Qatar expressou apoio a Sisi após o golpe de 2013, apesar de sua clara aliança com a Irmandade Muçulmana Egípcia.

Essas alianças divergentes também se estendem a outros participantes no atual bloqueio; o Egito de Sisi, por exemplo, apoia o regime de Assad na Síria, alinhando-se com o Irã, mas contra a Arábia Saudita, apesar de sua dependência quase completa do eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos.

O ponto-chave, muitas vezes ignorado no comentário da mídia sobre o bloqueio, é que não existem posições políticas de princípios envolvidas nessas alianças – trata-se de uma conveniência calculada e de uma avaliação pragmática por cada estado sobre a melhor forma de promover sua influência regional, sempre dentro do quadro de reordenação da região de uma forma acessível ao seu poder político e econômico coletivo.

Precisamos manter ambas as tendências em mente quando avaliamos a situação atual. Uma forte unanimidade de interesses sustenta a posição dos Estados do Golfo sobre a ordem regional, uma situação plenamente apoiada por – e em pleno apoio às – potências ocidentais. Simultaneamente, o GCC é dividido por rivalidades e competições, refletidas nas diferentes visões dos membros em como manter seus interesses compartilhados.

A questão de Israel

Na esteira dos levantes árabes, agora estamos vendo uma afirmação de ambas as tendências. Especificamente, o bloqueio atual é uma jogada da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos para afirmar completamente sua hegemonia sobre a região e colocar o Qatar de volta ao seu lugar.

Mas não se trata apenas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos; expressa fundamentalmente um processo contrarrevolucionário geral que tem estado presente desde o início dos levantes – restaurando o status quo dos estados autoritários neoliberais que atenderam os interesses do GCC como um todo (incluindo o Qatar) por várias décadas. Tudo isso também deve ser visto através do prisma da aliança contínua e sempre fortalecida do Golfo com os EUA e outras potências ocidentais.

Dentro desse processo, o lugar de Israel desempenha um papel fundamental. Desde a década de 1990, a política regional americana tem procurado aproximar o GCC e Israel, normalizando as relações econômicas e políticas entre os dois pilares do poder dos EUA na região. Desde a revolta árabe, essa aproximação pareceu cada vez mais provável.

Não é por acaso que a primeira viagem internacional de Trump o fez visitar a Arábia Saudita e depois Israel (voando diretamente entre os dois), uma agenda de viagem que ilustra perfeitamente as prioridades estratégicas dos Estados Unidos na região. Apesar do boicote de longa data da Liga Árabe às relações com Israel, a região do Golfo (particularmente o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos) e Israel concordam em questões políticas fundamentais, e ambas as partes estão ativamente buscando construir laços mais estreitos.

No final de março de 2017, o Haaretz informou que os Emirados Árabes Unidos e Israel participaram de exercícios militares conjuntos na Grécia ao lado dos Estados Unidos e de vários países europeus. Esta não foi a sua primeira colaboração: um ano antes, Israel, Emirados Árabes Unidos, Espanha e Paquistão participaram da Red Flag, um exercício de treinamento de combate aéreo que ocorreu em Nevada (EUA).

No final de novembro de 2015, Israel abriu um escritório diplomático na capital dos Emirados Árabes, Abu Dhabi, como parte da Agência Internacional de Energia Renovável – a primeira vez que uma presença diplomática israelense oficial apareceu nesse país. A Bloomberg Businessweek informou em fevereiro de 2017 que o escritório poderia atuar como uma embaixada para os laços crescentes de Israel no Golfo.

As empresas israelenses de segurança alegadamente instalaram equipamentos de infraestrutura e segurança no valor de mais de US $ 6 bilhões nos Emirados Árabes Unidos; isso ocorre depois de Israel ter vendido cerca de US $ 300 milhões de tecnologia militar para a nação do Golfo em 2011.

As empresas militares e de segurança de alta tecnologia israelenses também estão ativas na Arábia Saudita, onde elas estão supostamente ajudando a Saudi Aramco ([2])a estabelecer segurança cibernética, vender sistemas de mísseis avançados e até mesmo realizar pesquisas de opinião pública para a família real. A mídia israelense afirmou que o país ofereceu aos sauditas sua tecnologia militar Iron Dome para se defender contra os ataques do Iêmen.

Essas relações, outrora clandestinas, estão agora sendo comentadas abertamente. O The Times de Israel informou em junho de 2015 que a Arábia Saudita e Israel realizaram cinco reuniões secretas desde o início de 2014. Em maio de 2015, o então diretor-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros Israelense, Dore Gold, apareceu publicamente com o general saudita aposentado, Anwar Eshki. No ano seguinte, Eshki visitou Israel para se encontrar com o ex-porta-voz das Forças de Defesa de Israel e atual coordenador de atividades governamentais nos territórios ocupados, o Major-General, Yoav Mordechai.

Não deve ser uma surpresa, então, que Israel apoie o bloqueio contra o Qatar. Mas isso não significa que o Qatar também não tentou normalizar suas relações com Israel. Como os outros estados do GCC, o envolvimento do Qatar na Palestina foi projetado para garantir a si próprio um assento melhor na mesa – um objetivo que os israelenses têm apoiado alegremente quando atende a seus interesses.

Em 1996, o Qatar permitiu que Israel abrisse um escritório comercial em Doha, tornando-o o único estado do Golfo a manter relações oficiais com Israel naquela época. Embora o escritório tenha sido fechado após o bombardeio israelense em Gaza em 2008, o Qatar tem repetidamente se oferecido para restabelecer os laços em troca de ter permissão para fornecer ajuda financeira e material a Gaza. Uma delegação comercial israelense que visitou o Qatar em 2013 alegadamente descobriu, que o Qatar estava interessado em investir no setor de alta tecnologia israelense.

