31 de julho de 2017

Macron-Líbia: A conexão Rothschild

Manlio Dinucci

Tradução / “O que está a acontecer hoje na Líbia é o nó de uma instabilidade de vários aspectos”, declarou o Presidente Emmanuel Macron ao celebrar, no Eliseu, o acordo que “descreve o caminho para a paz e para a reconciliação nacional”. Macron atribui a situação caótica do país unicamente aos movimentos terroristas, os quais “se aproveitam do desequilíbrio político e da riqueza econômica e financeira que pode existir na Líbia, a fim de prosperar.” Por este motivo - conclui - a França ajuda a Líbia a bloquear os terroristas. Macron desvaloriza os fatos, desta maneira.

O mecanismo da desestabilização da Líbia foi a própria França, acompanhada pelos Estados Unidos, pela OTAN e pelas monarquias do Golfo. Em 2010, documentava o Banco Mundial, a Líbia registava em África os indicadores mais elevados de desenvolvimento humano, com uma renda per capita médio-alta, com acesso universal ao ensino primário e secundário, e de 46% ao ensino superior. Cerca de 2 milhões de imigrantes africanos encontravam emprego nesse país. A Líbia favorecia com os seus investimentos, a formação de organizações econômicas independentes da União Africana. Os EUA e a França – provam-no os emails de Hillary Clinton - concordaram em impedir o plano de Gaddafi de criar uma moeda africana, como alternativa ao dólar e ao franco CFA (moeda que a França impõe às suas 14 antigas colônias africanas). Foi a Srª. Clinton - documenta o New York Times – que fez o Presidente Obama assinar um “documento que autorizou uma operação secreta na Líbia e o fornecimento de armas aos rebeldes” incluindo grupos até então classificados como terroristas.

Pouco depois, em 2011, sob o comando dos Estados Unidos, a OTAN derruba o Estado líbio com a guerra (aberta da França), atacando-o no interior, com forças especiais. Daí o desastre social que vai fazer mais vítimas do que a própria guerra, especialmente entre os migrantes. Uma história que Macron conhece bem: de 2008 a 2012 faz uma carreira impressionante (se bem que suspeita) no Banco Rothschild, o império financeiro que controla os bancos centrais de quase todos os países do mundo.

Na Líbia, o Banco Rothschild chega em 2011, enquanto a guerra ainda está em curso. Os grandes bancos americanos e europeus efetuam, ao mesmo tempo, o maior roubo do século, confiscando 150 biliões de dólares dos fundos soberanos da Líbia. Nos quatro anos de formação no Banco Rothschild, Macron é introduzido na elite das finanças globais, onde se decidem as grandes operações, como a da demolição do Estado líbio. Em seguida, vai para a política, fazendo uma carreira deslumbrante (se bem que suspeita), primeiro como Vice Secretário Geral do Eliseu, depois, como Ministro da Economia. Em 2016, em poucos meses cria o seu próprio partido, En Marche!, um "partido instantâneo" sustentado e financiado por poderosas corporações multinacionais, financeiras e da comunicação mIdiática, que lhe abrem o caminho para a presidência.

Por trás da liderança de Macron não estão somente os interesses nacionais franceses. Na Líbia, o saque para repartir é enorme: a maior reserva africana de petróleo e grandes reservas de gás natural; as imensas reservas de água fóssil do aquífero nubiano, o ouro branco em perspectiva, mais precioso do que o ouro negro; o próprio território líbio, de primeira importância geoestratégica na intersecção entre o Mediterrâneo, a África e o Oriente Médio.

Há “o risco da França exercer uma hegemonia forte sobre a nossa ex-colônia”, adverte a Analisi Difesa (Análise da Defesa), sublinhando a importância da próxima expedição naval italiana na Líbia. Uma apelo ao “orgulho nacional” de uma Itália que reivindica a sua fatia na divisão neo-colonial da sua antiga colônia.

29 de julho de 2017

Somos todos bolivarianos!

Jean Ortiz

Le Grand Soir

Tradução / Em algumas horas, a Venezuela talvez seja empurrada para um banho de sangue pelos mesmos de sempre, nacionalmente e internacionalmente, que não toleram que os pobres recusem-se a continuar para sempre pobres, e que tenham decidido assumir pleno controle sobre as enormes riquezas de petróleo da Venezuela. O quadro geopolítico é mais amplo que as cenas em Caracas.

Setores da extrema direita que controlam a oposição conhecida como Movimento de União Democrática (MUD) tentam paralisar o país, para impedir que se realizem eleições para a Assembleia Constituinte e provocar uma intervenção de Washington. O presidente Trump e a CIA já 'avisaram' que se houver votação, "o império" implantará sanções imediatas contra o direito à autodeterminação do povo da Venezuela.

O que hoje se disputa na Venezuela (...) tem e terá pesadas repercussões continentais e internacionais. Washington (apoiada clandestinamente pela União Europeia) apressa-se a violar a soberania da Venezuela. Tentam forçar uma divisão nas forças armadas. Para o Império, a Venezuela bolivariana é "ameaça contra a segurança dos EUA". A fórmula foi criada pelo tal "bom" presidente Obama.

A Venezuela está convertida em coração da estratégia imperialista. É preciso, mais que nunca despertar todos os democratas. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos do Homem acaba de pedir que "a paz seja garantida" para que a eleição da Assembleia Constituinte, dia 30 de julho, aconteça em condições de normalidade. As mídia-empresas venezuelanas – empresas que pertencem quase todas à oligarquia -- e seus clones franceses (brasileiros e outros) sopram sobre as chamas, em vez de acalmar o jogo, e guincham contra "a ditadura", porque o governo Maduro proibiu manifestações de rua, para que a votação aconteça em clima de tranquilidade e para prevenir confrontos e derramamento de sangue.

A oposição – deve-se escrever a "subversão" – recusa-se a participar da eleição legal de uma Assembleia Constituinte. Antes, já encenaram outra votação, ilegal, na qual teriam obtido mais de sete milhões de votos. Não houve qualquer contagem séria de votos, nenhuma verificação. Listas eleitorais "feitas em casa" e mapas de votos foram escondidos, depois queimados.

Os principais chefes da oposição querem hoje o confronto, custe o que custar, depois de três meses e meio de insurreições localizadas, sobretudo nos bairros ricos. Opositores converteram-se em agitadores. Desde a eleição do presidente Maduro em 2013, a oposição nega-se a reconhecer a legitimidade do governo eleito. Essa atitude golpista faz lembrar, mas supera, o "golpe" contra Chávez em 2002. Contudo...

A eleição de uma Constituinte, a ampliação da democracia, a consulta ao conjunto da população num processo de fundo, é com certeza um dos últimos recursos para construir a vida em comunidade, num país dividido, a beira de ser esfacelado.

A Revolução Bolivariana quer modificar a Constituição de 1999, acrescentando à lei as conquistas sociais reconhecidas por instituições internacionais. Apesar das dificuldades, a revolução conseguiu manter as grandes "Missões" sociais. As mídias-empresas no continente e em todo o mundo pouco falam dessas Missões. E a falta de alguns produtos, principalmente medicamentos, cruel, organizada essencialmente pelos empresários-patrões, é super mediatizada. Com tudo isso, os números são eloquentes. O Índice de Desenvolvimento Humano na Venezuela era em 2015 de 0,767, 71º lugar, entre 188 países. De 1990 a 2015, a expectativa de vida aumentou 4,6 anos. A saúde e a educação universais gratuitas continuam a ser prioridade, apesar da crise econômica e política.

Não se pode fazer da Venezuela, outro Chile. A experiência provou que bloqueios afetam sobretudo as populações civis, com efeitos que acabam por reverter contra os promotores. Cuba já provou e conhece bem as vias da resistência prática, concreta, quotidiana.

Nem os mais altos níveis de desinformação construída nos desviarão do internacionalismo que para nós é dever. O internacionalismo, dizia o Che, é a solidariedade de classe dos explorados.

Qual o caminho para sair da crise venezuelana?

À medida que os venezuelanos vão às urnas neste domingo, o país enfrenta uma escolha entre o aprofundamento da revolução e uma reviravolta imposta pela elite.

por George Ciccariello-Maher

Hugo Chávez votando em 2007. Wilson Dias / Wikimedia

Quando as revoluções estagnam, a confusão reina, e ambas são realidades palpáveis para a Venezuela hoje. Em meio a uma profunda crise econômica, política e agora institucional, muitos no terreno na Venezuela e ainda mais observadores do exterior não sabem o que pensar ou fazer. Mas ao invés de abandonar o processo bolivariano ao fazer eco das denúncias mainstream do governo de Nicolás Maduro como antidemocrático, repressivo e até autoritário, é precisamente nesses momentos difíceis que os revolucionários devem pensar com clareza e levar a frente.

Uma crise institucional

As causas da crise são muitas e suas explicações são bem conhecidas. A morte de Hugo Chávez em 2013 deixou uma cratera simbólica no coração da revolução bolivariana e coincidiu com um colapso nos preços mundiais do petróleo que limitou severamente o espaço de manobra de um governo de Maduro já vacilando para fora do portão. Aproveitando essa fraqueza, as elites conservadoras à frente da oposição apoiada pelos EUA foram para a ofensiva nas ruas em abril de 2013, protestos que deixaram onze mortos e iniciaram uma estratégia de tensão que continua quatro anos depois.

Ao invés de agir de forma decisiva desde o início, o governado Maduro sitiado optou por uma abordagem pragmática. Um sistema falido de controles cambiais que regem a distribuição de renda do petróleo nunca foi totalmente desmantelado. O resultado foi um ciclo de feedback destrutivo de especulação no mercado negro, o acúmulo e contrabando de gasolina e alimentos e uma explosão de corrupção já desenfreada na interseção dos setores público e privado. Confrontado com protestos de rua e escassez de alimentos, Maduro respondeu de forma errática, apoiando a produção de base por comunas ao mesmo tempo em que cortejava as empresas privadas em busca de alimentos nas prateleiras.

O turbilhão que se seguiu não era o que esperávamos. Como é frequentemente o caso, o caminho pragmático pareceu ser o mais seguro quando era de fato o mais traiçoeiro, e a hesitação de Maduro revirou espetacularmente quando a oposição teve uma vitória decisiva nas eleições da Assembléia Nacional de dezembro de 2015. O que se seguiu foi uma crise institucional plena em que a oposição procurou intensificar a crise, desestabilizar o governo e tornar o país ingovernável.

Tendo tomado um ramo do governo, as forças da oposição imediatamente exigiram os três, violando constantemente as decisões do Supremo Tribunal e descaradamente tentando derrubar o executivo. Eles continuam a encorajar protestos violentos nas ruas que deixaram mais de cem mortos - onde a causa é conhecida, a maioria foi morta diretamente ou indiretamente pelos próprios manifestantes. Esta não é a imagem da repressão do governo pintada pela mídia internacional e em um país onde 55 por cento dos venezuelanos continuam a aprovar Chávez e quase metade se opõem às táticas violentas da oposição, aqueles que procuram derrubar Maduro não desfrutam de uma grande legitimidade popular.

A mídia internacional tem desempenhado seu papel, enquadrando a questão como simplesmente uma questão de tempo: quando o presidente democraticamente eleito e legítimo será derrubado? Esqueça isso, mesmo em meio à crise, Maduro ainda é mais popular do que o mexicano Enrique Peña Nieto, Juan Manuel Santos da Colômbia e o não-eleito e ilegítimo presidente-golpista brasileiro Michel Temer. Esses detalhes importantes desaparecem no nevoeiro de uma implacável disputa na mídia, apoiada pela CIA e pelo governo Trump.

Qual caminho?

É difícil encontrar um caminho para a frente. Fala-se de diálogo - a panaceia liberal das panaceias -, mas ainda não está claro com quem o diálogo deve ocorrer, ou que tipo de soluções podem trazer. Embora possivelmente seja necessário parar a violência, sem soluções concretas para as contradições subjacentes ao petro-estado, esse diálogo simplesmente aliviaria a crise política à custa de resolver a crise econômica. A situação que prevalece não é o resultado de muito socialismo, mas muito pouco, e qualquer caminho que tente dividir a diferença entre socialismo e capitalismo sofrerá o pior de ambos os mundos.

No contexto desta aguda crise institucional, os venezuelanos vão às eleições neste domingo para eleger uma Assembléia Constituinte habilitada a revisar a Constituição da nação pela segunda vez desde o surgimento de Hugo Chávez e da Revolução Bolivariana. Nas eleições, os venezuelanos escolherão não apenas 364 representantes regionais, mas também 8 representantes indígenas e 173 representantes setoriais adicionais, incluindo trabalhadores, agricultores, deficientes, estudantes, aposentados e representantes de empresas, comunas e conselhos comunais.

Este processo está longe de ser perfeito e enfrenta muitos obstáculos, incluindo um debate jurídico não resolvido promovido por uma aparente contradição sobre quem pode convocar uma assembléia constituinte: é "o povo" (artigo 347) ou o presidente entre outros (artigo 348)? Alegando que Maduro violou o primeiro, mas se recusou a citar o último, a oposição ameaça boicotar as eleições dominicais e até mesmo obstruir fisicamente os lugares de votação. Depois de cortejar a ideia de chamar uma assembléia constituinte para minar o Chavismo, os líderes da oposição agora recuam sobre a ideia de uma assembléia que pode aprofundar o processo bolivariano em vez de revertê-lo.

A oposição sofreu as conseqüências desastrosas da abstenção eleitoral no passado: depois de boicotar as eleições da Assembleia de 2005, ela ficou sem uma voz na legislatura. Mas 2017 não é 2005, e a ebulição do início do chavismo deu lugar a uma crise profunda e sustentada que tem seus adversários à procura de um final para enterrar seus ganhos de uma vez por todas. Meses de bloqueios de ruas e pilhagens se desenvolveram em atentados e ataques de infra-estrutura em transportes públicos, hospitais, televisão estatal e, recentemente, instalações estatais de produção de leite. A oposição ameaçou nomear um novo governo em resistência e prometeu grandes confrontos neste fim de semana, incluindo uma possível marcha no palácio presidencial, como a que provocou o golpe de Estado de 2002 contra Chávez.

Ser desonesto sobre a Venezuela

Em circunstâncias tão difíceis, o que é revolucionário fazer? A Assembléia Constituinte não é perfeita, mas não estamos no terreno de soluções perfeitas. O apoio às cegas não é útil, mas nem o caminho oposto, o que podemos chamar - tomando emprestado uma frase de Lenin - uma "crítica acrítica" que se recusa a chegar ao coração das coisas e a compreender as mudanças revolucionárias como um processo dinâmico. Nada é mais difícil do que fazer uma revolução, e pouca coisa é mais fácil do que antecipar prematuramente o fracasso.

Em um artigo recente, Mike Gonzalez declarou a morte da revolução bolivariana: "Este projeto fracassou". Escusado será dizer que essa sugestão arrogante seria uma surpresa para aqueles que estão no terreno, ainda lutando por mudanças revolucionárias, precisamente porque não têm outra opção. Para um artigo intitulado "Ser honesto sobre a Venezuela", Gonzalez começa com uma estranha teoria da conspiração: que um ataque de helicóptero contra alvos do governo era realmente uma operação de falsa bandeira realizada pelo próprio governo. Infelizmente para ele, essa insinuação infundada - que ecoou pontos da conversa da direita - não terminou bem: menos de uma semana depois, Oscar Pérez apareceu em uma manifestação de oposição.

O objetivo de Gonzalez é revelar a "traição" por Maduro da Revolução, mas essa traição assume a forma de uma captura 22: o governo é ineficaz, mas se tenta agir, é autoritário; quando se defende de uma maneira muito menos pesada do que a maioria dos governos, seria repressivo; é fiscalmente irresponsável, mas criticado por se desesperar para projetos extrativistas como o Arco Minero; se não consegue preencher as prateleiras, é inútil, mas colaborar com companhias privadas para fazer isso é uma alta traição; e quando um partido socialista reconhecidamente problemático (o PSUV) atua de forma partidária - este é, afinal, o que os partidos revolucionários devem fazer - torna-se um "instrumento de repressão política".

Em meio a denúncias hiperbólicas do "saneamento sistemático da democracia, a demonização da dissidência", Gonzalez rejeita a Assembléia Constituinte de forma paranoica: "Não haverá debate, sem transparência", ele nos diz, sem necessidade de explicar. E para um socialista revolucionário, o autor parece manter a democracia liberal em alta estima, criticando de forma enganosa as "instituições lotadas" do Chavismo e considerando o governo "cada vez mais antidemocrático" sem especificar em que medida. Gonzalez afirma que o governo "impede o direito protegido pela constituição de protestar" - isso seria uma surpresa para aqueles cujos bairros não viram nada além de protestos durante meses.

Com pouco mais do que um aceno de cabeça para o imperialismo, capital global ou a brutalidade da oposição venezuelana, Gonzalez coloca tudo nos ombros de Maduro. A corrupção, portanto, aparece como uma política de estado sem mencionar as "briefcase companies" privadas que simplesmente levaram bilhões em fundos do governo antes de desaparecerem no ar. As prateleiras são deixadas vazias para falar a verdade de um projeto político fracassado, sem mencionar a sabotagem capitalista da produção. E Gonzalez aponta de modo crítico para o assassinato do cacique indígena Sabino Romero, embora não mencione que ele foi morto por ricos proprietários de terra. Os "ganhos do Chavismo" estão realmente escorregando, mas isso não nos absolve da tarefa de explicar o porquê.

Em última análise, para Gonzalez, as elites chavistas e a burguesia, que têm "alegremente conspirado" com elas são uma e a mesma coisa. Mas isso o deixa incapaz de responder a pergunta mais básica de todas: se eles são uma e a mesma coisa, então por que eles estão lutando uma batalha sangrenta nas ruas? A resposta é que, por imperfeita que seja, o governo de Maduro ainda representa a possibilidade de algo radicalmente diferente, já que os muitos revolucionários de base que continuam a apoiar o processo podem atestar.

Ao retratar uma constelação caótica de fatos sem explicar suas causas, ao culpar o governo e deixar a oposição e o imperialismo fora do gancho, a crítica de Gonzalez compartilha muito com seus adversários professos. Como a mídia mainstream, ele não nos conta quem é responsável pelas mortes nas ruas e, como a mídia mainstream, ele oferece tragédias descontextualizadas como prova do fracasso do governo. Mas, acima de tudo, como a mídia mainstream, ele apaga os mesmos revolucionários que ele alega representar: deixando quase totalmente fora dessa imagem estão as centenas de milhares lutando pelo socialismo no nível da base e tendo que tomar decisões difíceis - com consequências reais - em meio à crise do presente.

"Devemos apoiar os que estão lutando para reconstruir a base para uma sociedade genuinamente democrática", escreve Gonzalez. Para fazer isso, ele pode prestar atenção a José Miguel Gómez, um organizador revolucionário da Comuna Pío Tamayo em Barquisimeto, que tem lutado há muito tempo pelo poder comunal:

O governo não é o projeto bolivariano, que vai muito além da presidência - é por isso que eles não conseguiram derrotá-lo e por que ainda está nas ruas hoje. Precisamos continuar a resistir e a construir uma opção verdadeiramente revolucionária que possa transformar a própria estrutura do estado. A Assembléia Constituinte é um passo em direção a isso, mas também precisamos purificar o governo e as instituições, onde há muita corrupção e burocracia. Temos que arrancar o poder das forças armadas. Há muitas mafias financeiras - precisamos eliminar os controles cambiais e nacionalizar o setor bancário e o câmbio. A direita nunca será uma opção. Devemos ser críticos em relação ao governo e construir uma verdadeira alternativa capaz de governar.

Aqui, Gómez expressa muitas das mesmas críticas expressas pelos críticos do chavismo, mas ele os atormenta para uma visão revolucionária da mudança social e uma compreensão do que aconteceria se a oposição tomasse o poder.

A direita espera nas asas

Devemos ser claros sobre as apostas das próximas semanas e meses: a vitória para a direita significa, na melhor das hipóteses, austeridade e, na pior da hipóteses, uma guerra civil. Conhecemos isso porque sabemos exatamente quem são: a liderança da oposição é extraída dos setores mais reacionários das antigas elites, e a juventude mascarada nas ruas - como mostro em Building the Commune - é fruto de uma aliança perigosa com as forças do fascismo latino-americano sob a liderança do guru colombiano da morte, Álvaro Uribe. O retorno deles, que promete restabelecer o bom funcionamento do capitalismo, só o faria - como Marx insiste que sempre tenha sido - através dos meios mais brutalmente repressivos.

É claro que as aspirações antidemocráticas da oposição são expostas na linguagem da democracia. Uma recente "consulta" da oposição, realizada de forma inteiramente informal e sem o apoio oficial do conselho eleitoral, falou em defender a Constituição de 1999. Enquanto isso, pediu tacitamente às Forças Armadas que adotem um lado no conflito "apoiando as decisões da Assembléia Nacional" (um ramo do governo) e pediu "o estabelecimento de um governo de unidade nacional" através de eleições antecipadas - em clara violação das normas constitucionais.

Apesar das reivindicações da oposição sobre a repressão do governo, poucos podem esquecer a sangrenta retribuição exigida pela oposição durante o breve golpe de 2002, em que os líderes chavistas foram caçados e espancados, e sessenta foram mortos em menos de dois dias. O fato de que várias pessoas foram linchadas, queimadas até a morte e até mesmo mortas com argamassas caseiras nos últimos meses por se parecerem muito com chavistas (ou seja, com pele escura e pobre) é apenas uma amostra do que está por vir, se a campanha de desestabilização da oposição for bem sucedida.