O Qatar é o único estado do GCC que admite visitantes israelenses e que tem permitido que atletas israelenses participem de eventos esportivos e culturais. Em 2013, o Qatar presidiu a reunião da Liga Árabe que mudou a iniciativa de paz de 2002 para permitir que Israel mantivesse seus blocos de assentamentos em qualquer acordo final. Tzipi Livni, então ministra da Justiça israelense, descreveu o desenvolvimento como “muito positivo”. E no início de fevereiro de 2017, Muhammad al-Imadi, chefe do comitê nacional de Doha para a reconstrução de Gaza, afirmou que “mantém laços excelentes” com os oficiais militares israelenses.

Todas essas tendências indicam que nenhum dos estados do Golfo – incluindo o Qatar – pode ser visto de alguma forma como aliado ou amigo confiável da luta palestina. Mas as atuais tensões no Golfo também possuem implicações potencialmente importantes para o poder político na Palestina.

A crescente influência política de Mohammed Dahlan dialoga com essa possibilidade. Alguns acreditam que Dahlan, líder de uma das frações da Al-Fatah (principal corrente da Organização para a Libertação da Palestina – n. da tradutora) irá substituir Abu Mazen – também conhecido como Mahmud Abbas, n. da tradutora – (o atual chefe da Autoridade Palestina baseada em Ramallah). Dahlan vive em Abu Dhabi, e os Emirados Árabes Unidos há muito o apoiam política e financeiramente. Ele tem laços estreitos com Israel e os Estados Unidos e tornou-se, para esses dois últimos, o candidato preferido para suceder o octogenário Mazen.

Embora as rivalidades dentro do Fatah possam cortar a ascensão de Dahlan, sua crescente importância aponta para a forma como as tensões atuais no Golfo podem realinhar o equilíbrio de poder nas áreas vizinhas.

Rumos futuros

Nem todos os Estados do GCC ou atores regionais apoiam o bloqueio atual. No momento da redação deste artigo, Omã permitiu que os navios vinculados ao Qatar usassem os seus portos, e o Kuwait tem se empenhado em frenéticos esforços diplomáticos para acalmar as tensões. Somente o Bahrein apoiou totalmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, em grande parte devido à longa dependência da monarquia de Al Khalifa para com a Arábia Saudita.

A Turquia ofereceu enviar tropas a uma base militar turca no Qatar e o Irã se comprometeu a enviar comida e água para superar o fechamento da única fronteira terrestre do Katar com a Arábia Saudita. Enquanto isso, as tentativas da Arábia Saudita em recrutar outros países com grandes populações muçulmanas – como Senegal, Níger, Djibouti e Indonésia – falharam em grande parte. Países árabes como Marrocos, Argélia e Tunísia também rejeitaram o bloqueio.

À luz dessas disputas, devemos lembrar o que o GCC representa como um todo. Este bloco de estados está totalmente integrado em uma estrutura de poder regional alinhada aos EUA, tem se beneficiado massivamente das reformas neoliberais no mundo árabe e tem se tornado cada vez mais interligado com a dinâmica política da região.

Esses estados compartilham o interesse em preservar sua posição regional e suas antigas estruturas políticas. Esses compromissos superam os potenciais benefícios da fratura do projeto. Do mesmo modo, o Ocidente e Israel querem ver o GCC juntos, já que o bloco tem servido muito bem a seus interesses nas últimas décadas.

Apesar dos cismas atuais, algum tipo de solução negociada que veja o Qatar aderindo ao eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos e sua aceitação em ter uma influência regional diminuída é o resultado mais provável.

Este acordo acabaria por fortalecer o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos e ajudar a consolidar a contrarrevolução; também provavelmente precipitaria um realinhamento do poder político em lugares como Tunísia, Líbia e Palestina.

Mas a esquerda deve perceber que nenhum dos supostos aliados do Qatar – especificamente a Turquia e o Irã – representam uma alternativa progressiva para a região. Enquanto eles podem estar alinhados contra a frente Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos neste contexto, esses estados participaram do processo contrarrevolucionário pós-2011 tão entusiasticamente quanto seus rivais.

Talvez a lição mais importante da crise atual seja a de que devemos evitar leituras simplistas do Oriente Médio, especialmente aquelas baseadas na noção de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Seria profundamente tolo considerar o Qatar, a Turquia ou o Irã como representantes de algum realinhamento progressivo apenas porque eles estão – pelo menos por enquanto – contra a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e Israel. A disputa feroz pelo poder regional provocou essas tensões e produziu todo tipo de alianças políticas contraditórias e instáveis, mas nenhum dos estados envolvidos representa qualquer tipo de alternativa política digna do apoio da Esquerda.

* Adam Hanieh é professor sênior na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres e autor de Lineages of Revolt: Issues of Contemporary Capitalism in the Middle East. (Linhagens da Revolta: Questões do capitalismo contemporâneo no Oriente Médio)

Negando 1984: O antídoto de Michael Hudson para o vocabulário de duplo sentido na economia

por Jamie Morgan


Tradução / Michael Hudson é professor de Teoria Econômica na Universidade do Missouri, Kansas City, e do Levy Institute. Talvez seja mais conhecido pelo seu livro recente Matando o hospedeiro (2015) e pelo seus artigos na [revista] Harper (2005, 2006) em que identificou aspectos chave da crise financeira que se iria manifestar em 2007-8. J for Junk Economics é ostensivamente um dicionário, mas de um tipo muito inabitual. Os verbetes típicos não tratam de termos comummente usados na teoria econômica mainstream como é costume, mas procuram clarificá-los quanto às falácias e maus entendimentos que contêm e apresenta também verbetes que mostram os fundamentos dos quais decorrem as clarificações. Ou seja, a economia clássica, o pós-keynesianismo, a moderna teoria monetária (MMT) e elementos de novas teorias da criação de dinheiro e da atividade do sistema financeiro, assim como certas ideias de Marx. O âmbito da obra é eclético e pessoal e ainda assim sistemático, a medida em que tem uma temática consistente com referência à estrutura, dinâmica e lógica das atuais economias financeirizadas contemporâneas. O "dicionário" é de muitas maneiras um trabalho excelente. Contem muitas afirmações vigorosas que exprimem visões importantes de modo conciso. Faz isso de acordo com temas que acompanham diretamente as preocupações mais gerais de Hudson e que são estabelecidas na introdução e desenvolvidas através dos verbetes (e também em cinco ensaios anexos publicados anteriormente). O prefácio apresenta um resumo do livro e de como foi preparado:

"Organizei o dicionário e os ensaios que o acompanham há mais de uma década, para um livro que seria chamado The Fictitious Economia (A economia fictícia). Não consegui editor. Minhas advertências sobre como a alavancagem da divida levaria a uma crise não o qualificavam como adequado numa altura em que proliferavam manuais de como-ficar-rico da espécie que os editores consideram ser "livros de economia". A maior parte dos leitores estava a ganhando dinheiro fácil no mercado de ações e imobiliário... Ninguém queria ouvir dizer que os ganhos não podiam ser permanentes" (2017: p. 7)

Claro que é tanto trágico como irônico que o trabalho tivesse realmente sido oportuno se tivesse sido publicado há mais de uma década e ter sido adiado precisamente pela sua relevância e pertinência. Isso, como observa Hudson, estendia-se à incompreensão manifestada por um revisor anônimo que leu o original como símbolos da incompreensão e distorção da teria econômica clássica que ajudou a moldar a moderna teoria econômica mainstream. Para Hudson, a intenção que conduzia a economia politica clássica era libertar mercados da extração exploradora de rendas, ao passo que a ideologia, teoria e consequências políticas do mercado livre de hoje tornaram-se maneiras de facilitar essa extração de rendas. Hudson em geral justifica e contextualiza J is for Junk como sociologia do conhecimento aplicada, e faz isso com uma referencia inicial ao 1984 de Orwell. A Teoria Econômica agora parece ter-se tornado um Ministério da Verdade produzindo um discurso duplo e uma linguagem (newspeak) que reverte, oculta ou ofusca o estado real das coisas. De acordo com Hudson isto tem um sentido, serve os interesses de uma minoria e permite a perpetuação da desigualdade provocada. Há um problema real e permanente que mantém a relevância de L para Lixo ainda que o projeto tenha sido moldado inicialmente há mais de dez anos. Isso demonstra-se facilmente (ver também 2017: p. 179). Exemplo: podemos ver o declínio da participação do trabalho ao longo do período neoliberal:

Teoria econômica que diz falsidades para servir o poder ao invés de verdades ao poder

Para Hudson, as causas da desigualdade incluem uma estrutura de ideias que envolve "uma ignorância aprendida" (ver 2017; p. 141) ou "incapacidade treinada" articulada pela teoria econômica mainstream. Esta captura cria uma passividade generalizada, confusão e um sentido de impotência (no estado em que as coisas estão, tornou-se natural e finalmente acaba por ser tanto uma afirmação de que é para o benefício de todos ou de que não há qualquer alternativa razoável, suprimindo assim as alternativas). A captura tem a sua própria linguagem:

"O curriculum acadêmico foi sequestrado para substituir a economia politica clássica por uma ideologia aparentemente despolitizada mas na realidade pro-rentista (pro-rentier). Ao simbolismo matemático é dado o papel santificador outrora reservado ao latim. Ao macaquear as ciências naturais, economistas refugiam-se em modos de expressão abstrusos. Quanto mais complexa a matemática, mas simplista e banal tendem a ser as relações postuladas e as conclusões. A maior parte da matemática refere-se a escolhas entre os diversos "menus" de produtos e serviços, sem grande análise de como estes chegam a ser produzidos, ou das consequências para a economia a longo prazo de comprar a crédito ao invés de cash. As teorias econômicas que focam o intercâmbio de bens e serviços sem discutir os meios de adquirir controle sobre a riqueza desviam a atenção do exame daquilo que é mais importante na modelação da economia" (2017, p. 18).

E assim a parte do ponto "J is for Junk" (lixo) é clarificar o que foi confundido e isso em particular anda em torno de:

  • A distinção entre investimento produtivo e a expansão/inflação do preço dos ativos (em que a criação de moeda pode ocorrer em qualquer destes extremos).
  • O papel importante, positivo e construtivo, do Estado no apoio ao investimento produtivo (especialmente em infraestruturas) onde o Estado pode também prover uma inspeção institucional eficaz e equilíbrio sobre elites e corporações, ao invés de simplesmente delegar-lhes poder através da desregulamentação (criando uma concentração não eleita de poder e decisão que apesar de oligárquica e oligopolista é articulada com o individualismo do mercado livre).
  • A distinção chave entre rendimento merecido e não merecido (earned and unearned income).

Sem esta distinção final a extração de renda funde-se com o crescimento econômico e a criação de riqueza. Este é um ponto que Hudson persegue claramente tendo em vista o - profundamente influenciado por uma linguagem mais familiar aos americanos do que a outros povos - acrônimo FIRE (Finance, Insurance and Real Estate sector) (2017, p. 103). O setor FIRE recebe transferências de pagamentos mas torna-se um aspecto central das economias modernas cujo verdadeiro papel e consequências (ver abaixo) não são plenamente entendidos, como Hudson afirma na sua introdução:

"O guia de A a Z procura providenciar o vocabulário e os conceitos para um diagnóstico mais eficaz da depressão econômica de hoje (e por extensão também da depressão psicológica), ao pensar em termos de juros compostos, servidão da dívida, economias rentistas, rendimento não merecido, atividades de soma zero e parasitismo econômico. Sem ter tais conceitos em mente e no primeiro plano, as economias neoliberalizadas de hoje estão destinadas a sucumbir ao vírus do Duplo Sentido Orweliano. A teoria econômica lixo e o seu vocabulário eufemístico procuram limitar as ferramentas do pensamento desviando a atenção das causas — e, portanto, dos remédios necessários — pela teoria econômica do gotejamento (trickle-down) tecendo um véu de invisibilidade semântica em torno do fenômeno do parasitismo rentista" (p. 20).

Uma ilustração dos principais temas de J is for Junk

J is for Junk é um extenso "crime de pensamento" no sentido orweliano de transgressão perigosa. A sua concisão é também indignada e por vezes polêmica mas não no sentido pejorativo do irrazoável. Entendemos isso claramente ao encadear uma seleção de verbetes. Por exemplo, "O argumento 'como se' e a 'Inflação de preço de ativos'".

"Um universo paralelo nos é apresentado como um conjunto de suposições". Tal como nos romances, a chave reside em levar os observadores a suspenderem a descrença. A teoria econômica mainstream, por exemplo, raciocina como se todos os indivíduos ricos ganhassem o seu rendimento desempenhando um papel produtivo e colocassem as suas poupanças em bancos ou mercados de títulos — os quais supõe-se que aumentem a prosperidade ao emprestar essas poupanças a empresários que constroem fábricas e empregam trabalho. O rendimento rentista, empréstimos com hipotecas lixo e takeovers corporativos não desempenham qualquer papel neste quadro "como se". A realidade é que os bancos não emprestam para novos investimentos diretos de capital e só uma pequena proporção é emprestada para bens de consumo. Os bancos emprestam principalmente contra ativos já existentes... Este crédito para compradores de imobiliário, ações e títulos inflaciona os ganhos inesperados (windfall) provocados pela divida alavancada." (2017, p. 33).

Para Hudson um foco sobre o FIRE cria ênfase sobre os ganhos de capital (2017: p. 50), os quais por sua vez criam razões para minimizar a tributação sobre esses ganhos e para criar uma regulação tributária preferencial (note-se que a divida dispõe de vários benefícios fiscais que vão desde o imobiliário até a depreciação fictícia). Isso, como muitos reconheceram (Pikety, Keen, Palley, Galbraith, Kelton, Tcherneva, etc) beneficia aqueles que possuem a vasta maioria de ativos financeiros e portanto cria um loop de retro-alimentação a favor da desigualdade. A desigualdade, enquanto isso, é exacerbada pela alavancagem da dívida, criando um processo Minsky de expansão financeira instável (2017: p. 154). A maioria da população é cooptada dentro de um sistema de servidão da dívida (2017: p. 71) através de um sistema que exige a "propriedade" da casa e em que uma participação em pequena escala nos mercados de ações é uma entrada para a riqueza real, ao invés de um meio para subjugar a maioria a uma divida de longo prazo; algo que é mais uma vez exacerbado quando o estado devolve pensões ao investimento privado com base nos mercados de ações – e ao lobby dos ricos a fim de reduzir a tributação corporativa – enquanto favorece a transferência de tributação sobre a terra, ativos e rendimentos altos para os restantes trabalhadores e o IVA. Verifique-se como impostos corporativos e o imposto sobre o rendimento divergiram nos EUA ao longo do período neoliberal.

Como Hudson observa, novos obscurecimentos tornam-se então possíveis; como as afirmações da curva de Laffer (2017, p. 138) e do gotejamento (2017, p. 231) e:

"Argumenta-se que prejudicar lucros corporativos deixaria os fundos de pensão com ganhos mais baixos, tornando mais difícil o pagamento das pensões de reforma. Investir fundos de pensão no mercado de ações em títulos ao invés de financiar o investimento direto deixa os pensionistas (juntamente com os poupadores da classe média) reféns do setor financeiro. Seus lobbystas afirmam que reformas para ajudar os consumidores pela regulação dos preços dos monopólios e para a segurança do produto, melhorando as condições de trabalho ou pagando melhor salários, afetaria negativamente os fundos de pensões erodindo os lucros corporativos e assim os ganhos de preço das ações" (2017, p. 177)

Quanto mais o sistema é desviado para a atividade financeira menos investimento produtivo se verifica, e assim é menor o retorno real sobre o investimento produtivo verdadeiro a fim de reembolsar dívidas. O sistema torna-se mais dependente da inflação do preço dos ativos, as dívidas acumulam-se e diversificam-se — incluindo a dívida de estudantes como investimento "necessário" em capital humano para poderem empregar-se, os empréstimos para carros, cartões de crédito, etc. Uma proporção crescente do rendimento atual da maioria é dada para o serviço da dívida (assim o rendimento real não é o que parece de modo como as contas do rendimento nacional também são enganosas, 2017, p. 165). Finalmente, chega-se a um ponto em que a crise financeira se manifesta. Esses são processos reais que a teoria econômica mainstream não descreve nem explica adequadamente. Isto também se torna útil do ponto de vista sócio-politico.

Baseado no poder da finança e dos juros que decorre precisamente da instabilidade dos processos financeiros, os bancos e proprietários de grandes volumes de activos financeiros têm uma posição preferencial. São salvos e compensados e são essencialmente tratados como vítimas ao invés de carrascos (2017, p. 37). A maioria, enquanto isso, descobre que as suas dívidas são transportadas de uma crise financeira para outra. Isso é problemático tanto do ponto de vista pessoal como sistémico, pois a dependência da divida que paira afecta o âmbito da actividade económica no período seguinte e leva também a novas soluções relativas à financiarização (via facilidades quantitativas e outros meios, os quais simplesmente criam uma renovada inflação de preços de activos.). Como Hudson nota, no seu verbete sobre a teoria do ciclo de negócios:

"Não explica o crescimento exponencial da divida de uma recuperação para a seguinte e portanto deixa de ver a crise derradeira. Os neoliberais anti-trabalho e anti-governo sequestraram a teoria do "ciclo de negócios" ao retratar os períodos de baixa (downturns) como sendo causados por aumentos de salários e preços de matérias-primas quando é alcançado o pleno emprego e utilização da capacidade total, cortando lucros de modo a diminuir gradualmente o crescimento. Mas o factor chave que atravessa os ciclos de negócio é o crescimento da divida e o aumento de encargos com juros que restringem os lucros. O serviço de divida absorve o rendimento até então gasto no novo investimento directo e no consumo, de modo que o emprego e a produção declinam" (2017, p. 46).