Construindo uma verdadeira alternativa

Não existe uma compreensão coerente da revolução que não envolva a derrota de nossos inimigos à medida que construímos uma nova sociedade. A corrupção, a burocracia e a complacência das novas elites são todas pragas a serem combatidas e derrotadas - mas simplesmente criticar estas não faz uma revolução. Não podemos derrotar tais perigos sem armas, o mais importante dos quais são o peso das massas nas ruas, as lutas populares de base para a autodeterminação e o controle do território e da produção. Enquanto o governo bolivariano - de Chávez a Maduro - ajudou a afiar essas armas, também confiou nelas para sua própria sobrevivência.

As revoluções são feitas pelas massas em movimento, dominadas por ideias revolucionárias. Nenhum indivíduo foi mais eficaz para ajudar a colocar as massas venezuelanas em movimento do que Hugo Chávez. E, no entanto, esse movimento colide inevitavelmente com obstáculos em seu caminho para ser combatido e superado, desde as realidades econômicas até os ferozes inimigos da mudança. Nesse processo, e mesmo sem ele, um certo cansaço lento é inevitável. Isso passa pelo desgaste conhecido na Venezuela hoje - um desgaste do fervor revolucionário, especialmente quando os tempos são difíceis.

Para o revolucionário trinitário-tobagense C.L.R. James, existia um vazio inegável entre a liderança jacobina da Revolução Francesa e a fúria popular dos sem-culottes. Os primeiros, como Robespierre, eram autoritários; os últimos, democratas radicais. Mas eles coincidiram momentaneamente e estrategicamente em direção ao objetivo de derrotar um inimigo brutal no campo de batalha: "Nunca antes de 1917 as massas tivessem uma influência tão poderosa - pois não era mais do que influência - para qualquer governo".

Ninguém afirmaria que as massas venezuelanas estão no poder hoje, mas nos últimos vinte anos as viu se aproximando mais do que nunca. Seus inimigos e os nossos estão nas ruas, ardendo e saqueando em nome de sua própria superioridade de classe, e sabemos exatamente o que eles farão se tiverem sucesso. O único caminho a seguir é aprofundar e radicalizar o processo bolivariano através da expansão do socialismo radicalmente democrático incorporado nas comunas de base da Venezuela, que ajudam a superar as contradições econômicas do petro-estado ao expandir a consciência política participativa.

A única maneira de sair da crise venezuelana hoje é decisiva para a esquerda: não no nem-nem de "que se vayan todos", mas na construção de uma alternativa socialista real que surgirá ao lado do governo Maduro, se possível, mas sem ele, se necessário.

27 de julho de 2017

Na linha de frente síria, a batalha contra o Daesh está chegando ao seu crescendo

O Daesh está enfrentando agora uma derrota total em Qalamoun, e o exército sírio - no Líbano - o Hezbollah e o exército libanês desejam sinceramente alcançar este objetivo

Robert Fisk


Recentemente capturada por combatentes sírios e do Hezbollah, a fortaleza do Daesh fica a mais de 6.000 metros acima do nível do mar Nelofer Pazira

Tradução / Tropas sírias estão agora instaladas em posições do lado libanês da fronteira entre os dois países, em sua batalha para destruir o Daesh nas altas montanhas do Qalamoun. Corpos apodrecem nas encostas da montanha por aqui, enquanto o Hezbollah libanês – que combate agora dentro da Síria – prepara-se para um confronto final contra os terroristas, que hoje estão cercados num pico de pedra preta ao norte. Do alto da montanha Karra, 2.100 metros acima da fronteira sírio-libanesa, pude ver soldados sírios acampados nos picos das duas montanhas – dentro do Líbano.

O comandante sírio em Qalamoun, general Median Abad, diz a verdade sem hesitar. "Sim, temos soldados nossos em dois pontos dentro do Líbano – acima da estrada da fronteira pela qual o Daech costumava entrar na cidade libanesa de Ersal. Nossos homens estão nas montanhas libanesas de al-Sharqia e al-Valilal. Veem-se daqui as tendas deles". Verdade. Do outro lado de uma ravina (wadi) estreita que nos separa do Líbano, posso ver várias tendas cinzentas dos militares sírios espalhadas pelos picos das duas montanhas libanesas. O general confirma que está em comunicação com o exército libanês – cujo tanque atira contra o Daesh que ele ouve ao longe pelos vales – através do Hezbollah, cujas forças uniram-se a ele ao atacar contra al-Karra.

Andar por aquela montanha depois da batalha que acabou há apenas cinco dias é experiência perturbadora. O fedor dos corpos do Daesh insepultos, o ar da montanha batendo nos sacos de areia nas trincheiras vazias e os montes de terra feitos pelo Daesh antes da última refrega, e a rede de túneis – escavados na rocha viva pelos terroristas, na vã esperança de se proteger contra os ataques aéreos dos sírios – mostram bem a fúria dos combates. Nenhum terrorista do Daesh sobreviveu – o que fala por si – mas um vídeo notável filmado pelos vitoriosos durante a luta mostra um guerrilheiro do Hezbollah dizendo a um terrorista do Daesh, que está morrendo, coberto de sangue: "Que Deus te abençoe" – a benção de um combatente xiita a um combatente sunita moribundo.

Sobre a carroceria de uma caminhonete, um oficial sírio abre os sacos caqui que transportam três mortos do Daesh tentando identificar alguém, sem sucesso. Os cadáveres estão inchados ao calor de 46º, escuros por causa da putrefação, um deles só de cuecas. Soldados sírios e combatentes do Hezbollah olham à distância de poucos passos, imperturbáveis, muitos com a mão sobre o nariz. Estão numa operação conjunta contra os terroristas do Daesh – o centro de comando está numa construção térrea na vila de Fleita – e dizem que só tiveram feridos na batalha. Médicos ali perto têm uma tenda onde se lê, num dos lados "Crescente Vermelho Iraniano" – mas não parece haver iranianos por aqui. 

"O exército sírio e o Hezbollah combateram por esse topo de montanha, ao lado de forças da defesa nacional [durante parte do tempo], mas foram as Forças Especiais Sírias e do Hezbollah que conduziram a batalha", diz o general Abad, 48 anos. "Para nós, o Hezbollah é uma escola de combate. Aprendemos com a experiência deles e nos ensinamos uns aos outros, estávamos literalmente treinando lado a lado, na luta, e, claro, tínhamos nossa artilharia." Há rifles e armamento antiaéreo sírio pelo chão nas montanhas – e um motorista exímio conseguiu dirigir um tanque de combate fabricado na Rússia, montanha acima, pela trilha de rochas soltas, até o topo de al-Karra.

O comandante do Hezbollah libanês, de barba curta, grisalho e de óculos, do sul do Líbano, que diz ter 37 anos – conheço bem a cidade dele, mas desconfio que seja mais velho do que diz – sentou-se à minha direita durante o almoço dos soldados numa barraca, refeição de algum modo temperada pelo cheiro dos cadáveres a poucos metros de distância e pela insistência de um oficial de inteligência do Hezbollah que filmou cada garfada de arroz e galinha que enfiei na boca. O que o Hezbollah em Beirute, que me conhece, fará com esse vídeo absurdo, não tenho ideia.

Mas os soldados sírios e do Hezbollah sentaram juntos em torna da tenda e pareciam conhecer-se bem, e o oficial do Hezbollah e seus soldados partilhavam um denso e intimidante chá "mate" – preparado com folhas argentinas – obrigatório em todas as refeições de militares sírios. Vários combatentes do Hezbollah portavam rifles de precisão novos, mas a maioria estavam armados com a conhecida Kalashnikov usada pelo exército sírio. Os uniformes do Hezbollah, com estampa de camuflagem marrom claro são muito diferentes das roupas de combate verde e marrom dos sírios.

Ao norte, está a última fortaleza do ISIS. Os que a defendem estão em tendas negras e, logo ao sul, um pouco abaixo, os homens do Hezbollah que se preparam para atacar a fortaleza distribuíram suas tendas brancas pela encosta da montanha. Vai haver mais fogo de artilharia e mais ataques aéreos nos próximos dias, segundo o general Abad. O ninho que implantou na montanha será local perfeito para assistir de cima ao ataque; al-Karra está 2.200m acima do nível do mar – os acampamentos dos israelenses no Monte Herman nas Colinas do Golan tem apenas 600m, e Abad concorda que os sírios jamais sairão de al-Karra – em território sírio, é claro, agora que se instalaram nesse pico. Antenas de rádio militares já se agitam como trigo ao vento acima das rochas.

Do lado sudoeste posso ver a cidade libanesa de Ersal – invadida por pouco tempo pelo ISIS e pela Frente Nusrah. Alguns dos militares libaneses que defendiam a cidade foram degolados; outros, pelo menos nove, continuam prisioneiros em algum lugar dessas montanhas, provavelmente do lado libanês da fronteira.

Soldados libaneses percorreram campos sírios de refugiados perto de Ersal. Em sua mais recente operação, dois homens se autodetonaram, mas quatro outros morreram quando estavam sob custódia dos libaneses, por efeito – como informou o exército em Beirute – de "problemas médicos preexistentes". História provável, como se diz, mas nem libaneses nem sírios deram muita importância.

O ISIS sofre agora derrota total em Qalamoun, e o exército sírio e o Hezbollah e o exército libanês aplicadamente trabalham para que assim seja. A eliminação deles porá fim à ameaça que o ISIS representa contra a linha de suprimento do Hezbollah ao longo da estrada Hermel-Baalbek dentro do Líbano e restaura a soberania libanesa segura sobre a cidade de Ersal. Diplomatas ocidentais observaram essa última batalha a partir do lado libanês da fronteira, mas claro que não podem vir à Síria – e aparentemente nem percebem que soldados sírios estão em território libanês, mesmo que só umas poucas centenas de metros além da fronteira.

Única testemunha ocidental do lado sírio da luta na montanha é The Independent, e o general Median Abad oferece uma descrição de especialista em tática, da paisagem. Para o sul, em torno das cidades de Zabadani, Bloudan e Madaya, houve um cessar-fogo entre sírios de um lado, e Frente Nusrah e aliados, do outro, conversas para "reconciliação" que talvez devolvam as cidades outra vez ao controle sírio. Se forem bem-sucedidos – e se o iminente ataque ao ISIS a partir de al-Karra sair vitorioso –, então toda a fronteira sírio-libanesa estará limpa dos terroristas islamistas que frequentemente fugiam para o Líbano, para não serem presos pelos sírios, e usavam o Líbano como rota de suprimento militar – via Ersal – para a Síria.

A área em torno de Ersal ("Jurd") – terra nua perto da cidade – cobre 150 km2 de pedra, cascalho e montanhas açoitadas pelo vento que fica entre Líbano e Síria, sobre os dois lados, separados pela suja linha de fronteira que lá está, 500m abaixo de nós.

É trilha traiçoeiramente pacífica, traçada – claro – em alguma sala de desenho francesa, quando as autoridades do mandato francês dividiam o Líbano da Síria, no início dos anos 1920s. Talvez fizesse sentido em algum salão parisiense, mas lá no alto da montanha al-Karra, parece invenção quixotesca, cheia de armadilhas políticas e militares. Talvez fosse esse o plano dos franceses, tantas décadas atrás.