Segue-se, dentro do tema nuclear que permeia os verbetes, que uma crise financeira pode ser apenas de uma sequência delas e também que é indicativa ou constituída no interior de um problema estrutural mais básico com as economias financiarizadas contemporâneas como economias politicas . No seu verbete as Duas Economias, Hudson afirma:

"Os setores privados internos são compostos por dois sistemas distintos. Esses fundem-se para representar "A economia", mas as suas dinâmicas são muito diferentes. 1) A "economia real" da produção e consumo atual, dos salários e lucros industriais... 2) O setor FIRE consistente de terra, direitos monopolistas e direitos financeiros que proporcionam retornos rentistas na forma de juros, comissões financeiras, renda econômica (rendimento não merecido) e ganhos de monopólio, mais ganhos em preços de ativos ("ganhos de capital")... A maior parte da riqueza financiarizada do setor FIRE — o lado do ativo no balanço — é possuída pela classe rentista... A contraparte da sua dívida no lado do passivo no balanço consiste principalmente de dívida hipotecária... Desde a II Guerra Mundial, a "economia real" gastou cada vez mais rendimento em imobiliário, seguros e pagamentos a bancos, fundos de pensões e outras transações financeiras (2017, p. 232).

Poderíamos continuar mas deveria ficar claro que grande parte do livro J is for Junk apresenta um tema coerente. Assim, talvez o ponto importante a sublinhar seja o objectivo que Hudson pretende com o seu dicionário. Assim como os endividados são as verdadeiras vitimas das crises financeiras – e do mesmo modo como a divida que paira de uma crise para outra é um problema cumulativo – então em conjunto com um papel mais construtivo por parte do estado, Hudson argumenta a favor do perdão da divida como o elemento chave na transformação dos problemas actuais das economias financiarizadas (2017, p. 68, 72 3 131). Isto, claro, contesta o posicionamento habitual dos carrascos como vítimas.

Alguns comentários finais

Se bem que J is for Junk seja um trabalho excelente – de leitura fácil, destacando numas poucas frases algumas importantes visões gerais que muitos já pensaram mas poucos articularam tão bem – há também algo de estranho como um dicionário. Não pretendo desencorajar quaisquer leitores potenciais. Sentei-me e li toda a obra em duas ou três sessões e não apenas para fazer a revisão. Até pensei em lê-lo de modo diferente, ou seja se deveria consultá-lo como um dicionário normal, ou lê-lo como um trabalho extenso? Dado que um dicionário destina-se tipicamente a apresentar uma declaração clara da utilização comum de expressões e muitas vezes, se utilizado num contexto acadêmico, para dar uma fonte de autoridade (na escrita de um ensaio etc), um dicionário cuja cerne real é o mau-uso comum da linguagem apresenta algo de estranho, pelo menos como ponto de referencia no sentido instrumental.

Concomitantemente, se desejasse um registo técnico dos conceitos e termos que Hudson critica, a informação contida em J is for Junk seria insuficiente. Se pedisse uma critica substantiva significativa desses conceitos e termos então os verbetes seriam insuficientes. O verbete das Hipóteses Eficientes de Mercado ilustra os dois pontos (2017, p. 87). Isso soa mais crítico do que se pretende e deve ser tomado como um lembrete do que J is for Junk pretende ser. Se procura uma ideia geral da lógica subjacente, do absurdo, da irrelevância ou do dano criados por alguns termos e conceitos importantes em relação a outros, então ler J is for Junk é bom. Dito isto, J is for Junk é entretanto por vezes repetitivo em certos trechos, por vezes mal desenvolvido em alguns do seus pontos históricos (porque a política apoiada por Margaret Thatcher favorecia a financiarização a longo prazo é sociologicamente complexo de modo que um verbete num dicionário breve não pode capturar o assunto, caso alguém esteja interessado nos antecedentes do "Big Bang" do Reino Unido nos meados da década de 1980, 2017, p. 223), e suscita a questão estranha de quem e o que foi omitido, dada a seleção do que está incluído (por exemplo, porquê Larry Summers, e por que não Frederic Mishkin?)

Porém, no contexto apropriado, pouco disto importa. Se quisermos ler algo genuinamente vulgarizador em vez de simplisticamente fácil então recomendo J is for Junk. Não pretendo ser pejorativo ao declarar que este livro é uma leitura de banheiro ideal. Grande parte da teoria econômica pode ser fecal, mas este não é. É um recordatório do que realmente importa para a grande maioria.

Referências:

Haldane, A (2015) "Labour's share", transcrito do discurso no Congresso dos Sindicatos, Londres, Novembro 12, Banco de Inglaterra.
Hudson, M (2005) "The $4,7 trillion Pyramid: Why Social Security Won't Be Enough to Save Wall Street", Harpers's Abril pp. 35-40.
Hudson, M. (2006) "The New Road to Serfom: An illustrated guide to the coming real estate collapse", Harpers, Maio, pp. 39-46.
Hudson, M. (2015) "Killing the Host", Dresden, ISLET-Verleg.
Wade, R. (2017) "Is Trump wrong on trade? A partial defence on profuction and employment", in E, Fullbrook e J. Morgan, editores. Trumponomics: Causes and Consequences Londres: WEA/College Books.

22 de junho de 2017

Os bolcheviques e o antissemitismo

O anti-semitismo pode ser encontrado em toda o espectro política no ano de revolução da Rússia.

Brendan McGeever

Jacobin

Membros do Bund judeu com corpos de seus companheiros mortos em Odessa durante a revolução russa de 1905. Wikimedia Commons

Tradução / Manhã, 25 de outubro de 1917. Os trabalhadores ocupam pontos estratégicos nas ruas fustigadas pelo vento de Petrogrado. No Palácio de Inverno, o líder do Governo Provisório, Alexander Kerensky, aguarda ansioso pelo seu carro de fuga. Do lado de fora, a Guarda Vermelha controla a estação telefônica central. A tomada de poder por parte dos bolcheviques é iminente.