O general Abad tem visão menos sutil dos eventos correntes. O presidente Bashar al-Assad percebeu logo o "plano internacional" para destruir a Síria, e o Hezbollah e a Resistência – motivo pelo qual a coordenação começou entre Síria, Irã e o Hezbollah, explicou ele. Israel sempre foi o "principal apoiador dos terroristas" – e por isso atacou forças sírias e do Hezbollah – e por isso Qatar e Arábia Saudita ajudaram na "conspiração". "Ouvimos vozes turcas e sauditas e Qatari nas rádios terroristas, também afegãos falando muito mal o árabe" – diz o general. "Depois da vitória do Hezbollah sobre Israel no Líbano em 2006, muita gente passou a querer desarmar o Hezbollah, como parte do projeto para um "novo" Oriente Médio da [então secretária de Estado dos EUA] Condoleezza Rice. Havia gente no Líbano que falava de desarmar o Hezbollah, e outros tentavam tirar a Síria da "trilha da resistência". Mas nós lutamos contra tudo isso – e agora combatemos juntos contra o Daech."

Mas o ISIS ainda lutará. Da sua última fortaleza na montanha negra ao norte, ainda fazem voar seus drones miniaturas para o sul, em direção às linhas sírias e do Hezbollah. Mais para sudeste, os caminhões do Hezbollah e da Síria escalam a estrada da montanha, e passam por agricultores locais e os filhos, que colhem cerejas que pendem das cerejeiras carregadas. E oferecem cerejas aos soldados que passam. "O governo os ajudou a plantar essas árvores. – Por que apoiavam o Daech, quando estava aqui?" – pergunta Abad, desalentado.

Sim, as cerejas de al-Karra etsão maduras e doces - e perigosas.

26 de julho de 2017

Medo e perturbação em Tel Aviv: estará Israel a perder a guerra na Síria?

Ramzy Baroud

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Israel, que desempenhou um papel bastante arriscado na guerra da Síria, desde 2011, está a ficar furioso por constatar que o futuro do conflito não se desenrola como gostaria.

A guerra na Síria, que dura há seis anos está a evoluir para um novo patamar, talvez o último. O regime sírio está a consolidar o controle sobre a maior parte dos centros populacionais, enquanto o ISIS perde rapidamente terreno – e em toda a parte.
As áreas evacuadas pelo grupo militante, em rápida desintegração, estão prestes a ser tomadas. Há muitas regiões fortemente contestadas, almejadas pelo governo de Bashar al-Assad em Damasco e seus aliados, por um lado e, por outro, os vários grupos de oposição anti-Assad e os seus apoiadores.

Com o ISIS totalmente derrotado no Iraque – com um custo de 40.000 vidas humanas, só em Mosel – os partidos da guerra estão a movimentar-se para o oeste. Milícias xiitas, encorajadas pela vitória no Iraque, têm estado a ser empurradas para o oeste até à fronteira Iraque-Síria, convergindo com forças leais ao governo sírio que estão do outro lado.

Ao mesmo tempo, os primeiros passos para um cessar-fogo permanente estão a ser dados e têm sido frutuosos, em comparação com muitas tentativas falhadas no passado.

Na sequência de um acordo de cessar-fogo entre os Estados Unidos e a Rússia, alcançado no dia 7 de julho na cimeira do G-20 em Hamburgo, na Alemanha, três províncias no sudoeste da Síria – que fazem fronteira com a Jordânia e os territórios dos Montes Golan, ocupados por Israel – estão agora relativamente calmas. O entendimento parece que irá estender-se por todo o território.

O governo de Israel deixou claro aos EUA que estava desagradado com o acordo, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, tem estado a desenvolver grandes esforços para boicotar o cessar-fogo.

Os maiores medos de Netanyahu estão, talvez, a concretizar-se: uma solução para a Síria que permita uma presença permanente do Irã e do Hezbollah no país.

Nas primeiras fases da guerra, tal possibilidade parecia remota; mas as mudanças constantes nos resultados dos brutais combates na Síria tornavam a discussão completamente irrelevante.

Mas as coisas agora mudaram.

Apesar das afirmações em contrário, Israel esteve sempre envolvido no conflito da Síria. Israel repetia declarações de que “mantém uma política de não intervenção na guerra civil da Síria” e só os loucos meios de comunicação do sistema dos EUA se faziam eco destas posições.

Israel não só esteve envolvido na guerra, como também não participou nos esforços humanitários, nem estendeu uma mão solidária aos refugiados sírios.

Centenas de milhares de sírios morreram nesta guerra sem quartel; muitas cidades e aldeias foram totalmente destruídas e milhões de sírios tornaram-se refugiados.

Enquanto o frágil e pobre Líbano abrigou mais de um milhão de sírios, todos os países da região e muitas nações em todo o mundo receberam também refugiados sírios. Exceto Israel.
Até uma simbólica proposta do governo, no sentido de acolher 100 órfãos sírios, foi finalmente rejeitada.

Porém, a natureza do envolvimento de Israel na Síria está a começar a mudar. O cessar-fogo, o crescimento do envolvimento da Rússia e a posição inconsistente dos EUA obrigou Israel a redefinir o seu papel.

Um sinal dos tempos foi as mais frequentes visitas de Netanyahu a Moscou, para persuadir o reforçado presidente russo Vladimir Putin dos interesses de Israel.

Moscou pressiona com cautela, ao contrário de Washington, e não concebe os interesses de Israel como algo superlativo. Quando Israel abateu um míssil sírio usando um míssil de flecha, no passado mês de março, o embaixador de Israel em Moscou foi chamado, para ser repreendido.

O castigo de Israel aconteceu apenas alguns dias depois da visita de Netanyahu a Moscou e de “deixar claro” a Putin que quer “evitar qualquer situação na Síria que permita ao ‘Irã e seus aliados ter uma presença’ militar no país”.

Desde o início do conflito, Israel quis aparecer como se controlasse a situação, pelo menos no que toca ao conflito no sudeste da Síria. Bombardeou alvos na Síria quando achou oportuno e, de vez em quando, dizia que mantinha contatos com certos grupos da oposição.

Em comentários recentes perante funcionários europeus, Netanyahu admitiu ter atacado caravanas iranianas na Síria “dezenas de vezes”.

Mas, sem um plano conjunto Israel-EUA, Israel aparece agora como um parceiro fraco. Tendo tomado consciência disso tardiamente, Israel ficou cada vez mais frustrado. Depois de anos a fazer lóbi, a administração Obama recusou-se a encarar os objetivos de Israel na Síria como a linha condutora das políticas do seu governo.

Tendo falhado também esse apoio do recém-eleito presidente Donald Trump, Israel está agora a tentar desenvolver a sua própria estratégia independente.

A 18 de junho, o Wall Street Journal referiu que Israel tinha estado a dar “ajuda secreta” aos rebeldes sírios em “dinheiro e ajuda humanitária”.

A 20 de julho, o New York Times dizia que se esperava que um grande embarque de ajuda israelense desse uma “centelha de esperança” aos sírios.

Escusado será dizer que dar esperança aos sírios não é uma prioridade israelense. Além dos bombardeamentos frequentes e da recusa em acolher refugiados, Israel ocupou os Montes Golan sírios, em 1967 e anexou ilegalmente o território, em 1981.

De fato, o objetivo de Israel é infiltrar-se no sul da Síria para criar um tampão contra os iranianos, o Hezbollah e outras forças hostis.

Na chamada “Operação Bom Vizinho”, Israel está a trabalhar diligentemente para construir laços com vários chefes de tribos e grupos influentes naquela região.

Entretanto, o plano israelense aparenta ser uma fraca tentativa de recuperação, já que a Rússia e os EUA, além dos seus aliados regionais, parecem estar a convergir para um acordo independente dos próprios objetivos ou, mesmo, preocupações de segurança de Israel.

As autoridades israelenses estão furiosas e sentem-se especialmente traídas por Washington. Se as coisas continuarem a ir nesta direção, o Irã poderia brevemente ter um caminho seguro ligando Teerã a Damasco e Beirute. O chefe do Conselho de Segurança Nacional israelense, Yaakov Amidror, ameaçou, numa recente conferência de imprensa, que seu país está preparado para agir sozinho na Síria, contra o Irã.

Rejeitando veementemente o cessar-fogo, Amidror disse que o exército israelense “intervirá e destruirá todas as tentativas de construir infraestruturas iranianas permanentes na Síria”.

As declarações igualmente carregadas de Netanyahu, durante a sua visita europeia, também apontam para a crescente frustração em Tel Aviv.

Isto contrasta fortemente com os dias em que os neoconservadores em Washington geriam o Oriente Médio através de uma visão que era – em grande parte, se não totalmente –, consistente com os impulsos israelenses.

O famoso documento de estratégia elaborado por um grupo de estudo dos EUA liderado por Richard Perle, em 1996, é pouco utilizado agora, já que a região não é mais modelada por um ou dois países.
O documento intitulado “Uma clara ruptura: uma nova estratégia para garantir o domínio” via um mundo árabe hostil magistralmente gerido pelos EUA e Israel.

Por um fugaz momento, Tel Aviv teve esperança de que Trump trouxesse mudanças à atitude dos EUA.

De fato, houve esse movimento eufórico em Israel, quando a administração Trump atacou a Síria. Mas a natureza limitada da luta deixou claro que os EUA não tinham planos para uma mobilização militar maciça similar à do Iraque, em 2003.

A excitação inicial foi eventualmente substituída pelo cinismo, como o expressado por este título no Monitor: “Netanyahu avisa Trump sobre a Síria”.

Em 1982, aproveitando os conflitos sectários, Israel invadiu o Líbano e instalou um governo liderado pelos seus aliados. Aqueles dias já se foram há muito.

Enquanto Israel permanece militarmente forte, a própria região mudou e Israel não é o único poder a possuir todas as cartas.

Além disso, a liderança global recuada dos EUA sob Trump torna a dupla israelo-americana menos efetiva.

Sem aliados alternativos suficientemente influentes para preencher a lacuna, Israel fica, pela primeira vez, com opções muito limitadas.

Emmanuel Macron não é seu amigo

Emmanuel Macron é um amante do Vale do Silício e odeia os sindicatos. Um centrista da terceira onda, ele não é um baluarte contra a extrema-direita.

Branko Marcetic

Jacobin

Emmanuel Macron em maio de 2017. Jeso Carneiro / Flickr

Tradução / Se você vive em alguma parte da realidade, reconhece que o mundo atual está testemunhando o ressurgimento do liberalismo e da tolerância graças a uma determinada trupe de líderes americanos e europeus.

Hillary Clinton está liderando a “resistência”, enquanto o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau e a chanceler alemã, Angela Merkel, estão na linha de frente lutando contra a invasão da barbárie de direita. (Não se preocupe, é claro que Merkel é uma conservadora que se opõe ao casamento gay e passou anos levando a Grécia à pobreza e que Trudeau combina a política energética de Donald Trump com a política de venda de armas de Donald Trump.)