Não há luz nem telefone no palácio. De sua janela, Kerensky consegue ver a Ponte do Palácio: ela está ocupada por marinheiros bolcheviques. Por fim, um carro da embaixada americana lhe é assegurado e Kerensky inicia sua fuga da Petrogrado vermelha. Enquanto virava uma das esquinas, ele observara algumas pichações recém escritas nos muros do palácio: “Fora o yid (judeu) Kerensky! Vida longa ao camarada Trotsky!”.

O absurdo dessa palavra de ordem mantém sua força um século depois: Kerensky, é claro, não era judeu, enquanto Trotsky, de fato, era. Todavia, o que ela aponta é justamente para o papel complicado e contraditório que o antissemitismo teve durante o processo revolucionário. Em boa parte da literatura existente sobre a Revolução Russa, o antissemitismo é entendido como uma forma “contrarrevolucionária”, como algo ligado a uma direita antibolchevique.

É fato que essa afirmação contém muito de verdade: o regime czarista era definido por seu antissemitismo e, diante da devastadora onda de violência contra os judeus que ocorreu nos anos posteriores à Revolução, em plena Guerra Civil (1918-1921), a maior parte das atrocidades foram tocadas pelo Exército Branco e por outras forças que se opunham ao nascente governo Soviético. Mas essa é apenas uma parte da história.

O antissemitismo atravessava as divisões políticas da Rússia revolucionária, encontrando adesão em praticamente todos os grupos sociais e lealdade políticas. Dentro do marxismo, o racismo e o radicalismo político geralmente são colocados em polos opostos; em 1917, contudo, antissemitismo e ressentimento de classe poderiam ser tanto visões de mundo concomitantes ou conflitantes.

Fevereiro: uma revolução na vida judaica

A Revolução de Fevereiro transformou a vida judaica. Nos primeiros dias após a abdicação do czar Nicolau II, todas as restrições legais sobre os judeus foram suspensas. Mais de 140 estatutos, totalizando milhares de páginas, foram removidos da noite para o dia. Para lembrar esse momento histórico de abolição, uma reunião especial foi marcada pelo Soviete de Petrogrado. Era a noite de Páscoa, 24 de março de 1917. O deputado judeu que se apresentara na reunião rapidamente estabeleceu a seguinte ligação: a Revolução de Fevereiro era comparável com a libertação dos judeus no cativeiro no Egito.

Porém, a emancipação formal não foi acompanhada do fim da violência contra os judeus. O antissemitismo tinha raízes profundas na Rússia, e sua persistência, em 1917, estava diretamente ligada ao fluxo e refluxo da própria Revolução. Ao longo do ano, pelo menos 235 ataques contra judeus foram registrados. Ainda que totalizassem meros 4,5% da população, eles foram vítimas de cerca de um em cada três atos de violência física contra minorias nacionais naquele ano.

A partir da Revolução de Fevereiro, rumores de iminentes pogroms contra os judeus circulavam nas ruas do país, tanto que, quando os sovietes de Petrogrado e Moscou organizaram seus primeiros encontros, a questão do antissemitismo estava no topo da agenda. A eclosão de violência direta foi rara naquelas primeiras semanas. Mas em junho, a imprensa judaica começava a relatar que “multidões de trabalhadores” estavam se reunindo nas esquinas para saudar discursos a favor dos pogroms, que afirmavam que o Soviete de Petrogrado estaria “nas mãos dos judeus”. Por vezes, os próprios líderes bolcheviques se depararam pela primeira vez com esse preconceito. Ao andar nas ruas no início de julho, Vladimir Bonch-Bruevich – o futuro secretário de Lênin – encontrou uma multidão que abertamente clamava por pogroms contra os judeus. Ele então abaixou a sua cabeça e apressou o seu passo. Mais e mais relatos surgiram a respeito de aglomerações similares.

Às vezes o ressentimento de classe e as representações antissemitas acerca do judaísmo se entrecruzavam: mais tarde, naquele mesmo mês, oradores num comício de rua em Petrogrado clamavam para a multidão para “esmagar os judeus e a burguesia!”. Enquanto no imediato momento após a Revolução de Fevereiro, tais discursos não conseguiriam ter adesão, eles agora estavam atraindo audiências cada vez maiores. E foi nesse contexto que se reuniu em Petrogrado o Primeiro Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados de Toda a Rússia.

A questão do antissemitismo

O Primeiro Congresso dos Sovietes foi um encontro histórico. Mais de mil delegados de todos os partidos socialistas participaram do evento, representando centenas de Sovietes locais e cerca de 20 milhões de cidadãos russos. Em 22 de junho, enquanto chegavam várias notícias de cada vez mais incidentes antissemitas, o Congresso produziu a sentença mais autoritária do movimento socialista russo na questão do antissemitismo.

Elaborado pelo bolchevique Evgenii Preobrazhenskii, a resolução chamava-se “Na luta contra o antissemitismo”. Quando Preobrazhenskii terminou de lê-la em voz alta, um deputado judeu ficou de pé para demonstrar sua mais sincera aprovação, antes de acrescentar que mesmo que isso não trouxesse de volta os judeus assassinados nos pogroms de 1905, a resolução ajudaria a curar uma das feridas que continuavam a causar tanta dor na comunidade judaica. Ela foi aprovada por unanimidade pelo Congresso.

A resolução reafirmara a antiga visão socialdemocrata que concebia que o antissemitismo seria o equivalente à contrarrevolução. Contudo, ela continha uma importante admissão: o “grande perigo”, segundo Preobrazhenskii, seria “a tendência de disfarçar o antissemitismo sob palavras de ordem radicais”. Essa convergência entre política revolucionária e o antissemitismo, continuava a resolução, representava “uma enorme ameaça ao povo judeu e para o movimento revolucionário como um todo, uma vez que ameaça[va] banhar a liberação do povo com o sangue de nossos irmãos e cobrir com desgraça todo o movimento revolucionário”. Admitir que o antissemitismo e o radicalismo político poderiam caminhar lado a lado trouxe à tona um novo terreno de debates para o movimento socialista russo, que, até então, tendia a enquadrar o antissemitismo como um resquício vinculado à extrema-direita. Conforme o processo revolucionário se aprofundou na segunda metade de 1917, a presença do antissemitismo dentro de setores da classe trabalhadora e do movimento revolucionário se tornou um problema crescente que demandava uma resposta socialista.