O último recruta para esta linha de supostos “amigos do mundo real” é o líder francês Emmanuel Macron, que na corrida presidencial de maio ganhou de Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (que não é mais anti semita, ela insiste). Desde então, Macron tem sido objeto de admiração de liberais do mundo inteiro, tendo especialistas e observadores que veneram sua coragem de enfrentar Trump e Vladimir Putin, além de rejeitar a xenofobia a la Le Pen.

Como Trudeau e Obama, Macron é jovem, bonito e carismático. E, assim como Clinton (e particularmente Trudeau), ele abraçou mostras simbólicas do liberalismo social, ao mesmo tempo que se posicionou explicitamente como um obstáculo contra a extrema direita. Tudo isso ajudou a tornar turvos os elementos mais desconcertantes de suas crenças, em particular o seu firme apoio às reformas econômicas que podem levar a França a um tipo de livre-mercado ainda mais profundo.

Nesse sentido, podemos pensar em Macron como uma versão atualizada e francesa de Bill Clinton e Tony Blair, com uma quantia da nova geração de terceira via. Ele se coloca conscientemente como o “outsider” que romperá com a política comum em defesa da decência e da democracia – e ele fez tudo ao serviço da implementação de uma agenda econômica de direita.

O “Insider”

“A França está paralisada devido às tendências da elite de se auto-servir”, Macron disse em um comício em abril. “E eu vou contar um segredo: eu sei porque já fui parte dela.”

Macron está certo em certa medida: de fato ele fez parte da elite, mas é difícil sustentar que ele saiu. Em 2004, Macron se formou na École Nationale d’Administration (ENA), uma universidade de elite para funcionários públicos.

Nos Estados Unidos existe a Ivy League. No Reino Unido tem Oxbridge e Eton. Mas ninguém dá crédito para a ENA, que já formou quatro presidentes franceses e oito de seus últimos dezesseis primeiros-ministros – sem citar os diversos funcionários públicos e ministros (muitos dos ministros de Macron se formaram na ENA). Em 2012, quatro presidenciáveis tinham sido formados pela ENA.

Depois de se formar, Macron naturalmente entrou para o governo, ganhando um cargo de elite reservado para os melhores graduados na Inspeção Geral de Finanças, órgão fiscalizador do Ministério da Economia. Em 2007, o governo de Nicolas Sarkozy o escalou para trabalhar na “Comissão Attali”, um painel de reforma econômica cujo relatório final ele ajudou a redigir.

No mundo incestuoso de governos e negócios, os contatos que Macron fez no governo se mostraram úteis para trilhar sua carreira na iniciativa privada. Sendo um filósofo formado sem experiência no ramo financeiro, Macron conseguiu um emprego na Rothschild, um dos principais bancos da França. De acordo com o Financial Times, foi o amigo e inspetor financeiro Alain Minc que conseguiu uma entrevista para ele.

Os contatos de Macron no governo atuaram no lugar de sua falta de conhecimento financeiro, levando-o para as alturas. Como disse o Wall Street Journal, ele foi recomendado como um danseur mondain, “uma pessoa única com muitos contatos”, de acordo com um membro da equipe, que poderia usar seus contatos para conseguir trabalho para a empresa. O acordo que fez a fortuna de Macron – a compra de uma filial da farmacêutica Pfizer por $12 bilhões em 2012 – foi facilitada pelo fato do presidente da Nestlé ter participado da “Comissão Attali”.

Enquanto estava na Rothschild, Macron trabalhou na vitoriosa campanha presidencial de François Hollande de 2012, pela qual ele foi premiado por Hollande com o cargo de secretário-geral adjunto. Dois anos depois, ele foi indicado como Ministro da Economia, período durante o qual ele se assegurou de garantir uma publicidade constante para si mesmo (algo pelo qual Hollande o provocava individualmente). Então, em 2016, sentindo uma oportunidade, ele lançou um novo grupo político chamado En Marche, um esforço transparente para estabelecer as bases para uma campanha presidencial. Hollande e seu grupo interno viram isso como um tapa na cara, mas era completamente previsível para aqueles que conheciam Macron.

“Ele sempre quis fazer parte da política, ser eleito” disse Gaspard Gantzer, um assessor de Hollande que estudou na ENA com Macron. “Ele falava disso o tempo todo”. Quando um colega de classe da ENA perguntou a ele como se via em trinta anos, ele respondeu “como presidente da República”.

A vida adulta de Macron se baseou naquilo que é, em essência, uma fábrica de políticos. Servir oito anos no governo, trabalhar quatro anos para um banco multinacional com bons contatos em que ele regularmente aprofundava seus contatos com o governo – tudo antes de se tornar presidente. Se o establishment tentou “matá-lo”, o fez com carinho.

“Ao mesmo tempo”

Durante a campanha, não era segredo que Macron queria ser um “Obama francês”. Ele demonstrava isso publicamente. Macron fez uma campanha estilo Obama, que exaltava positividade, esperança, otimismo e unidade, tentando se apresentar perante algum tipo de cenário de zona fantasma fora do espectro ideológico.

“Eu quero ganhar um voto de confiança”, ele disse à revista Time. “Quero convencer os franceses que um projeto positivo e progressista é a melhor saída para nossos desafios”.

Os seus adversários reclamaram que ele monopolizava as capas de revistas brilhantes com um discurso vazio. Ele criticava Le Pen por sua retórica de ódio, se distanciava orgulhosamente de Trump (“eu não quero construir um muro... Vocês se lembrar da Linha Maginot?” ele brincava) e cautelosamente evitava proclamar políticas específicas (quando perguntaram qual seria sua resposta para a crise dos refugiados, ele respondeu, sem entrar em detalhes “eu almejo um asilo político que seja humano e eficiente”).

Ele dizia que seu movimento não era “nem de direita nem de esquerda” e ganhou uma reputação por usar incessantemente a frase “ao mesmo tempo”.

No entanto, para seus aliados, isso não era prova de seu vazio, mas sim de seu intelecto. De fato, uma outra característica notável da marca Macron é de que ele é um tipo de Jimmy Neutron francês, um garoto gênio cuja inteligência formidável é incompreensível para meros mortais. Suas declarações de “ambos os lados” não era uma forma calculada de evitar tomar lado, mas um reflexo de sua “preferência pelo pensamento complexo”, afirmou o Le Monde.

“Emmanuel Macron nunca foi uma criança como as outras”, disse a jornalista Anne Fulda, que escreveu a biografia Emmanuel Macron: Um Jovem Perfeito. Ao explicar como ela se apaixonou por ele, sua esposa diz que ela foi “completamente subjugada pela inteligência desse jovem” cuja “mente é tão cheia e perfeita” e cujas “capacidades são completamente além das de qualquer ser humano normal”. Em particular, ela disse a um amigo que se sentia “trabalhando com Mozart”.

Em seu livro, Macron descreve como costumava passar horas estudando história, geografia e gramática com sua avó desde os cinco anos de idade; um de seus professores disse que Macron “tinha um alto nível de inteligência, acima da média, com a capacidade de absorver e interpretar conceitos complexos e contraditórios, integrando-os com suas próprias ideias”.

Este perfil o acompanhou até a presidência: Macron ignorou o costume de quatro décadas de realizar uma conferência no Dia da Bastilha, porque o seu “processo de pensamento complexo presta mal” a este formato. Alguns desses pensamentos complexos? Que o antissionismo é uma “reinvenção do antissemitismo” e que os problemas na África são “civilizatórios”.

Não à esquerda, mas à direita

Deixemos de lado o intelecto aparentemente demagogo de Macron e sua crença em estar acima das preocupações político-ideológico dos mortais. O que ele realmente defende? Um programa convencional de terceira via, aparentemente.

Apesar de ser ex-membro do Partido Socialista, Macron passou a última década tentando fazer a França se mover para a direita. A “Comissão Attali” informou que ele ajudou a elaborar uma proposta de “ampla liberalização da economia”, nas palavras da The Economist. As suas recomendações incluíam desregulamentar profissões como taxistas e farmacêuticos, além de reduzir as taxas de previdência social pagas pelos trabalhadores ao passo em que aumentava impostos.

Antes de ser nomeado, Sarkozy tentou convencer Macron a se juntar à sua equipe. Porém, Macron, sempre oportunista, deixou explícito que apostava que Hollande seria presidente em 2012. Um ex-conselheiro de Sarkozy percebeu que apesar de Macron se declarar de centro-esquerda, “intelectualmente eu não vejo bem nada que nos distancia, pelo menos em assuntos econômicos”. Posteriormente o jornal conservador Le Figaro o classificou em primeiro lugar em sua lista dos “cem líderes do amanhã”.

No entanto, seria no governo Hollande que Macron ganharia a reputação de cópia de Tony Blair e pressionaria o presidente a adotar medidas econômicas de direita. Não é segredo que Macron via as políticas trabalhistas francesas como um obstáculo a ser desmantelado. Ele reclamava que “acumular direitos trabalhistas é uma armadilha que se acaba se tornando um obstáculo para os desempregados”. Ele disse que a França precisa “mudar o modelo social recheado de proteções formais para afrouxar o que estrangula a economia” e argumentou que “ao proteger demais, nós acabamos deixando de proteger”. Ele reconheceu que as reformas “provavelmente serão dolorosas”, mas que “a França sairá vitoriosa.”

Dessa forma ele persuadiu Hollande a abandonar a proposta de cobrar um imposto de 75% sobre aqueles que ganham mais de €1 milhão, dizendo que isso faria a França se tornar uma “Cuba sem sol”. Em seu primeiro dia, ele causou um tumulto ao insinuar que poderia deixar as empresas alterarem a jornada de trabalho de 35 horas por semana. Ele quis alterar os benefícios dos desempregados, irritando os sindicatos.

Ele ajudou a convencer Hollande a adotar o “Pacto de Responsabilidade” em 2012, que negociou uma redução de €50 bilhões nos gastos públicos ao passo que estabelecia um desconto de €40 bilhões em impostos para as empresas. Para tentar evitar uma “década perdida”, Macron e sua cúmplice alemã também divulgaram um relatório em 2014 pedindo um “New Deal”.

Mas não era o “New Deal” do seu avô. O relatório alertava que “a tamanha ineficiência do governo” era “um problema que precisava ser resolvido”. O relatório pedia a flexibilização da jornada de 35 horas semanais, tornando os contratos abertos mais atrativos e contratos fixos menos atrativos, alterando a frequência de negociação salarial, vinculando o salário mínimo à produtividade ao invés da inflação e permitindo que as empresas pudessem introduzir a “flexibilização” em tempos de “maior competitividade” e não somente durante uma recessão.

Essas iniciativas culminaram na “Lei Macron” de 2015. Entre outras coisas, a nova legislação desregulamentou certas indústrias, permitindo o trabalho aos domingos e facilitando a demissão de trabalhadores. Quando protestos de massas ocuparam as ruas, os apoiadores levaram a lei ao parlamento – não uma, mas duas vezes – usando um mecanismo constitucional questionável.