A resposta dos Sovietes

Até o final do verão, os Sovietes tinham iniciado uma ampla e abrangente campanha contra o antissemitismo. O Soviete de Moscou, por exemplo, organizou palestras e encontros sobre este tema em fábricas, entre agosto e setembro. Na antiga zona de assentamento judeu na Rússia, os Sovietes locais eram instrumentos de prevenção à eclosão de crimes de ódio. Em Chernigov, na Ucrânia, em meados de agosto, os Centenas Negras acusaram os judeus de estarem armazenando pão, o que levou a uma série de violentos distúrbios antijudeus. Foi necessário enviar uma delegação do Soviete de Kiev para organizar um grupo de tropas locais para acabar com os tumultos.

O Governo Provisório tentou iniciar sua própria resposta ao antissemitismo. Em meados de setembro, o governo passou uma resolução que prometia tomar “as mais drásticas medidas contra todos os ‘pogromistas’”. Uma resolução semelhante, anunciada duas semanas depois, ordenava os ministros do governo a usar “todos os poderes à sua disposição” para acabar com os pogroms. Contudo, com a transferência do poder aos Sovietes já sendo encaminhada, a autoridade do Governo Provisório estava em processo de desintegração. Um editorial do jornal governista, Russkie Vedomosti, no dia 1º de outubro, capturou bem a situação: “a onda de pogroms cresce e se expande… inúmeros telegramas chegam diariamente… [e] o Governo Provisório está atolado… a administração local está sem poder de fazer qualquer coisa… os meios de coerção estão completamente esgotados.”.

Esse não era o caso dos Sovietes. Conforme a crise política se aprofundou e o processo de bolchevização continuou rapidamente, alguns sovietes provinciais estabeleceram suas próprias campanhas contra o antissemitismo. Em Vietbsk, uma cidade a cerca de 560 km a Oeste de Moscou, o Soviete local formou uma unidade militar no início de outubro para proteger a cidade dos ‘pogromistas’. Na semana seguinte, o Soviete de Orel aprovou uma resolução a fim de coibir todas as formas de violência antissemita.

No extremo-oriente da Rússia, um encontro dos Sovietes de Toda Sibéria publicou uma resolução contra o antissemitismo, declarando que o Exército revolucionário local deveria tomar “todas as medidas necessárias” para evitar novos ataques. Isso revela o quão enraizada estava a luta contra o antissemitismo entre os diferentes setores do movimento socialista organizado: mesmo no extremo-oriente, onde havia, em termos comparativos, menos judeus e até mesmo menos pogroms, os Sovietes locais identificavam-se com os judeus no lado ocidental que sofriam nas mãos dos antissemitas.

Sem dúvidas, em meados de 1917 os Sovietes tinham se tornado a principal oposição política ao antissemitismo na Rússia. O editorial do jornal Evreiskaia Nedelia (Semana Judaica) sintetizou bem: “Deve ser dito, e devemos dar-lhes os devidos créditos, que os sovietes encamparam uma enérgica luta contra [os pogroms]. Em muitos lugares, foi graças a sua força que a paz fora restaurada”.

Porém, convém observar que essas campanhas contra o antissemitismo eram direcionadas aos operários nas fábricas e, por vezes, também para militantes dentro do movimento socialista mais amplo. Em outras palavras, o antissemitismo era identificado como um problema dentro da base social da esquerda radical e mesmo em seções do próprio movimento revolucionário. O que isso revelava, é claro, é que o antissemitismo não emanava simplesmente “de cima para baixo”, como mero reflexo das instituições czaristas; ele possuía uma base orgânica em setores da classe trabalhadora e tinha de ser confrontado dessa maneira.

O inimigo interno

Para a liderança bolchevique, as políticas revolucionárias não eram apenas incompatíveis com o antissemitismo; elas eram a sua antítese. Assim afirmava a manchete da capa do Pravda, principal jornal do partido, em 1918: “Ser contra os judeus é ser a favor do Czar!”. Todavia, seria um erro levar em consideração as posições de Lenin e Trotsky e “deixar de lado” os pensamentos e sentimentos que emergiam da base. Como os acontecimentos de 1917 demonstravam, revolução e antissemitismo nem sempre estavam em conflito.

Notícias de jornal no verão e no outono de 1917 revelam que grupos locais de bolcheviques eram frequentemente acusados por outros socialistas de perpetuarem o antissemitismo, além de, por vezes, manter antissemitas dentro da base social do partido. Por exemplo, em meados de junho e de acordo com o jornal de Georgy Plekhanov, o Edinstvo, quando os Mencheviques tentaram falar nos quarteis moscovitas na região de Vyborg, em Petrogrado, soldados aparentemente incitados pelos bolcheviques, gritaram “Abaixo todos eles! São todos Judeus!”. É importante observar que Plekhanov era um antibolchevique obsessivo por volta de meados de 1917, então esta fonte tem que ser tratada com cautela.

Contudo, tais alegações eram bastante disseminadas. Mais ou menos na mesma época, o jornal Menchevique Vpered relatou que os bolcheviques em Moscou calaram os Mencheviques, sob a acusação de serem “judeus” que “exploravam o proletariado”. Quando centenas de milhares de trabalhadores tomaram as ruas de Petrogrado em 18 de junho, foi registrado que alguns bolcheviques derrubaram as bandeiras de grupos bundistas, gritando palavras de ordem antissemitas. Em resposta, o bundista Mark Liber acusou os bolcheviques de serem “pró-ataques aos judeus”.

Com a chegada do mês de outubro, essas acusações se tornaram mais frequentes. Na edição de 29 de outubro do Evreiskaia Nedelia, um editorial chegou ao ponto de alegar que o grupo antissemita “Centenas Negras” estava “entrando nas fileiras dos bolcheviques” em todo o país.