As controversas medidas faziam parte de uma visão mais ampla de economia de Macron. Em 2014 ele explicou que “nós não retornaremos aos Trinta Gloriosos” – os anos de ouro na França pós Segunda Guerra Mundial – “com os mesmos empregos e as mesmas empresas”. Ao contrário disso, “as pessoas jovens vão vivenciar de dez a vinte mudanças em seus trabalhos, elas vão trabalhar mais, os seus salários não vão aumentar, não o tempo todo.”

Esta é uma visão de uma economia uberizada, uma visão que pessoas como Macron consideram excitante e inovadora, enquanto outros – digamos, os trabalhadores – podem ver como distópica e horripilante. É compatível com a ideologia de Macron. Ele lamentaque empreendedores frequentemente tenham “uma vida mais dura que os empregados” porque “podem perder tudo e têm poucas garantias”. A versão do Macron sobre a esquerda se vincula a “recriar as condições de investir, produzir e inovar.”

Macron disse que quer que a França “pense e aja como uma startup” e que sua inspiraçãoé o Vale do Silício – um lugar que cria abusos no trabalho de forma desenfreada, desigualdades insustentáveis e péssimas condições de trabalho na mesma medida em que cria inovação e “positividade”.

Não é de se admirar que Macron tenha uma relação ruim com os trabalhadores. Durante a sua campanha, em um subúrbio controlado pelos comunistas, os sindicalistas jogaram um ovo nele e mandaram ele “se ferrar”. Ao visitar uma fábrica que estava demitindo muitas pessoas, uma mulher gritou para Macron que lamentava não ter trabalho. Macron respondeu que era “importante não sentir raiva e estar aberto a novas perspectivas”.

Em outro acidente mais infame, durante uma visita a uma escola de Lunel, Macron entrou em uma briga com manifestantes que protestavam contra as reformas trabalhistas do governo socialista. Macron disse a um professor de 70 anos que, se ele estava preocupado em ficar desempregado, ele devia abrir o seu próprio negócio. Quando um desempregado de 21 anos disse a Macron que não tinha condições de comprar um terno bonito como o dele, ele respondeu que “a melhor forma de comprar um terno é trabalhando por um”.

Macronismo em ação

Fazer campanha é uma coisa, governar é outra. Então vamos lá: o que Macron fez desde que chegou à presidência?

Mantendo seu compromisso com o neoliberalismo e com um modo de fazer política a partir de compromissos ao invés de laços partidários e ideológicos, Macron montou uma equipe de governo com 50% de mulheres, além de dividi-lo entre direita e esquerda. De forma orquestrada, no entanto, tanto seu Ministro da Economia como seu Ministro de Contas Públicas estão bem à direita. De acordo com o Telegraph, o primeiro quer a “privatização dos escritórios da França, o fim de empregos subsidiados e o corte de direitos sociais.”

Algumas das propostas de Macron não são tão ruins, como limitar a 12 o número de alunos nas salas de aula de “zonas de educação prioritária” e dar um vale de €500 para jovens de 18 anos comprarem livros ou terem qualquer outro tipo de acesso à cultura. Ele também quer acabar, até 2040, com a venda de carros a petróleo e diesel e introduzir representações proporcionais no parlamento.

Outras não são tão boas. Apenas 16 dias após assumir a presidência, Macron começou uma consulta sobre reformas trabalhistas. Sua intenção era ir ainda mais longe que as reformas anteriores, incluindo retomar pontos que haviam sido descartados na Lei Macron de 2015 e propostas de seu “New Deal” de 2014. As medidas incluíam limitar o pagamentos por demissões sem justa causa, permitir que acordos internos se sobreponham à lei, reduzir o tempo em que os trabalhadores enfrentam redundância no processo produtivo e facilitar que empresas demitam trabalhadores por “razões econômicas”.

Aqui uma das propostas mais regressivas de Macron em relação a impostos: um corte orçamentário de €64,5 bilhões em cinco anos, de forma que as autoridades municipais tenham que cortar €13 bilhões – isso representa, respectivamente, €4,5 bilhões e €3 bilhões a mais do que ele prometeu durante a campanha. Ele também planeja reduzir os impostos locais sobre unidades domésticas, fazendo os governos municipais sangrarem.

Em um de seus momentos mais francos, o governo de Macron admitiu que suas políticas não são exatamente progressistas. Quando o Financial Times sugeriu ao Primeiro Ministro Edouard Philippe que a política para a economia estava à direita, ao contrário do que Macron dizia durante a campanha, ele riu e respondeu “Sim. O que você esperava?”

Possíveis medidas futuras incluem reduzir imposto sobre imóveis (preço:€10 bilhões) e, na esperança de atrair bancos para a França que devem deixar Londres devido ao Brexit, remover o maior saldo de impostos sobre a folha de pagamento de banqueiros, o que significa uma redução de até 50%, e estabelecer o direito de excluir os impostos sobre imóveis estrangeiros e ativos por oito anos. O imposto sobre as empresas também seria reduzido em 25% até 2022.

Com um conjunto de políticas econômicas que faz o mundo financeiro babar, alguém pode ter esperança que o resto do programa de Macron é ao menos tragável. Mas assim como o discurso dos demais que se colocam como uma alternativa, a política de Macron só vai longe quando abandona o reino da retórica.

Assim como Trudeau, Macron se dizia feminista, dizia que queria que o cargo de Primeiro Ministro fosse ocupado por uma mulher e pediu que mais candidatas mulheres se juntassem ao seu partido. Porém, como bem escreveu Pauline Bock do New Statesman’s, Macron escolheu um homem como Primeiro Ministro, escolheu um homem como porta-voz enquanto havia duas mulheres como possibilidade, além do fato de a paridade de gênero em disputas eleitorais já ser uma lei na França. Pior que tudo isso, os seus cortes orçamentários vão atingir de forma mais profunda as mulheres refugiadas e todos os tipos de programas no qual as mulheres francesas dependem.

E em relação aos direitos LGBTs? Macron foi elogiado e aplaudido por desafiar Vladimir Putin sobre a Síria, propaganda russa e direitos gays. Sem objeções aqui. Mas o que acontece quando essas críticas devem ser levadas a um Estado que não é o atual bicho-papão do Ocidente? Como, por exemplo, a Arábia Saudita, um estado violentamente repressivo, misógino e homofóbico.

Macron disse que “seria um erro mostrar apoio excessivo a Arábia Saudita, como já fizemos no passado”. No entanto, como Ministro da Economia, ele apoiou a linha do partido quando Hollande cobria o regime. Macron foi uma das diversas autoridades importantes que se reuniram com o príncipe herdeiro quando ele visitou Paris para receber a Legião de Honra em 2016 – uma reunião que Macron não colocou em sua agenda pública.

Quando questionado sobre as vendas de armas para aquele país durante a campanha, Macron descartou a questão, dizendo que “a França não vendeu muito para a Arábia Saudita”. Mas fato é que os sauditas se constituíram como o principal cliente de arma de fogo da França na última década, estando o Catar em um segundo lugar relativamente distante. A França autorizou US$18 bilhões em licenças de armas para a Arábia Saudita em 2015 e o fornecimento de armas ao país foi celebrado pelo governo, mesmo que alimentando a guerra terrível dos sauditas no Iêmen. A decisão de Macron de minimizar o problema é uma reação peculiar de alguém que declarou em seu discurso inaugural que “a França sempre se certificará de estar do lado dos. . . direitos humanos.”

Quando Macron não está fazendo promessas vazias em defesa dos direitos humanos, Macron está ocupado abraçando os militares. Sua posse foi carregado de simbolismo militar para mostrar sua “profunda empatia pelos defensores da liberdade”. Após ser criticado pelos militares devido aos cortes no orçamento da defesa, ele rapidamente retrocedeu e prometeu aumentar os gastos militares nos anos subseqüentes, elevando-o para 2% economia em 2025 – em contraposição aos atuais 1,7% – ainda que tenha cortado gastos públicos em outras áreas.

Para quem é um suposto ideal do liberalismo internacional, Macron também provou ser um defensor bastante pobre dos direitos democráticos liberais. Macron anunciou que acabaria com o estado de emergência em que a França está desde 2015 ao mesmo tempo em que prometeu novas leis antiterroristas que permitiriam que as autoridades fechassem os locais de culto e assegurassem as áreas que considera de risco, sem a permissão dos tribunais. Macron também tornar permanentes algumas das leis de emergência, inclusive aquelas que capacitam as autoridades a colocar as pessoas em prisão domiciliar, solicitar buscas domiciliares e proibir as reuniões públicas sem aprovação de juiz. (Estas leis já foram usadas contra centenas de militantes, ambientalistas e ativistas dos direitos trabalhistas).

Os gestos antidemocráticos fazem parte da trajetória de Macron. Em julho de 2015, ele lamentou que a derrubada da monarquia após a Revolução Francesa deixou um “vazio emocional, imaginário e coletivo” que o presidente francês deveria preencher. Quando no poder, de forma conveniente, Macron não só declarou seu desejo de passar suas reformas econômicas impopulares por decreto, ao invés de por vias parlamentares, mas também que quer cortar o número de legisladores por um terço, ameaçando colocá-lo sob referendo, se o parlamento não concordar.

Em um longo discurso de uma hora, Macron disse a deputados que o processo legislativo seria simplificado uma vez que “o ritmo da concepção das leis deve atender às demandas da sociedade” em áreas onde uma resposta rápida é particularmente necessária, destacando a segurança e, entre todas as demais coisas, direitos autorais digitais. Ele classificou a “proliferação legislativa” como uma “doença”, sugerindo que o parlamento deveria assumir um papel mais “de supervisão” enquanto o Executivo deveria atuar e advertir contra transformar a vulnerabilidade da nação em uma “enfermaria permanente de Estado”.

Dada a forma como Macron foi eleito, talvez o ponto mais irritante seja sua política referente à imigração. Macron se apresentou conscientemente como o candidato anti-Le Pen. Recentemente, seu governo revelou planos para encurtar o processo de pedido de asilo de um ano para seis meses e criar mais lugares para os que procuram de asilo. Em junho, um porta-voz do governo anunciou que Macron havia mandado que as autoridades locais mostrassem “mais flexibilidade” e “humanidade” em relação aos imigrantes. E em julho, a polícia levou milhares de imigrantes que dormiam no chão duro para abrigos temporários.

No entanto, Macron também nomeou Gérard Collomb como Ministro do Interior, que adotou uma linha dura contra refugiados. Ele descartou a criação de um novo centro de acolhimento de imigrantes em Calais porque “nós não queremos criar um ponto de encontro onde os números podem inflar”, enviou mais 150 policiais para evitar que imigrantes levantassem novas tendas e prometeu enviar mais policiais para evitar que a área se torne uma “úlcera”, apenas um dia após a ordem de Macron para “mais humanidade”. Collomb se referiu aos imigrantes como “enigmáticos” e sua posição foi louvada pela Generation Identity, um grupo juvenil de extrema direita que ofereceu seus serviços ao ministro.

As forças francesas de segurança também continuaram seu tratamento severo aos imigrantes sob o comando de Macron. Grupos humanitários acusaram a polícia de bater nos imigrantes em Calais, colocando gás em seus sacos de dormir e em seus cantis para torná-los inutilizáveis e impedindo que grupos de ajuda distribuíssem água e alimentos. Acusações semelhantes foram posteriormente repetidas pela Justiça Nacional, levando atores franceses de alto perfil e políticos a recorrerem a Macron. Segundo o Médicos Sem Fronteiras e um grupo de ativistas franceses LGBT, esse assédio continuou após a ordem de Macron. E em resposta à sua conversa de que não ouviu “o suficiente sobre o pedido de ajuda da Itália referente à crise da imigração”, as autoridades italianas afirmam que não há diferença substancial entre a abordagem de Macron e Hollande em relação à manter a fronteira fechada.

Imagine a relutância dos liberais se uma figura mais nociva atendessem às mesmas políticas – buscando minar o poder da lei, reduzir os impostos sobre os ricos e enfraquecer as proteções dos trabalhadores por decreto executivo, assediar imigrantes e sistematizar permanentemente medidas emergenciais antiterroristas.

Um mandato para resistir

A auto-representação de Macron como corajoso e um outsider que desafia a ortodoxia foi sempre uma farsa. Sua trajetória prévia e suas atitudes na presidência evidenciam que ele é um político convencional de “terceira via”, cuja vontade de conquistar vacas sagradas e desafiar as estruturas de poder apenas se mantém se estas vacas sagradas e estas estruturas de poder são os sindicatos e os direitos dos trabalhadores. Basta analisar a rapidez com que Macron se corrigiu quando o exército francês se colocou contra o corte de gastos.

A maioria da imprensa ao menos reconhece essa realidade, se referindo a ele como um “centrista”. No entanto, o que é incompreensível é como, apesar do seu histórico, sua imagem continua sendo a de um líder dos direitos dmocráticos e liberais em muitos círculos.

A maior preocupação é que Macron, impulsionado pela dormência global e seu suposto mandato eleitoral, conseguirá implementar sua agenda com sucesso. Em relação ao seu mandato, Macron está certo em um ponto – ele bateu Le Pen por 32 pontos – mas errado em outro, muito mais significativo: as eleições francesas tiveram a menor participação na história, mergulhando abaixo dos 50% pela primeira vez, sugerindo que a população francesa não estava muito feliz com os candidatos e que muitos votaram em Macron simplesmente como uma forma de impedir o neofascismo francês. A aprovação da Macron já caiu dez pontos.

Macron está apostando que suas políticas farão com que o desemprego caia para 7% até 2022. Talvez caia. Mas, historicamente, reduzir os empregos do setor público e restringir os gastos públicos ao privar o governo de dinheiro cortando impostos sobre os ricos não teve um bom retorno.

Com a ausência de uma oposição de massas, Macron provavelmente irá exacerbar a desigualdade e a insegurança econômica que ajudaram no crescimento de Le Pen – só que, dessa vez, ela também herdaria as leis antiterroristas que Macron planeja dar andamento.

Então Macron não é algo a se comemorar. Ele pode ter bloqueado temporariamente a extrema direita de tomar o poder na França, mas ele está fazendo tudo o que pode para trazê-la de volta com tudo.

Em retrospectiva: O Capital

Como o mundo é remodelado por outra revolução industrial, Gareth Stedman Jones revisita a opus de Karl Marx.

Gareth Stedman Jones


Condições sombrias em fábricas do século XIX, como esta em Sheffield, no Reino Unido, inspiraram O Capital.

Em meados do século XIX em toda a Europa, as mudanças científicas e tecnológicas por trás da Revolução Industrial estavam cobrando um forte preço social e político. Surgiram relatórios da pobreza e dos problemas de saúde da população das cidades, da superlotação, do trabalho infantil e das condições opressivas das fábricas. Esta "questão social" provocou uma ansiedade generalizada. Enquanto isso, a censura, a repressão, o contínuo domínio das aristocracias e a exclusão das classes trabalhadoras do sufrágio inflamaram o crescente descontentamento político.

Observando, analisando e sintetizando essas mudanças estava o economista da Renânia Karl Marx (1818-83). Ele codificou os conceitos de trabalho, comércio e mercado global com efeitos explosivos em O Capital, cujo primeiro volume foi publicado há 150 anos. O impacto do livro sobre economia, política e assuntos atuais tem sido formidável, e aspectos do pensamento de Marx permearam áreas de pesquisa científica tão disparatadas quanto a robótica e a teoria evolutiva. As revoluções industriais, como Marx percebeu, relegaram os trabalhadores ao status de cuidadores de máquinas e abriram caminho para a produção que não depende do trabalho humano.

Como explicar a infusão dos conceitos de O Capital em tantos campos? Friedrich Engels, colaborador de longa data de Marx e autor do inovador A Condição da Classe Trabalhadora na Inglaterra de 1845, comparou O Capital à teoria da evolução por seleção natural, publicada oito anos antes. Ele escreveu: "Assim como [Charles] Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana".

O que é extraordinário sobre O Capital é que ele oferece uma imagem ainda inigualável do dinamismo do capitalismo e sua transformação das sociedades em escala global. Ele incorporou firmemente conceitos como mercadoria e capital no léxico. E ele destaca algumas das vulnerabilidades do capitalismo, incluindo a perturbação inquietante dos Estados e dos sistemas políticos. A eleição de Donald Trump, a votação do Brexit e o aumento do populismo na Europa e em outros lugares podem ser entendidos como efeitos indiretos das mudanças na divisão global do trabalho - a deslocalização de aspectos-chave da produção moderna da Europa e dos Estados Unidos. Isso foi provocado por mudanças no que Marx identificou como o impulso incessante da empresa capitalista para a expansão.

Uma revolução humana

No início da década de 1840, Marx era o editor radical do jornal Rheinische Zeitung, escrevendo editoriais que atacavam a Prússia em nome da liberdade de imprensa. Depois que o jornal foi banido em 1843, ele partiu para Paris, tornando-se um comunista. Ele começou a defender uma revolução, não política como a da França em 1789, mas "humana", realizada por uma classe abaixo da sociedade existente: o "proletariado".

Durante seu exílio, o projeto teórico de Marx foi iniciado quando, como editor do Deutsch-Französiche Jahrbücher, recebeu o artigo de Engels "Esboços de uma Crítica da Economia Política". Os dois se conheceram em 1844. Engels, que estava gerenciando a fábrica têxtil de seu pai em Manchester, no Reino Unido, condenou um sistema econômico baseado em propriedade privada, cuja teoria era "economia política" ou a "ciência do enriquecimento". Este, argumentou, trouxe o fim da escravidão e do feudalismo apenas para transformar camponeses e artesãos em assalariados sem propriedades. Essa visão estimulou Marx a embarcar em sua crítica à economia política, que se tornou O Capital.

Marx trabalhou sobre a obra por 30 anos, mas completou apenas o primeiro volume; Engels reuniu os outros dois depois que Marx morreu, de suas anotações. Marx abordou sua tarefa com precisão científica e um árduo e acadêmico uso de estatísticas oficiais e fontes históricas. (Como ele observou no prefácio da edição francesa de 1872: "Não há uma estrada real para a ciência, e somente aqueles que não temem a escalada fatigante de seus caminhos íngremes têm a chance de ganhar seus cumes luminosos.") O Capital foi único em seu tempo por enquadrar a história não em termos filosóficos idealistas ou abstratos, mas em materiais: os fatos sociais e econômicos da vida humana.

Marx afirmou que a propriedade privada criou uma sociedade baseada no estranhamento, impulsionada pela "luta de classes" rumo a dominação do mercado mundial. Essa representação de um mundo impulsionado pelos imperativos do desenvolvimento capitalista, memoravelmente retratado por Marx e Engels em seu panfleto de 1848, O Manifesto Comunista, ainda cabe. Na verdade, desde a queda da União Soviética em 1991, tornou-se cada vez mais dominante como um tropo econômico.

No primeiro volume de O Capital, Marx explorou como os trabalhadores são explorados através da produção - o processo real de trabalho. Ele argumentou que o capitalista comprou a capacidade de trabalho dos trabalhadores, não o trabalho deles. Para lucrar, ou extrair o "valor excedente" dos trabalhadores, o capitalista teve que prolongar o dia útil ou aumentar a produtividade durante cada hora. Com base em registros como os da Britain's Factory Inspectorate, Marx argumentou que, para "perceber" a mais-valia, as mercadorias deveriam ser distribuídas e vendidas com lucro no mercado mundial. Mas sem certeza de venda, poderia surgir "crise capitalista": os bens poderiam ser produzidos demais ou os lucros diminuíram. Marx viu a introdução de máquinas de "economia de mão-de-obra", como os teares têxteis a vapor, que deslocavam os trabalhadores, levando a uma taxa de lucros decrescente; ele acreditava que apenas o trabalho vivo poderia produzir lucros.

Em termos de impacto imediato, O Capital foi uma rojão úmido. A edição alemã de 1867 vendeu apenas 1.000 exemplares em 5 anos. O volume não foi traduzido para o inglês até 1886, após a morte de Marx. Foi nessa década, de 1883 a 1893, que o impacto real do livro e o pensamento mais amplo de seu autor começaram, devido muito aos esforços de Engels na promoção do marxismo - especialmente seu panfleto de 1880, Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico. O Capital tornou-se um documento fundacional do movimento socialista internacional, que emergiu em Paris em 1889 com a formação da Segunda Internacional, uma organização de partidos socialistas e sindicatos.

No século XX, com a revolução russa em 1917 e especialmente durante a guerra fria, o marxismo, como agora entendemos, passou a dominar as relações internacionais. Ironicamente, foi o medo do comunismo e seu apelo às classes trabalhadoras, especialmente na França e na Itália, que encorajaram muitos países ocidentais a estabelecer sistemas efetivos de segurança social e do Estado de bem-estar social.
Alguns dos aspectos mais prescientes do pensamento de Marx não aparecem no livro publicado. Sua concepção de crise capitalista como "a lei mais importante da economia política moderna" aparece apenas em um rascunho inicial, mas a recessão periódica é agora uma norma do capitalismo. Suas especulações sobre um futuro de produção cada vez mais automatizada são exibidas apenas em notas. Nestas, Marx ansiava pelo trabalho mecanizado, permitindo mais tempo de lazer e o uso mais criativo deste; o trabalho significativo, ele acreditava, era a última vocação da humanidade. Hoje, é claro, as redundâncias ligadas à recessão, a "economia sob demanda" e o aumento da força de trabalho robótica evocam respostas muito diferentes. Mas os pressupostos básicos expostos nas notas e no livro publicado ainda são: classe, sociedade e capital foram criações humanas e históricas e, como tal, poderiam ser abolidas ou transformadas por agência humana.