Tais alegações eram evidentemente exageradas. A liderança bolchevique se opôs ao antissemitismo e a maioria dos membros do partido participou do desenvolvimento da resposta pluripartidária contra o antissemitismo nas fábricas e nos Sovietes. Mesmo assim, a ideia de que o bolchevismo poderia ser atraente aos antissemitas de extrema-direita não era totalmente sem fundamento. Em 29 de outubro, um impactante editorial no veículo antissemita de extrema-direita, Groza (‘Tempestade’), declarou:

“Os Bolcheviques tomaram o poder. O judeu Kerensky, lacaio dos britânicos e dos banqueiros do mundo, tendo descaradamente assumido o título de comandante-chefe das forças armadas e se auto declarado Primeiro-Ministro do Império Ortodoxo Russo, será varrido do Palácio de Inverno, de onde profanou os resquícios do pacificador Alexandre III com sua presença. Em 25 de outubro, os bolcheviques unificaram todos os regimentos que se recusaram a submeter-se a um governo composto por banqueiros judeus, generais traiçoeiros, senhores de terra traidores e comerciantes ladrões”.

O jornal foi imediatamente fechado pelos bolcheviques, mas esse apoio indesejado alarmou a liderança do Partido.

O que preocupava os socialistas moderados acerca da capacidade do antissemitismo e da revolução se justaporem era a forma a qual os bolcheviques mobilizavam as massas e canalizavam o seu ressentimento de classe. Em 28 de outubro, quando a revolução estava em fluxo intenso, o Comitê Eleitoral dos Mencheviques de Petrogrado lançou um apelo desesperado aos trabalhadores da capital, alertando que os bolcheviques haviam seduzido os “trabalhadores e soldados ignorantes”, e que o apelo de “Todo poder aos Sovietes!” facilmente poderia se tornar “Acabem com os judeus, acabem com os lojistas”. Para o Menchevique Lvov-Rogachevskii, a “tragédia” da Revolução Russa estaria no fato aparente de que “as massas sombrias (temnota) são incapazes de distinguir um provocador de um revolucionário, ou um pogrom de uma revolução social”.

A imprensa judaica ecoava essas preocupações. De acordo com um artigo em destaque no Evreiskaia Nedelia, “o camarada Lênin e seus companheiros bolcheviques conclamam o proletariado para ‘transformar suas palavras em ações’ (pereiti ot slovo k delu), mas onde quer que se juntem os eslavos, o “transformar as palavras em ações”, significa, na verdade, ‘atacar todos os judeus’.”.

Entretanto, contrária a essas predições alarmistas, nas horas e nos dias que se seguiram após a tomada de poder dos bolcheviques, não houve nenhum grande pogrom no interior da Rússia. A insurreição não se voltou para a violência antissemita que se previa. O que os alertas citados acima revelam, contudo, é justamente o quão profundo era o medo das “massas sombrias” entre os setores da esquerda socialista que alegavam falar em seu nome. E isso é especialmente verdadeiro ao se falar da intelligentsia, que geralmente abordava a noção de levante proletário com horror, pois acreditavam que o seu resultado inevitável seria uma torrente de violência e barbárie.

O que definia os bolcheviques durante esse período era precisamente sua proximidade para com as massas de Petrogrado que eram tão temidas pela intelectualidade.

Contudo, as justaposições entre antissemitismo e política revolucionária eram reais. Dias após a Revolução de Outubro, o escritor Ilia Ehrenburg – que logo se tornaria o mais prolífico e famoso autor judeu na União Soviética – recolheu-se para registrar suas reflexões sobre os eventos atribulados que tinham ocorrido. Seu registro talvez seja a mais vívida descrição acerca da articulação entre o antissemitismo e o processo revolucionário de 1917:

“Ontem eu estava esperando na fila, aguardando para votar para a formação da Assembleia Constituinte. Pessoas estavam dizendo ‘Quem estiver contra os judeus, vote no número 5! [os bolcheviques]’, ‘Quem é a favor de uma revolução mundial, vote no número 5!’ O patriarca então passou, jogando água benta e todos tiraram seus chapéus. Um grupo de soldados que passava começou a entoar a Internacional em direção a ele. Onde estou? Ou será que esse é o inferno de verdade?”

Nessa assustadora recordação, a distinção entre bolchevismo revolucionário e antissemitismo contrarrevolucionário mostra-se embaçada. De fato, o relato de Ehrenburg antecipa a atormentadora questão que seria trazida posteriormente por Isaac Babel, em seus contos da Guerra Civil, reunidos no livro A cavalaria vermelha: “qual é a Revolução e qual é a contrarrevolução?”

Apesar da insistência bolchevique de enquadrar o antissemitismo como um fenômeno puramente contrarrevolucionário, ele escapava de categorizações simples e podia ser encontrado nas diferentes clivagens políticas, em formas altamente complexas e inesperadas. Isso seria melhor revelado seis meses depois, na primavera de 1918, quando os primeiros pogroms desde a Revolução de Outubro eclodiram na antiga zona de assentamento judeu de Pale. Nas aldeias e nas cidades do nordeste da Ucrânia, como Glukhov, o poder bolchevique se consolidou a partir da violência antijudaica advinda de quadros locais do partido e da Guarda Vermelha. O conflito dos bolcheviques com o antissemitismo em 1918, mostrava-se como um frequente conflito contra o antissemitismo de sua própria base social.

Conforme relembramos o centenário da Revolução de Outubro, nós acertadamente a celebramos como um momento de transformação social radical, quando um novo mundo pareceu ser possível. A revolução, porém, precisa também ser lembrada em todas as suas complicações.

O antirracismo precisa ser cultivado e renovado, em um processo contínuo. Um século depois, enquanto lutamos contra os danos feitos pelo racismo à política de classe, 1917 pode nos ensinar bastante sobre como ideias reacionárias podem assumir o controle, mas também como elas podem ser confrontadas.