Marx também estava profundamente interessado em etnologia, notadamente o trabalho do antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan, que foi pioneiro em estudos de parentesco e desenvolveu uma teoria da evolução social na Sociedade Antiga (1877). Em seus últimos anos, a partir desta e de outras fontes, Marx elaborou o conceito de comunismo primitivo - a ideia de que as culturas tradicionais, existentes antes do advento da propriedade privada e do Estado, sustentavam a propriedade comum e a igualdade social. As ideias e sugestões de Marx sobre a progressão dos sistemas econômicos e suas relações com sociedades particulares influenciaram imensamente as ciências sociais, especialmente a antropologia, a sociologia e a história.

Quanto ao comentário de Engels sobre Darwin e Marx, houve alguma afinidade real entre seus pensamentos? Isso parece forçado. O Capital e Sobre a Origem das Espécies, ambos exploram o conflito e o dinamismo, mas um não se mapeia perfeitamente no outro. O próprio Marx não pode ser chamado de darwinista, apesar da existência de evolucionistas marxistas posteriores.

Se O Capital emergiu agora como um dos grandes marcos do pensamento do século XIX, não é porque conseguiu identificar as "leis do movimento" do capital. Marx não produziu uma imagem definitiva, nem das raízes do modo de produção capitalista, nem da sua extinção putativa. O que ele fez foi conectar a análise crítica da economia de seu tempo com suas raízes históricas. Ao fazê-lo, ele inaugurou um debate sobre a melhor maneira de reformar ou transformar a política e as relações sociais, que tem acontecido desde então.

"A beleza de nossas armas" na guerra contra o Iêmen

por George Capaccio

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

“Oh, Senhor, nosso Deus, ajudai-nos a rasgar a carne dos soldados inimigos em postas sangrentas com nossas bombas; ajudai-nos a cobrir seus campos alegres com as formas pálidas de seus patriotas mortos; permiti-nos abafar o trovão dos canhões com os feridos retorcendo-se de dor; ajudai-nos a destruir seus lares humildes com um furacão de fogo; ajudai-nos a arrancar com dor inútil o coração de viúvas inocentes; ajudai-nos a deixá-las sem lar a vagar, com trapos, fome e sede, na companhia dos filhos pequenos, abandonadas pelas ruínas de sua terra desolada, enfrentando o calor do sol de verão e os ventos gelados do inverno, o espírito abatido, exaustas de aflição, implorando a Vós o refúgio da tumba e vê-lo negado... por nós que Vos adoramos. Senhor, matai suas esperanças, estiolai suas vidas, prolongai sua amarga peregrinação, tornai pesados os seus passos, molhai com suas lágrimas o seu caminho, manchai a branca neve com o sangue de seus pés feridos! Imploramos a quem é o Espírito do amor, refúgio e amigo fiel de todos os que sofrem e buscam Sua ajuda com humildade e contrição. Atendei à nossa prece, oh, Senhor, e Vossas serão a gratidão, a honra e a glória por todos os séculos dos séculos, Amém.” 
– Mark Twain, Prece pela Guerra

Tradução / Neste verão de nosso amor pela inefável glória e grandeza da nossa República, vamos lembrar as altissonantes palavras de Mark Twain e de sua “Prece pela Guerra”, tão terna e misericordiosa. Vamos elevar nossas graças a Deus e seus cooperadores múltiplos, por fazer de nossa nação esta excepcional fonte de sabedoria, saúde e armamentos. Vamos louvar em voz alta nossos fabricantes de armas por seu altruísmo, seu desprezo pelos lucros e seu compromisso pela continuação da boa guerra que nenhum preço é alto demais para pagar, com suas vidas perdidas, nenhuma tão pequena que não possa ser reduzida a cinzas, na eterna busca pela segurança nacional, hegemonia global e controle inquestionável dos recursos vitais do mundo inteiro.

Curvemo-nos frente aos cavalheiros e damas do Pentágono e da CIA, e ante seus mestres soberanos na Casa Branca e na morada dos legisladores cuja moralidade profunda e compromissada é claramente evidente, por suas decisões de providenciar bilhões de dólares em armas para os déspotas esclarecidos da Arábia Saudita. Deus proteja o Rei Salman e seus ministros de Estado, que reinam sobre mares de petróleo, aquele lubrificante pegajoso que mantém o ronronar de nossos motores e nossa economia bombando com os frutos da exploração e da expansão do capitalismo.

Agora, enquanto o mundo se torna cada vez mais quente, os mares cada vez mais altos e os deuses repousam em suas almofadas de nuvens conspurcadas de gases do efeito estufa, levantemos nossa voz em louvor à nossa união inquebrantável com a Casa de Saud, guardiã das chamas eternas que queimam em seus desertos recheados do precioso petróleo. Senhor nosso Deus, faça com que esses poços titânicos continuem bombeando e mantenha o fluxo de numerário na direção correta dos cofres da Raytheon, Textron, General Eletric e nossos irmãos de armas. Mantenha Senhor os nossos mísseis e bombas em sua queda incessante, desabando como estrelas enfeitiçadas nos mercados, mesquitas, aldeias, fazendas e campos do Antigo Iêmen, o país mais pobre do Oriente Médio, bem ali ao lado do mais rico, a Arábia Saudita. Oh Deus, nos dê força e determinação para continuar no apoio irrestrito para essa coligação liderada pelos sauditas em seus ataques sem peias contra o povo indefeso do Iêmen e contra os lutadores rebeldes em seu seio.

Acima de tudo, Senhor, não perca de vista a cascata infinita e incessante de tweets caindo sobre nossos ouvidos e celulares ungidos, aos quais prezamos tanto, e dos quais não nos desviamos para não correr o risco de perder o último tweet, e assim nos expondo aos ventos raivosos que rugem ao nosso redor, noticiando o Reino do Mal. Nunca permita que nos esqueçamos do dever de amarrar Donald Trump no pelourinho a cada oportunidade, colocando seus pés a queimar no fogo lento pelo crime de conluio com o Império do Mal. Deixe-nos sempre cientes dos insultos que desabam sobre Trump através de nossos colegas no alto de seus púlpitos da MSNBC e de seus peritos que tudo sabem e tudo veem, que perscrutam sob cada pedra e cada rocha, e que, em cada fenda do Estado de Segurança Nacional conseguem perceber a pista maliciosa da invasão russa.

Dê-nos Senhor, a força para fechar nossos corações frente aqueles que tentam enfraquecer nossa firmeza, usando o ácido corrosivo da compaixão inútil. Faça de nós como ao corajoso Ulisses, que resistiu à canção das sereias. Que não nos sintamos tentados a atender aos gritos dos necessitados em locais como o Iêmen, onde nossa grandeza e generosidade, nossas armas e nosso apoio diplomático permitem que a coalizão saudita continue a trazer o mítico “furacão de fogo” contra essa terra torturada e pobre.

Que seja feita a sua vontade, Senhor. Foi Você que ordenou esse sofrimento todo, essa mortandade de carne e espírito, essa imposição implacável de dor contra o povo do Iêmen. Na verdade, o que está acontecendo no Iêmen é apenas o cumprimento de sua Palavra Sagrada, a qual Você ordenou para sinalizar Sua presença no mundo e da graça e mercê que flui incessantemente de Seu coração imaculado. Mesmo que as pessoas do Iêmen clamem por misericórdia. Embora suas famílias, aos milhões, tenham perdido suas moradas, seus meios de subsistência, seu futuro, sua fé em uma vida melhor. Apesar da fome, da pestilência e da morte que campeia horrenda em sua terra enquanto os bombardeios aumentam de intensidade e selvageria a cada dia que passa, tudo é como deve ser, tudo como está escrito no Livro do Tempo.

Oh Senhor nosso Deus, ajude para que compreendamos e aceitemos a absoluta necessidade de desempenhar o papel que nos foi dado para entregar ao povo do Iêmen a Sua Onisciência e Bondade, pois Você entende a justiça inefável e suprema da Guerra e a devastação que resultou da assistência do nosso congresso, nosso presidente e nossos militares. Auxilia-nos a estabelecer para os membros equivocados de nossa Câmara dos Deputados (que votaram contra nossa participação na Guerra do Iêmen) o caminho de volta para a justiça, do nosso apoio para a Arábia Saudita e seus aliados tementes a Deus. Com certeza, esses políticos não conseguiram apreender em sua totalidade a lógica divina por trás de Seus desígnios para o Iêmen e todo o Oriente Médio.

Não são, Oh Senhor, as lágrimas das crianças tornadas órfãs, sendo criadas por mães tornadas viúvas, exemplos de coisas maiores, de um tempo em que a paz e a abundância reinarão incontestes sobre o povo do Iêmen, enfim subjugado para colher as bênçãos de Sua recompensa? Como foi no Iraque e na Líbia, assim será no Iêmen, na Síria e no Afeganistão e em todas as demais nações onde nossos abençoados homens e mulheres em uniformes levam a luta contra todo tipo de tirania, espalhando pela terra as joias preciosas da Liberdade e da Democracia.

Venha em nosso auxílio, Senhor, para que não nos oponhamos nem condenemos a cumplicidade de nossa nação na destruição do Iêmen e na criação da mais severa crise humanitária do mundo atual. Que continuemos com a carga insensível de nossa vida diária sem sentir sequer uma pontinha de preocupação com as vítimas inocentes de nossos líderes de mente avançada e sua sábia estratégia para uma guerra sem fim contra o terror. Em vez disso, vamos cantar e louvar a “beleza e eficiência de nossas armas”, a nobreza de nossas causas. Com Sua ajuda, Oh Senhor, teremos sucesso no emprego de todos os instrumentos da guerra para realizar Seus santos planos de paz para toda a Terra.

São tolos aqueles que não conseguem enxergar a clareza de Seu amor pela humanidade. As armas e munições que providenciamos para os sábios líderes da Arábia Saudita e seus aliados regionais com certeza trabalham para promover Sua visão mais complacente daquilo que nossa raça consegue alcançar. Veja a beleza das crianças inocentes sofrendo em camas de hospital ou o abraço dolorido de suas mães, seus corpos magros como papel se extinguindo nas chamas da fome e da doença, enquanto os aviões despejam carga após uma carga de virtuosas bombas e os camponeses que percorrem gritando o campo para ver se cobrou algum de seus entes queridos. Isso não é prova de sua imersão radical nos assuntos dos homens? É ou não é uma prova de Sua profunda imanência nos assuntos dos homens?

Oh Senhor nosso Deus, ajuda para que permaneçamos em silêncio ante tanto sofrimento, que evitemos lançar sobre ele nossos olhos, que continuemos a fingir que nossas vidas insignificantes não são os mesmos poderes em ação, mesmo que a história demonstre o contrário, e os profetas de tempos imemoriais tenham pedido que as pessoas abrissem seus corações para ouvir os gritos de dor de seus irmãos e irmãs, que fizessem tudo ao seu alcance para curar os doentes, abrigar os despossuídos e colocar fim à crueldade de todas as guerras. Finalmente, Senhor nosso Deus, ajude a cada um de Seus servos para ignorar a sabedoria das eras passadas e as advertências daqueles que podem talvez se opor à Sua vontade e à vontade dos Seus servos em todos os governos da Terra, os quais calculam a própria grandeza pelo número de cadáveres que se amontoam aos seus pés.